O dia em que Bolsonaro foi declarado persona non grata em sua cidade natal

O dia em que Bolsonaro foi declarado persona non grata em sua cidade natal
Foto de Kai Pilger no Unsplash

Quase três anos antes de finalmente ser parado, barrado, impedido, cancelado, mas pelo prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e por metade da “capital do mundo”, Jair Bolsonaro foi declarado persona non grata na cidade onde está lavrado que ele nasceu, Campinas, no interior de São Paulo.

Uma moção declarando Bolsonaro persona non grata foi aprovada pela Câmara de Vereadores campineira no dia 16 de maio de 2016. A atitude dos vereadores de Campinas foi um desdobramento de um repúdio à homenagem feita por Bolsonaro um mês antes, no dia 17 de abril, ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, no momento em que votou no plenário da Câmara dos Deputados pela abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Nos últimos dias, os dias de hoje, vem circulando de mural em mural nas redes sociais o manifesto “É hora de parar Bolsonaro”, escrito pelo jornalista Luis Nassif. O manifesto exorta “uma aliança tácita entre os setores minimamente responsáveis, para não permitir o desfecho trágico” da destruição em todos os níveis, esferas e sentidos que o governo Bolsonaro vem promovendo no Brasil.

Os setores suposta e minimamente responsáveis do país, porém, tiveram a chance de parar Bolsonaro, se não antes, quando o então deputado federal, no Congresso Nacional, fez referência à tortura sofrida na época da ditadura pela então presidenta da República, mas para saudar o torturador.

‘Estou me lixando’

A Câmara de Campinas, ela sim, fez o mínimo. Uma semana depois da votação que aprovou a abertura do processo de impeachment contra Dilma, em Brasília, a casa legislativa campineira aprovou uma moção de repúdio à homenagem de Bolsonaro a Ustra. Quando soube da moção, Bolsonaro reagiu bem ao seu feitio, dizendo a um jornal local:

“Essa Câmara Municipal de vocês aí é fraca. Estou me lixando para esses vereadores que votaram isso. Eles não têm o que fazer, são uns desocupados. Esses vereadores são uns otários”.

Em seguida, no dia 16 de maio de 2016, a Câmara de Vereadores de Campinas aprovou um novo documento, proposto pelo vereador Pedro Tourinho, do PT, e que dizia:

“Diante de tamanha ofensa aos trabalhos desta Nobre Casa Legislativa, discordamos da clara tentativa de desqualificar o Poder Legislativo municipal e entendemos que o parlamentar passa a ser persona non grata em Campinas”.

Dos 27 vereadores que votaram a favor de que Jair Bolsonaro fosse declarado persona non grata em Campinas, 12 ainda cumpriam mandatos durante as eleições 2018. Desses 12, dois fizeram aberta campanha na cidade para Bolsonaro: Campos Filho, do Democratas, e Edison Ribeiro, do PSL.

Declarado persona non grata no segundo maior colégio eleitoral do estado de São Paulo, mas por ofender políticos, como quase todo “homem da rua”, e não por defender crimes de lesa humanidade, Bolsonaro teve 55,8% dos votos válidos de Campinas no primeiro turno da eleição presidencial, e 68,82% no segundo turno.

Um cabo e um soldado

Ainda que na certidão de nascimento de Bolsonaro conste que ele é natural de Campinas, o atual presidente da República Federativa do Brasil fez suas primeiras merdas no pequenino município paulista de Glicério, a 450 quilômetros de São Paulo capital. Eram tempos de fraldas de pano. De Glicério, foi levado ainda recém-nascido por aquele pai e aquela mãe para a “princesa d’ Oeste” paulista, onde começou a balbuciar e não parou mais – de balbuciar.

Na manhã do dia 23 de agosto do ano passado, durante a campanha eleitoral, Bolsonaro encontrava-se empoleirado num carro de som em Araçatuba, que fica a 38 quilômetros de Glicério. Lá do alto, imitou uma metralhadora com uma enorme chave da cidade que tinha acabado de ganhar de alguém.

No início da tarde daquele dia de um agosto especialmente agourento, Bolsonaro, fazendo um discurso numa entidade associativa de Araçatuba, comentou que nasceu na verdade, em vez de em Campinas, numa cidadezinha próxima dali, “63 anos atrás”. Imediatamente os presentes engataram um animado coro de “parabéns pra você”.

Foi um delírio. Jair Messias Bolsonaro faz anos sempre em 21 de março, mas naquele 23 de agosto, em Araçatuba, não interrompeu o “parabéns”. Deixou estar, numa homenagem silenciosa, e dessa vez não a Ustra, mas aos “setores minimamente responsáveis” do Brasil.

A associação araçatubense onde Bolsonaro estava naquela tarde é a de Cabos e Soldados da Polícia Militar.

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