Chefete da República, Bolsonaro saúda as mulheres: ‘Ustra vive’

Nesta sexta-feira, 8 de março, “Dia Internacional da Mulher”, Jair Bolsonaro participou de um evento em homenagem às mulheres no Palácio do Planalto, ao lado de Michelle, de Hamilton e Paula Mourão, e das ministras Damares Alves e Tereza Cristina. Sobre ter 20 homens e duas mulheres em seu ministério, disse que “está equilibrado”, porque cada uma delas “equivale a dez homens”.

Não é o caso de reivindicar mais Damares e Terezas para ministras de Estado, mas o “equilíbrio” de gênero no ministério de Jair Bolsonaro faz lembrar certa “igualdade” de que costuma se gabar o seu típico eleitor: “tenho até amigo gay”. Ou negro.

Tendo homenageado as mulheres dessa forma, nesta sexta, na condição de chefete da República, foi na condição de deputado federal que Bolsonaro transformou seu voto pela deposição de uma delas da presidência do país, três anos atrás, num evento em homenagem ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, “o pavor de Dilma Rousseff”.

Eduardo Bolsonaro, em maio de 2018: “Ustra vive nos corredores da Câmara dos Deputados”. Hoje, Ustra vive também nos corredores do Palácio do Planalto.

Ustra, o torturador famoso por enfiar ratos vagina adentro de opositoras da ditadura militar. Para Bolsonaro, porém, ultrajante mesmo é “a distorção do espírito momesco”. O coronel Ustra faz parte também da hagiografia de Mourão, que foi seu comandado: “um homem de coragem, um homem de determinação que me ensinou muita coisa”, disse o vice-presidente, no dia em que cogitou um autogolpe, antes do intensivão de media-training por que passou nas últimas semanas do ano passado.

A ‘coragem’ dos covardes

Um francês desses bem vermelhos parece ter tido uma premonição, décadas atrás, sobre a meritocracia feminina que vai na cabeça dos cabeças desse “novo Brasil” (a de merecer ou não ser estuprada) e sobre a “fraquejada” por, depois de três homens, ter vindo uma menina. Escrevendo sobre a dominação masculina, falando sobre certas formas de coragem – “as que são exigidas ou reconhecidas pelas forças armadas”, como “pelos bandos de delinquentes” -, concluiu que elas encontram seu princípio, paradoxalmente:

“No medo de ‘quebrar a cara’ diante dos ‘companheiros’ e de se ver remetido à categoria, tipicamente feminina, dos ‘fracos’, dos ‘delicados’, dos ‘mulherzinhas’, dos ‘veados’. Por conseguinte, o que chamados de ‘coragem’ muitas vezes tem suas raízes em uma forma de covardia: para comprová-lo, basta lembrar todas as situações em que, para lograr atos como matar, torturar ou violentar, a vontade de dominação, de exploração ou de opressão baseou-se no medo ‘viril’ de ser excluído do mundo dos homens sem ‘fraquezas’, dos que por vezes são chamados de ‘duros’ porque são duros para com o próprio sofrimento e sobretudo para com o sofrimento dos outros — assassinos, torturadores e chefetes de todas as ditaduras”.

O sociólogo Pierre Bourdieu, num muro de Paris.

E completou, o companheiro de Marie Claire Brizard, como quem faz lembrar que o “Dia Internacional da Mulher” é o Dia Internacional da Mulher Proletária:

“Mas, igualmente, os novos patrões de uma luta que a hagiografia neoliberal exalta e que, não raro, quando submetidos, eles próprios, a provas de coragem corporal, manifestam seu domínio atirando ao desemprego seus empregados excedentes”.

Performance artística alusiva à prática de tortura com baratas na vagina, em rua do Centro do Rio. A apresentação, impedida pelo governador Wilson Witzel de ser feita na Casa França-Brasil, teve como parte sonora o áudio de Jair Bolsonaro homenageando Brilhante Ustra no Congresso Nacional.

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