Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil.

No dia 11 de janeiro de 2019, a revista Veja publicou uma entrevista com o general Walter Souza Braga Netto, que tinha acabado de cumprir a missão de chefiar a intervenção militar no Rio de Janeiro decretada por Michel Temer.

Não é incorreto dizer que Braga Netto havia acabado de entregar o cargo a Wilson Witzel, uma vez que o general fez as vezes, durante quase todo o ano de 2018, de governador de fato do estado.

Naquela entrevista, de pouco mais de um ano atrás, Braga Netto disse coisas no mínimo estranhas sobre o assassinato de Marielle Franco, crime que aconteceu durante sua “gestão” no Rio de Janeiro.

Foram comentários como “aquilo ali foi uma má avaliação deles”, “acharam que ela é um perigo maior do que o que ela era” e “eu poderia ter anunciado antes” os nomes dos responsáveis pelo duplo assassinato de Marielle e Anderson Gomes.

O general Braga Netto foi convidado por Jair Bolsonaro, citado no inquérito sobre o assassinato Marielle, vizinho do apertador de gatilho, para assumir a Casa Civil da Presidência da República, em substituição a Onyx Lorenzoni.

Come Ananás reproduz abaixo os trechos daquela entrevista em que repórter e general tratam do caso Marielle Franco.

Já se passaram mais de 300 dias desde que a vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes, foram mortos. Para o senhor, o crime foi uma tentativa de desmoralizar a intervenção? 

Não. Para mim não teve nada… Aquilo foi uma má avaliação deles, da intenção deles. Avaliaram mal, fizeram …

Avaliaram mal o quê? Quem? 

Avaliaram mal, acharam que ela é um perigo maior do que o que ela era…

Um perigo para quem? 

Não vou entrar nesse mérito. Acharam, de repente, que o estado, por estar sob intervenção, tinha desorganizado as polícias. O comandante da PM mal tinha assumido, e logo teve a morte da Marielle.

Qual a avaliação que o senhor faz do episódio? 

Vou te falar o que tenho dito sempre: foi um crime de repercussão. Na época, chamei o secretário. Falei que era necessário dar prioridade ao caso, e que não podia ter nenhum tipo de vazamento. O pessoal estava acostumado a investigação policial virar uma novela, mas, para você ter uma investigação segura, precisa de um trabalho reservado. Foi feito um trabalho, e não adianta eu fechar o caso Marielle com provas pouco robustas. Para mim, é pior prender fulano de tal, e daqui a dois meses, ou trinta dias, quando ele for julgado, ele ser inocentado. Não porque ele não é o culpado, mas porque não há provas suficientes. Isso foi montado [a investigação] para se fazer provas robustas em cima. Mostramos ao novo chefe da Polícia Civil a importância de a investigação ter continuidade. 

Foi um marco negativo para o período em que o senhor foi o interventor? É frustrante ter deixado o cargo sem ter uma solução? 

Não foi um marco negativo, foi um crime de grande repercussão que afrontou a democracia, que nós dedicamos todo o esforço possível para resolver. Está muito perto. Não trabalho com frustração, mas gostaria de ter fechado o caso antes [de a intervenção acabar]. Eu poderia ter anunciado antes, mas ia bater nisso, de não ter provas suficientes.

Mesmo com a mudança de governo o caso será solucionado? 

Pelas informações que tenho, se houver continuidade, vai se chegar a um resultado. Ele [governador Wilson Witzel] está pegando um trabalho que foi feito, que não foi da intervenção, foi das equipes que estavam em cima do caso. O caso Marielle não é problema para governador de estado, no meu caso como interventor, resolver. Não é caso nem do secretário de Segurança, é do chefe da Polícia Civil com o encarregado da Divisão de Homicídios.

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