Campanha oficial do Pacote Anticrime: ‘queria ver se fosse com sua família’

Campanha oficial do Pacote Anticrime: ‘queria ver se fosse com sua família’
Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil.

Entre as piores ideias que vão na cabeça de um bolsonarista encarniçado, como Sergio Moro, sobressai essa, verbalizada assim toda vez que alguém levanta o dedo para lembrar que direitos são direitos e são para todos, porque sem partir daí não se pode falar em civilização: “queria ver se fosse com sua família”.

Pois este que, afinal, é um dos lemas da grande marcha para trás que resultou no “novo Brasil”, o bolsonarista, acaba de ser alçado a mote de uma campanha do Ministério da Justiça para defender o “Pacote Anticrime” de Sergio Moro. Muito justo, portanto, por mais que esta lacração capaz de implodir qualquer debate racional sobre Direito Penal tenha sido dichavada num outro paralogismo, este, slogan da campanha do MJ: “a lei tem que estar acima da impunidade”.

A título de “mostrar à sociedade a importância da revisão do arcabouço jurídico da segurança pública e da adequação das leis da área à realidade atual do país”, a campanha mostra casos reais de pessoas que perderam parentes para a violência urbana.

“Virgínia foi condenada a viver com a dor de ver o seu marido assassinado por um criminoso beneficiado com um saidão”, diz uma das peças da campanha.

“Rafael foi condenado a viver com a dor de ver o assassino de seu pai não ir para a cadeia, mesmo após a sentença pelo Tribunal do Júri”, diz outra.

Em uma e outra peças, a emenda é “quando a lei não é rigorosa, quem é punido é a vítima”.

Não demora e estarão também no rádio, televisão, internet, cinema e mobiliários urbanos campanhas do “superministério” da Justiça e Segurança Pública com os bordões fascistas “tá com pena? Leva pra casa”, “direitos humanos para humanos direitos” e “bandido bom é bandido morto” mais ou menos disfarçados por publicitários que se prestam a este tipo de papel.

Jair Bolsonaro e Sergio Moro no lançamento da campanha oficial do Pacote Anticrime (Foto: Alan Santos/PR).

Mentes, corações e fígado

O secretário Especial de Comunicação Social da Presidência da República, Fábio Wajngarten, diz, a respeito da campanha, que a comunicação do governo Bolsonaro está tratando o tema de forma “responsável e correta”.

O “queria ver se fosse com sua família”, porém, bem como suas variações evasivas “a lei tem que estar acima da impunidade” e “quando a lei não é rigorosa, quem é punido é a vítima”, não teriam lugar em qualquer formulação republicana, democrática, civilizada – numa palavra, responsável – de política de segurança pública e lei penal.

Têm lugar, portanto, no “novo Brasil”. De resto, porque “os setores responsáveis deste país” jamais arranjaram jeito de tocar os corações de Virgínias e Rafaéis com a ideia basilar de que política pública e legislação não são coisas que se façam na base do luto, da raiva, do fígado.

De modo que, numa sociedade que nunca para e se pergunta que sociedade é essa que produz tantas e tantas tragédias individuais, acabam vicejando as propostas da contramão para matar a sede coletiva de justiça.

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