Vídeo de Carlos indica manipulação dos arquivos de áudio do condomínio

Vídeo de Carlos indica manipulação dos arquivos de áudio do condomínio

Na última quarta-feira, 30, Carlos Bolsonaro publicou um vídeo mostrando uma lista dos arquivos de áudio da portaria do condomínio Vivendas da Barra referentes ao dia 14 de março de 2018, com o intuito de “provar” que a entrada de Élcio de Queiroz no condomínio, horas antes do assassinato de Marielle Franco, foi autorizada por Ronnie Lessa, e não por seu pai, Jair Bolsonaro, como afirmou o porteiro e como consta no livro de visitas do número 3100 da avenida Lúcio Costa, Barra da Tijuca.

No próprio vídeo, porém, há pelo menos um forte indício de que é falso que Carlos simplesmente tenha chegado na administração do condomínio e mostrado os arquivos tal e qual eles foram originalmente e automaticamente salvos na máquina; há pelo menos um forte indício de que pastas e arquivos de áudio da portaria do Vivendas da Barra foram manipulados, mexidos, pelo menos movidos de um local para outro num mesmo computador, ou em computadores diferentes, por Carlos ou por terceiros, visando especificamente o dia da morte de Marielle e Anderson.

No vídeo de Carlos, os arquivos de áudio do dia 14 de março de 2018 aparecem arquivados na pasta “2018_03_14”, que por sua vez aparece armazenada no diretório “gravações”. No diretório “gravações”, porém, não há outras pastas, referentes às gravações de outras datas, como seria de se esperar. Isto indica que os arquivos de áudio das chamadas da portaria referentes ao dia do crime foram, na melhor das hipóteses, copiados de um lugar e colados em outro. Na pior das hipóteses, arquivos podem ter sido renomeados ou apagados.

Veja uma comparação da imagem do diretório aberto “gravações” do vídeo de Carlos Bolsonaro com a imagem de um diretório aberto do Windows onde há mais de uma pasta:

Além disso, o diretório “gravações” é uma partição “Z:”. No Windows, é possível criar e nomear partições de “A:” a “Z:”. A partição “Z:” costuma ser criada para guardar ali a “imagem” do Windows visando a reinstalação do sistema operacional sem necessidade de um CD de instalação, em caso de formatação da máquina. Formatar o computador é uma belíssima maneira de apagar arquivos sem que seja possível alguém recuperá-los.

Atualização:

Esta, porém, como outras hipóteses para o aparecimento de um diretorio “Z:” num PC, não é a explicação provável para a existência do diretório “Z:” onde Carlos acessa os arquivos de áudio do Vivendas da Barra. A explicação provável é que o diretório “gravações (\\USER-PC) (Z:)” seja uma unidade de rede mapeada.

Uma unidade de rede é uma unidade ou pasta compartilhada entre uma rede de computadores – rede acessível por senha – e com seus dados eventualmente editáveis, dependendo do nível de permissão. Costuma-se mapear uma unidade de rede quando seu uso é frequente, para facilitar o acesso a ela. Nas palavras da própria Microsoft, “mapeie uma unidade de rede para acessá-la no Explorador de Arquivos do Windows sem precisar procurá-la ou digitar seu endereço de rede toda vez”. O mapeamento cria uma espécie de “atalho” para a unidade ou pasta no Windows Explorer. Na ferramenta nativa do Windows para mapear uma unidade de rede, a letra que aparece por padrão para a criação do “atalho” é a letra Z.

De modo que o diretório “gravações (\\USER-PC) (Z:)” aponta para que os arquivos de áudio da portaria do Vivendas da Barra podem estar acessíveis, talvez editáveis, em mais de um computador dentro dos muros do condomínio, com direito a “atalho” para uso frequente.

Fim da atualização

A ‘perícia’ do MP periciou um CD

O porteiro afirma ter falado com Bolsonaro às 17h10, para autorizar a entrada de Élcio de Queiroz. Afirma ter falado com Bolsonaro de novo logo em seguida, quando percebeu, por câmeras, que o carro de Élcio tinha se dirigido na verdade para a casa de Ronnie Lessa. No vídeo, o áudio mostrado por Carlos Bolsonaro em que o porteiro anuncia Élcio agora a Ronnie Lessa é de três minutos depois, às 17h13. Três minutos é um tempo razoável para passar entre uma entrada confusa de um visitante em um condomínio até o anúncio, por um porteiro sem nada entender, do nome do visitante ao dono da casa que seria de fato visitada.

Na última quinta-feira, 31, este Come Ananás mostrou que o Ministério Público do Rio mentiu ao afirmar categoricamente que tinha em mãos prova técnica de que a versão do porteiro não corresponde à realidade. Isso porque a perícia feita pelo Ministério Público nos arquivos de áudio da portaria do Vivendas da Barra avaliou apenas se houve adulteração deste ou daquele arquivo. A perícia não se debruçou sobre a possibilidade de algum registro de áudio da portaria ter sido deletado antes de ser entregue à Polícia Civil, o que é o próprio xis da questão.

No mesmo dia, mais tarde, a Folha de S.Paulo publicou reportagem intitulada “MP-RJ ignorou eventual adulteração em sistema de gravação em portaria de Bolsonaro“. Sem uma perícia no computador do Vivendas da Barra, não é possível aquela prova técnica existir, conforme ressaltou nesta sexta-feira, 1º de novembro, em nota, o Sindicato dos Peritos Oficiais do Estado do Rio de Janeiro (Sindperj):

Se ainda não há provas, há fortes indícios, e produzidos pelo próprio “clã” contra si, de que os arquivos das chamadas da portaria do condomínio Vivendas da Barra gravados no dia do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes foram alterados.

Pois bem, alguém nesta República irá buscar o “equipamento original”?

Atualização:

Concomitantemente à publicação deste artigo, o portal G1 repercutiu às 13h17 deste sábado declaração de Jair Bolsonaro, presidente da República, dizendo que “pegou” as gravações do Vivendas da Barra “antes que fossem adulteradas”. É a confirmação de que o “clã” Bolsonaro mexeu nos arquivos de áudio da portaria do condomínio referentes ao dia do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Trata-se do presidente da República confessando crime de obstrução da Justiça.

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  1. No momento, parece que todos os órgãos de investigação – PGR, MPF, PF estão sendo administrados por pessoas confiáveis aos olhos do presidente. Se ainda houvesse algum órgão de investigação não aparelhado por esse governo, uma nova averiguação do computador talvez mostrasse a integridade ou manipulação da máquina.

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