Clã Bolsonaro exibiu gravação fraudada como ‘prova’ em 2016

Clã Bolsonaro exibiu gravação fraudada como ‘prova’ em 2016
Trecho de laudo da perícia da Polícia Civil sobre vídeo de cusparada de Jean Wyllys em Jair Bolsonaro (Fonte: G1).

“Imbecil, sou o 02. O resto da desinformação enfia onde quiser, petista vagabundo!”, tuitou na manhã desta segunda-feira, 4, o vereador Carlos Bolsonaro em reposta ao deputado federal Alexandre Padilha, que havia publicado, no Twitter também, que “bateu o desespero nos Bolsonaros” porque a polícia já sabe que o áudio mostrado “pelo 03” não é do mesmo porteiro que disse ter anunciado Élcio de Queiroz a “Seu Jair” no Vivendas da Barra, e precisamente no dia do assassinato de Marielle Franco.

Padilha, de fato, confundiu a ordem dos herdeiros: o número de série de Carlos com o de Eduardo. Mas, acerca do clã e de imbróglios com arquivos digitais, a ordem dos fatores definitivamente não altera o produto. Em 2016, Eduardo Bolsonaro divulgou uma gravação adulterada – neste caso, um vídeo sobre outro vídeo, da Record News – a título de “prova” de que Jean Wyllys “premeditou” a cusparada que deu em seu pai, Jair Bolsonaro, depois de ser insultado por Bolsonaro no plenário da Câmara dos Deputados no dia da abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Este é o vídeo original, da Record News (não se deixe distrair pela referência à cusparada de Jean Wyllys como “o momento mais antidemocrático que a gente testemunhou ontem durante a votação”. Durante a votação, no momento em que votou pelo impeachment de Dilma Rousseff, Jair Bolsonaro homenageou o homem que torturou Dilma Rousseff):

Esta é a fraude produzida pelo clã Bolsonaro a partir do vídeo da Record News:

O vídeo divulgado por Eduardo “mostra”, com auxílio de legendas, Jean Wyllys dizendo para Chico Alencar: “eu vou cuspir na cara do Bolsonaro, Chico”; “mostra”, portanto, uma cena de Jean Wyllys falando isso para Chico Alencar antes da cusparada.

Estas são capturas de tela da fraude:

E a fraude termina dando os dados para contato e redes sociais do deputado:

A lembrança dessa adulteração divulgada por Eduardo Bolsonaro em 2016 foi trazida à baila, agora, quando estão em causa as gravações do Vivendas da Barra, pelo próprio por Jean Wyllys, no último sábado, 2, em seu blog no UOL:

“Bolsonaro e seu filho Eduardo pegaram as gravações da sessão do golpe e fizeram uma adulteração criminosa – posteriormente comprovada por laudo da perícia da polícia do Distrito Federal – de modo a me acusar de ter premeditado a cuspida e, com isso, levaram-me (eu, a vítima!) ao Conselho de Ética da Câmara, com ampla cobertura de uma imprensa que fazia da perseguição homofóbica um espetáculo para me humilhar. Não se tratava da primeira vez que Bolsonaro falsificava documentos públicos para me incriminar”.

‘Há muitos vídeos sendo fraudados e utilizados como prova’

O vídeo foi divulgado por Eduardo Bolsonaro no dia 18 de abril de 2016. Só em dezembro, depois de oito meses sendo usado para desqualificar Jean Wyllys, tendo ido parar até no Conselho de Ética como “prova” contra o deputado do Psol, só em dezembro, dizíamos, o vídeo foi finalmente desmascarado por uma perícia da Polícia Civil do Distrito Federal como uma dupla fraude: nem Wyllys disse o que a legenda mostra, nem a conversa filmada com Chico Alencar aconteceu antes do cuspe, mas sim depois.

“Eu cuspi na cara do Bolsonaro”, foi o que disse, de fato, Jean Wyllys a Chico Alencar no dia 17 de abril de 2016.

“Tolerei insultos por seis anos, mas, naquela hora, cuspi na cara daquele fascista, porque foi mais forte do que eu. A minha cuspida foi uma reação e não uma ação”, disse Jean Wyllys na tarde do dia 6 de dezembro de 2016 diante dos todos probos deputados do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara. Naquela tarde, quando apresentou sua defesa no processo aberto contra ele por cuspir em Bolsonaro, Wyllys voltou a acusar Bolsonaro de fraude no vídeo que mostraria “premeditação”.

