52 anos sem Guevara: os dois Albertos do Che

52 anos sem Guevara: os dois Albertos do Che

Há dois anos, por ocasião dos 50 anos do assassinato de Ernesto Che Guevara, o site The Huffington Post Brasil publicou um artigo intitulado “7 coisas que você deveria saber sobre Che Guevara antes de vestir aquela camiseta”. Referia-se, a jornalista Sara C. Nelson, que assinou o artigo, à icônica foto do Che de boina e olhar no horizonte, classificada como a mais famosa de todos os tempos pelo Maryland Institute of Art.

Entre aquelas sete coisas estava que o Che era “temido por sua brutalidade e inclemência e supervisionou a execução de desertores, informantes e espiões”, e não estava o principal sobre aquela foto, que é o contexto do clique – o HuffPost, na verdade, sequer menciona o nome do fotógrafo, Alberto Korda.

Pois a oitava coisa que você precisa saber antes de vestir aquela camisa com “a” foto de Ernesto Che Guevara, nestes 52 anos da morte do Che, é essa: ela foi feita durante o funeral das vítimas do mais grave atentado terrorista da história de Cuba: a explosão do navio francês La Coubre, no dia 4 de março de 1960, no porto de Havana.

Sobre a mais famosa fotografia de Ernesto Che Guevara, o autor da foto, Alberto Korda, relata no livro “Cuba por Korda”:

Ao pé da tribuna, coberta com crepe preta, o olho fixado na minha velha Leica, eu metralhava Fidel e todos aqueles que o cercavam. De repente, através da objetiva de 90mm, surgiu Che. Seu olhar me espantou.

Contam Christophe Loviny e Alessandra Silvestre-Lévy no livro “Cuba por Korda”:

“No início de março de 1960, mais de um ano após a tomada do poder pelos revolucionários, um cargueiro francês da Companhia Geral Transatlântica, La Coubre, chegou ao porto de Havana. Transportava a segunda carga de munições que os cubanos haviam conseguido comprar na Bélgica, apesar das pressões de Washington. Porém, no dia 4, duas explosões enormes sacudiram a cidade. O atentado fez oitenta e um mortos e duzentos feridos em meio aos trabalhadores do porto. Atribuída por Fidel Castro à CIA, esta carnificina pôs fim a toda esperança de reconciliação com os americanos. Um fotógrafo da revista Verde Olivo, Gilberto Ande, flagrou Che socorrendo os feridos. Mas este o proibiu de fotografá-lo. Considerava vergonhoso ser objeto de curiosidade em tais circunstâncias. No dia seguinte, por ocasião dos obséquios das vítimas, Korda postou-se diante do cemitério de Havana, a serviço do jornal Revolución. Fotografava Fidel Castro, que fazia um violento discurso, Che Guevara, e também Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Os intelectuais franceses haviam acabado de chegar a Cuba. Tinham ido testemunhar, por si mesmos, aquela experiência revolucionária que apaixonava todo o mundo. Após seu regresso, Sartre escreveria uma longa série de artigos no France-Soir, com o título ‘Furacão sobre o açúcar’. E concluiria que ‘Cuba quer ser Cuba e nada mais’.”

Simone de Beauvoir, Sartre e Che Guevara no Ministério da Indústria de Cuba, por volta da meia-noite. Foto de Alberto Korda.

E conta Korda:

Num reflexo, bati duas vezes: uma tomada horizontal, outra vertical. Não tive tempo de fazer uma terceira, ele se retirou discretamente para a segunda fila. De volta ao meu estúdio, revelei o filme e fiz algumas cópias para o Revolución. Preferi enquadrar a foto horizontal de Che para imprimir o clichê vertical, pois uma cabeça aparecia atrás do seu ombro. No entanto, a foto não foi selecionada naquela noite pela redação. Pendurei a cópia na parede do meu estúdio”.

E, de novo, Christophe Loviny e Alessandra Silvestre-Lévy:

“Em junho de 1967, sete anos após a explosão de La Coubre, o mundo inteiro se perguntava para onde fora Guevara. Ninguém sabia ainda se estava acendendo outro foco de guerrilha na Bolívia. Enquanto isso, em Havana, o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli procurava um belo retrato de Che. Apresentou-se a Korda com uma carta de recomendação de Haydée Santamaría, uma revolucionária de primeira hora. À vista deste sésamo, o fotógrafo lhe deu de presente duas cópias. Em outubro do mesmo ano, Che seria preso e executado pelo exército boliviano. Alguns meses mais tarde, Fidel Castro enviaria o diário de Che na Bolívia a Feltrinelli, que se comprometeu a publicá-lo e reverter os ganhos aos movimentos revolucionários da América Latina. Ao mesmo tempo, o editor imprimiu os primeiros milhares de pôsteres com a foto de Korda. Transformada em símbolo planetário, milhões de exemplares da foto foram difundidos sem o crédito de autoria. Korda nunca tocou em um centavo dos direitos sobre a venda destes cartazes”.

No dia do lançamento do meu livro "Corações Sujos", em São Paulo, em maio de 2000, apareceu na fila ninguém menos que o…

Posted by Fernando Morais on Monday, October 7, 2019

Granado

Foi de uma casa e de uma família de classe média da Argentina que o jovem médico Ernesto Guevara saiu para percorrer a América do Sul sobre duas rodas ao lado do seu amigo Alberto Granado, sendo profundamente impactado pelo testemunho, ao longo daquela aventura juvenil, da pobreza que assolava — que assola — as classes populares do continente. O filme “Diários de Motocicleta”, de Walter Salles, consegue mostrar de forma muito sutil essa tomada de consciência do futuro líder revolucionário.

As cenas finais de “Diários de Motocicleta” são dessas coisas de levar consigo para sempre, e de fazer tremer.

Ao se despedirem, na Venezuela, no fim de sua longa jornada pela “maiúscula América”, Alberto nota algo diferente em Ernesto, e pergunta: “O que foi?”. Ernesto responde: “Não sei… Olha, depois de tanto tempo que passamos na luta… Aconteceu algo…”. Há um longo silêncio, com os dois amigos cabisbaixos, talvez envergonhados. Por fim, diz o Che: “Quanta injustiça, não é?”.

Alberto observa Ernesto entrar num avião, observa o avião partir, com o semblante carregado, como que pressentindo que um dia seu amigo do peito terminaria com o peito asmático crivado de balas. Seguem-se imagens dessa gente da América Latina com o sofrimento estampado no rosto e nos farrapados, “desde que os europeus do Renascimento se abalançaram pelo mar e fincaram os dentes em sua garganta”, nas palavras de Eduardo Galeano. Na cena seguinte, o velho Alberto, o verdadeiro, não o ator que o representou, acompanha também um avião partir num desses crepúsculos que parecem centelha, aviso de incêndio.

Em ocasião mais adiantada de sua vida, escreveria assim Ernesto Che Guevara: “Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário”.

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