No sábado, 7 de setembro, em meio ao clima de intimidação que a prefeitura do Rio fez baixar no Riocentro, o blog de Lauro Jardim no site do jornal O Globo publicou uma nota intitulada “Apesar de Crivella, público religioso prestigia Bienal do Rio”.

Quem conhece minimamente como as igrejas evangélicas neopentecostais se inserem numa certa estratégia, num certo projeto, digamos, “salomônico” para o Brasil, sabe, então, que a tática “obreira” nunca foi se retirar, mas sim ocupar, e o “segmento gospel” ocupou um belo espaço na XIX Bienal Internacional do Livro do Rio independentemente da tentativa de censura que marcou esta edição do evento.

Quem foi ao Riocentro viu vários representantes do “meio editorial evangélico” espalhados pelos pavilhões da Bienal, sendo que a maior parte das editoras do “mundo gospel” ficou concentrada justamente no inédito pavilhão infantil, de onde partiu – pois então, que surpresa – a “denúncia na internet” que motivou Marcelo Crivella a mandar recolher o gibi “Vingadores: a cruzada das crianças”.

Chamava-se precisamente “Mundo Gospel” uma grande área ocupando um dos lugares de maior destaque do pavilhão das crianças, os estandes contíguos C20 e D20, localizados bem ao lado da principal atração infantil da Bienal, a ambientação de uma floresta de contos de fadas.

Foto: Felipe Panfili/Bienal.

Dividido em “Mundo Gospel Livraria Cristã” e “Mundo Gospel Kids”, o estande duplo teve “presentes ou representadas” várias editoras inteira ou majoritariamente dedicadas à literatura cristã, entre elas a Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), a Sociedade Bíblica do Brasil, Graça Editorial, editoras Mundo Cristão, Pão Diário, Vida Nova, Luz e Vida, Fiel, Cultura Cristã e Geográfica, que, não se engane, não publica atlas, mas sim bíblias personalizadas, por público e por encomenda, como a “Bíblia do Desbravador”, para crianças. A apresentação do volume foi escrita pelo pastor Ivancy Araújo, especialista em “Mordomia Cristã/mordomos de Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Tampouco dedica-se à descrição da Terra a editora Pórtico/Planeta, também presente na área “Mundo Gospel” da Bienal do Rio. Dedica-se, isto sim, a publicar livros gospel-motivacionais, a linha Deltan Dallagnol que é uma mina de ouro do mercado editorial, além do de palestras. Dois dos títulos mais vendidos da Pórtico/Planeta são “Chamado para liderar” e “Sabedoria para vencer”, esse último escrito por Willians Douglas, o juiz cotado para ser o “terrivelmente evangélico” que Jair Bolsonaro quer indicar para o Supremo Tribunal Federal.

Outra que esteve representada no estande duplo “Mundo Gospel Livraria Cristã”/”Mundo Gospel Kids” foi a Central Gospel, a editora de Silas Malafaia. A Central Gospel acaba de pedir recuperação judicial, afundada em dívidas da ordem de R$ 16 milhões. Malafaia teve um faniquito quando a primeira instância da justiça do Rio impediu Crivella de “buscar e apreender” livros na Bienal:

Lista de editoras que expuseram no estande “Central Gospel Kids”.

Saiu pela Central Gospel no ano passado o livro “Manual de sobrevivência para o jovem cristão”, de Lúcio Barreto Jr. O manual de Lúcio, conhecido como pastor Lucinho, é “para você, jovem que deseja reconhecer e vencer os problemas, tentações e dilemas que o confrontam diariamente”, com “orientações” sobre programas de televisão, conteúdos de internet e “ambientes mundanos”.

No mundano ambiente do “segmento gospel” do mercado editorial, no princípio era o verbo. Mas hoje em dia nem só de brochuras vive este filão. Na área “Mundo Gospel” do pavilhão laranja, para as crianças, da XIX Bienal Internacional do Livro do Rio, os visitantes puderam comprar, baratinho, canecas de plástico do Smilinguido, a formiguinha que é um velho e conhecido personagem de evangelização infantil. Tinha azul, para meninos, e rosa, para meninas.