A ata daquela reunião do dia 6 de dezembro de 2016 do Conselho de Ética mostra o seguinte diálogo entre a deputada Maria do Rosário e o deputado Ricardo Izar, relator do caso:

Ricardo Izar – Consta no vídeo que contém as imagens do fato que o Deputado Jair Bolsonaro teria dito ao representado a seguinte frase: Tchau, querida! Tchau, amor! V.Exa. pode explicar se o Deputado Bolsonaro se dirigiu com frase igual ou semelhante a outros Deputados que votaram contra o impeachment da então Presidente da República?

Maria do Rosário – Não, não posso afirmar, porque eu procuro manter distância desse Parlamentar. Mas posso afirmar que muitas vezes a atitude desse Parlamentar é de perseguição a seus colegas, de formação de vídeos e de fraudes de vídeos. Há muitos vídeos sendo fraudados, e utilizados às vezes como prova. Eu sugeriria ao Relator que pedisse perícia de todos os vídeos, para saber se não há montagens.

Ricardo Izar – Já foi solicitado.

No fim da reunião, aconteceu este outro diálogo, este entre Izar, o presidente da comissão, deputado José Carlos Araújo, e o deputado Chico Alencar:

Chico Alencar – Sr. Presidente, antes de ele sair, faço uma indagação. Está sendo feita uma perícia do vídeo que foi apresentado aqui. Quando deve ficar pronta?

José Carlos Araújo – Deputado, a perícia tem de ficar pronta até amanhã. Se isso não acontecer, nós encerraremos a instrução probatória. Então, estamos fazendo força – eu ia chegar lá -, estamos correndo contra o tempo para que essas coisas todas aconteçam. Nós queremos encerrar o ano com todos os processos que tramitam no Conselho de Ética finalizados. Nós queremos zerar a pauta. Queira Deus que isso seja possível, que não apareça nenhum outro processo.

Ricardo Izar – Se a perícia não chegar até amanhã, não vai ser considerada como base da instrução probatória.

‘Na minha conta’, ‘no meu colo’

Come Ananás não conseguiu identificar a data exata em que o pedido de perícia foi feito pelo Conselho de Ética. Dois dias depois daquela reunião, no dia 8 de dezembro de 2016, a imprensa divulgou o resultado da perícia. A informação da fraude foi dada em primeira mão pelo jornal O Globo, na coluna de Lauro Jardim. O mesmo Lauro Jardim foi quem deu em primeira mão, nesta segunda, que a Polícia Civil do Rio de Janeiro já sabe que são dois, e não um, os porteiros em questão do condomínio Vivendas da Barra.

Na época do primeiro destes dois furos de reportagem da coluna de Lauro Jardim, Bolsonaro reagiu como reage hoje, diante de informações divulgadas pela imprensa sobre o envolvimento de seu nome nas investigações do caso Marielle Franco: “de que lado a grande mídia está?”.

Em vídeo publicado naquele mesmo dia 8, o deputado, por um lado, defende-se dizendo que o vídeo não é dele, é da Record News… Por outro lado, insiste escancaradamente na fraude, dizendo que é “apenas o tempo verbal” e que “o tempo verbal não muda nada”. Muda, evidentemente, porque foi o próprio cerne da manipulação que tentou mostrar uma “premeditação” da cusparada. No vídeo, Bolsonaro chega a dizer que a imprensa “quer botar na minha conta” o vídeo adulterado, como agora diz que “querem botar no meu colo” o assassinato de Marielle Franco.

Dupla fraude e duplo assassinato

A fraude apontada pela perícia de dezembro de 2016 resultou em um pedido de cassação do mandato de Eduardo Bolsonaro levado ao mesmo Conselho de Ética da Câmara. O caso foi arquivado por unanimidade, com 11 votos pelo arquivamento e uma abstenção, dois meses após o conselho punir Jean Wyllys pela cusparada.

O vídeo, uma “prova” fraudada, está até hoje online na página de Eduardo Bolsonaro no YouTube, com mais de 390 mil visualizações. Está lá, ainda, agora mesmo, com sua dupla fraude, no momento em que vem à tona que o porteiro do condomínio que anunciou Élcio de Queiroz a Ronnie Lessa na gravação divulgada por Carlos Bolsonaro não é o mesmo que diz ter anunciado Élcio a “Seu Jair” no dia do duplo assassinato de Marielle e Anderson.

Está lá, como um deboche à justiça e assombrando uma imprensa profissional que estranhamente parece não ver relevância no mínimo jornalística neste precedente do clã. Um precedente em matéria de divulgar a título de “prova” uma manipulação de arquivos digitais. Um precedente em tudo gritante para tudo aquilo que agora se suspeita, com a diferença de que agora Jair Bolsonaro é presidente da República.

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