Argentina: nova derrota de Macri aponta para ‘outra Venezuela mais ao sul’

Argentina: nova derrota de Macri aponta para ‘outra Venezuela mais ao sul’
Mural no bairro portenho de La Boca.

A coalização política de direita que governa a Argentina, Cambiemos, do presidente Maurício Macri, sofreu uma fragorosa derrota neste domingo, 12, na eleição para governador da província de Córdoba, segundo maior distrito eleitoral do país.

O governador peronista de Córdoba, Juan Schiaretti, foi reeleito com 54% dos votos. O candidato macrista, Mario Negri, da coligação Córdoba Cambia, amealhou a preferência de 18% dos cordobenses que foram às urnas. Na capital da província, a cidade Córdoba, segunda maior do país, venceu o também peronista Martín Llaryora.

O peronismo não vencia uma eleição para a prefeitura de Córdoba desde 1974. Quanto à província, Macri teve 74% dos votos em Córdoba na eleição presidencial de 2015 na Argentina, sua maior votação em todo o país. Na época, o resultado em Córdoba foi considerado decisivo para a chegada de Macri à Casa Rosada.

Com as derrotas desse domingo em Córdoba província e em Córdoba capital, já são oito, consecutivos, os revezes do Cambiemos em eleições regionais às vésperas de Maurício Macri tentar a reeleição. A política econômica neoliberal de Macri agravou, e muito, um cenário que no fim do governo de Cristina Kirchner já era de alta inflação e degradação geral das condições de vida.

Tarifazos e racionamento

Hoje, a Argentina sofre com uma inflação de 50% ao ano; organismos internacionais já emitem alertas para um grande contingente populacional passando fome no país; as tarifas dos transportes e os preços de luz e gás dispararam; há racionamento de leite dos supermercados.

Mas não foi ao desastroso governo Macri, que trouxe a Argentina à beira de uma convulsão social, que Jair Bolsonaro se referiu no início de maio quando disse, exibindo-se com espantosas noções de geografia, que ninguém quer “outra Venezuela mais ao sul”.

Referia-se à possibilidade de vitória de Cristina Kirchner, da esquerda peronista, na eleição para a Casa Rosada marcada para 27 de outubro. As pesquisas mostram Cristina na liderança das intenções de voto, seis pontos percentuais à frente de Macri. Por uma dessas coincidências latinoamericanas, a líder nas pesquisas na Argentina pode ter sua candidatura barrada pela justiça.

Por duas dessas coincidências, um dos maiores jornais da Argentina, o Clarín, “denunciou” tempos atrás a existência de uma conta no exterior, nos EUA, no nome do filho de Cristina, Máximo Kirchner. O Departamento de Justiça dos EUA levou dois anos para informar, oficialmente, que a tal conta jamais existiu. Alguém, talvez na TV, já observou que duas coisas formam uma coincidência, mas três coisas formam uma conspiração.

Dios mío

A expressão que o jornal Clarín – clarim do macrismo – usou para descrever a derrota de Macri nesse domingo em Córdoba foi que ela impactó fuerte en la Casa Rosada.

A expressão que Albert Einstein usou para explicar as coincidências dessa vida foi que elas são a maneira que John Bolton, ou melhor, que Deus encontrou para ficar no anonimato.

“Eu peço a Deus que a volta de Cristina Kirchner não aconteça”, disse Bolsonaro no início de maio – o presidente da República Federativa do Brasil tentando interferir numa eleição na Republica Argentina. Daqui a alguns meses, talvez com “outra Venezuela mais ao sul”, talvez diga: “estamos cercados”.

A expressão que Cristina Kirchner usou, em seu livro recém-publicado na Argentina, para se referir ao bolsonarismo foi essa: ¡Qué mundo, Dios mío!

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