‘Parla Jato’: Dallagnol planejou instituto de fachada e quis esposa como laranja

‘Parla Jato’: Dallagnol planejou instituto de fachada e quis esposa como laranja

A “Parla Jato”, empresa de palestras piro-jurídico-motivacionais que Deltan Dallagnol planejou abrir com “Robito” para $urfar “o networking e a visibilidade” que os dois ganharam com a Lava Jato, essa empresa, com matriz na República de Curitiba, teria as esposas dos dois sócios como laranjas. Além disso, seria, na fachada, um instituto, menos para dar “uma ideia de conhecimento” e mais para disfarçar lucros de centenas de milhares de reais por ano na forma de altos salários pagos por uma entidade que seria, no papel, sem fins lucrativos.

É o que revela a parte 10 da Vaza Jato do Intercept Brasil, publicada neste domingo, 14. Em qualquer país com as instituições funcionando sob a baliza da República e da Democracia, e não contra elas, Dallagnol e “Robito” não chegariam ao fim do dia no exercício de sua funções. Bom, já passa de uma e meia da tarde.

“Robito” é Roberson Pozzobon, parceiro de Dallagnol no empreendedorismo como na explanação piro-jurídica, a do PowerPoint, que resultou no processo do Triplex contra Lula. Parceiros de negócios e de Lava Jato, portanto, o que agora, graças à Vaza Jato, sabe-se que dá no mesmo. Dallagnol e Pozzobon, também conhecidos como slide e show. Nunca será demais lembrar: naquela apresentação em que denunciaram o grande capo da propinocracia, disse Pozzobon, sobre a denúncia: “não temos provas cabais”.

Dupla de dois

“Temos nossa convicção”, emendou Dallagnol naquele 14 de setembro de 2016. Sobre mil indícios, nunca em provas cabais, e sobre a convicção dos justos, fundamentava-se o trabalho de uma outra dupla de dois, que, em vez de nomes de remédios fortes contra a corrupção dos costumes, tinham nomes de fabricantes de remédios: James Sprenger e Heinrich Kramer. Suas quatro mãos escreveram no ano de 1484 do Nosso Senhor um livro chamado “O Martelo das Feiticeiras”, que nos quatro séculos posteriores foi o manual oficial da Santa Inquisição.

A Santa Inquisição, que ainda hoje, pelo visto, é um grande negócio. Um outro manual dos inquisidores, datado do ano de 1376 do Nosso Senhor, dizia que o Santo Ofício reservava a “excomunhão para todo ministro seu que aceite honorários ou presentes” de terceiros, e “para toda pessoa que, tomando conhecimento desse tipo de transgressão, não avise as autoridades inquisitoriais”.

‘Foi quando eu comecei a fazer palestras’

“Quem é Deltan?”. Foi com essas palavras que Dallagnol iniciou uma de suas muitas e muitas palestras dadas nos últimos anos, essa na igreja Lagoinha, descoladinha, em Belo Horizonte. “Sou membro da Igreja Batista do Bacacheri”, disse, antes de mais nada. Depois, lembrou que foi “líder de célula por muito tempo lá”.

“Líder de célula”? Não foi essa a coisa mais estranha de Deltan Dallagnol disse naquela palestra em BH. Foi isso: “Agora eu tenho uma coisa nova no meu currículo. Agora eu sou cidadão da República de Curitiba”.

No fim daquela palestra, Deltan contou que anos atrás foi ao supermercado com um colega de Lava Jato chamado Diogo Castor. Foram comprar comida, porque, claro, trabalhavam sem parar em sua pia causa, e tinham, “cá entre nós”, um grande apetite. Disse o Dallagnol que, quando estavam passando no Caixa, o Diogo lhe disse: “Deltan, a gente precisa propor reformas”. Ainda segundo Dallagnol, ele de início rejeitou a ideia. Mais tarde, deu a Diogo razão: “foi aí que eu comecei a fazer palestras”.

Taí…

Diogo Castor deixou a Lava Jato em abril. Pediu para sair depois de tomar um pito de Dias Toffoli por dizer, na véspera do julgamento no Supremo que decidiria se crimes comuns cometidos em conexão com delitos de campanha deveriam ir para a Justiça Eleitoral, por dizer que estava sendo urdido um “novo golpe” contra a Lava Jato.

Já Dallagnol, bem, já passa das duas e meia da tarde. Naquela palestra na igreja Lagoinha, depois de falar sobre, digamos, sua dupla cidadania, Dallagnol pediu para botar “o outro slide”, porque tinha algo sobre ele que ele não tinha mais como esconder.

“O outro slide” demorou um pouco, mas entrou, e disse então o palestrante: “Taí. Eu sou um surfista”.

“O outro slide”.

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