A menos de um mês das eleições e com desvantagem de dois dígitos para Joe Biden em todas as mais recentes pesquisas eleitorais, a estratégia do presidente Donald Trump para tentar se manter no cargo funda-se em pilares que, por um lado, colocam em xeque de uma vez por todas a noção amplamente difundida de que os EUA são “a maior democracia do planeta” e, por outro, confirmam que a sincronia entre Trump e o “Trump dos Trópicos” vai muito além da veia nazi e da disseminação industrial de notícias falsas.

Às vésperas da eleição nos EUA, Trump ameaçou abertamente, e impunemente, com a judicialização sem fim de sua provável derrota nas urnas; incitou ele próprio, impunemente again, à fraude do modelo estadunidense de votação, no início de setembro, na Carolina do Norte, quando chegou mesmo a exortar seus eleitores a votarem duas vezes, pelo correio e pessoalmente; anunciado com covid-19, num minuto precisa de oxigênio e, no outro, terá alta em poucos horas, esbagaçando tudo o que se consolidou até hoje sobre a evolução da doença no organismo do sujeito. Entre um minuto e outro, dá uma volta de carro na frente do hospital para saudar uma turba de supremacistas brancos.

Por falar em supremacistas brancos, nos EUA até as esculturas do monte Rushmore já sabem que Trump tenta mobilizar dezenas de milhares de “observadores eleitorais” voluntários – milícias e vigilantes de extrema-direita – para intimidar a população negra a não sair para votar. No debate com Biden da última terça-feira, 29 de setembro, Trump pediu ao grupo neonazista Proud Boys que “se mantenha a postos”. Uma votação negra massiva em Joe Biden é considerada fundamental para tirar Trump da Casa Branca.

“A esquerda radical está preparando o terreno para roubar esta eleição do meu pai. Não podemos deixar isso acontecer. Precisamos de todo homem fisicamente capaz, mulher, para se juntar ao exército para a operação de segurança eleitoral de Trump”, conclamou Donald Trump Jr em um vídeo recente.

Brasil, 2018: voto armado

Uma internação enfeixando as atenções; o ruído permanente e desestabilizador da “fraude eleitoral”; e quem se lembra de Jair Bolsonaro, sempre impunemente, incitando o crime eleitoral de boca de urna a quatro dias do segundo turno das eleições 2018, ao pedir a seus eleitores que convencessem outros à causa “no deslocamento” para os locais de votação?

E, além do “voto miliciano” propriamente dito em quem é, afinal, ligado às milícias, quem já esqueceu das imagens de eleitores de Jair Bolsonaro em cabines de votação apertando 17 com uma das mãos e segurando pistolas 38 com a outra, no 28 de outubro de dois anos atrás?

Isto após Jair Bolsonaro, uma semana antes, falar em varrição dos “marginais vermelhos” do Brasil, ameaçar seu rival no segundo turno com prisão, e chamar seus apoiadores à participação ativa “por ocasião das eleições no próximo domingo”, para que pudessem “ganhar essa guerra”, em um pronunciamento que, num país de verdade, seria suficiente para impugnar sua candidatura – como se naquela altura ainda não faltassem motivos.

Black Voters Matter

“Ele está disposto a fazer tudo o que puder para minar os fundamentos da democracia, qualquer senso de integridade, qualquer senso de decência, qualquer senso de qualquer coisa que qualquer ser humano normal consideraria aceitável em um país de verdade”, disse no fim de semana a ativista por direitos civis LaTosha Brown, co-fundadora do movimento Black Voters Matter.

LaTosha Brown se referia ao Trump original, mas serve para a reprodução grosseira também, sem nem precisar mexer. É isso: a diferença entre um original e sua cópia costuma ser que, na cópia, o material utilizado é inferior.

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