Gospel, pios, claretianos e jesuítas

Além de figurar na área “Mundo Gospel”, no pavilhão laranja, a Central Gospel de Silas Malafaia participou da Bienal do Rio também no pavilhão verde, no estande da Livraria Leitor Gospel, um dos muitos de literatura religiosa que estiveram espalhados de 30 de agosto a 8 de setembro por toda a área do evento.

No pavilhão azul estavam, por exemplo, os estandes da espírita Boa Nova e da Edições Paulinas, parte integrante do projeto apostólico da Pia Sociedade Filhas de São Paulo. No pavilhão verde, além da Livraria Leitor Gospel, participaram da Bienal a editora Ave-Maria, de missionários claretianos; a Mundo Cristão, fundada pelo missionário americano Peter Cunliffe; e a Casa Publicadora das Assembleias de Deus, que também esteve no grande estande duplo “Mundo Gospel”/”Mundo Gospel Kids” do pavilhão laranja.

No laranja, o infantil, havia ainda o estande da jesuíta Edições Loyola. Um dos lançamentos deste ano da Loyola é o livro “História da psicologia fenomenológica”, cuja capa é realmente de deixar em cólicas, ou em cólera, todos os que se dedicam a andar por feiras literárias à caça de “conteúdos impróprios para menores”, mas parece ter passado despercebida:

‘Nada a perder’

Autor homenageado na XIX edição, Maurício de Sousa participou de programações em três desses estandes religiosos ao longo dos 10 dias de Bienal no Riocentro. Logo no sábado, 31 de agosto, Mauricio visitou o estande da editora Ave-Maria, na companhia da Mônica e do Cebolinha, para uma sessão de autógrafos do livro “Turma da Mônica – Dia a Dia com Jesus”.

No dia seguinte, domingo, 1º de setembro, Mauricio de Sousa esteve no estande Boa Nova para lançar os livros “Chico Bento – além da vida”, sobre reencarnação, e “Turma da Mônica jovem conhece violetas na janela”, sobre a chegada de uma jovem ao “outro mundo”.

Por fim, neste domingo, 8, último dia da Bienal, com fiscais de Marcelo Crivella zanzando pra lá e pra cá – os servidores e os voluntários, todos à paisana -, Mauricio de Sousa, que tem um filho gay, foi ao estande da Livraria Leitor Gospel, onde participou a editora de Malafaia, para lançar por outra editora, a 100% Cristão, o livro “Devocional 2”, escrito por ele em parceria com Richarde Guerra, pastor da Lagoinha, igreja “emergente” onde palestra Deltan Dallagnol. O livro é sobre “salvação”, “sabedoria” e “oração”, mas também, claro, sobre “liderança”, “chamado” e “desafio”.

Marcelo Crivella e o rebanho que lhe segue não devolveram na mesma moeda, portanto – e mais uma vez, que surpresa -, o generoso acolhimento que a Bienal do Livro deu ao “meio editorial evangélico”, em seu mapa de estandes e em sua programação.

Fechados os portões da Bienal de 2019, fica a dúvida se o prefeito do Rio teria se insurgido contra ela, como se insurgiu, caso a editora Unipro tivesse participado dessa edição. Pela Unipro, editora da Igreja Universal do Reino de Deus, estão publicados os livros de Crivella, um deles chamado “Humildade”.

Humildade? Em 2012, a Unipro, ou melhor, a Universal montou na Bienal de São Paulo um estande de 300 metros quadrados, temático. O tema? “Templo de Salomão”. Naquele ano, o principal lançamento feito no estande da Unipro foi a autobiografia do tio do bispo Crivella, o bispo Edir Macedo. O título? “Nada a perder”.

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