Dallagnol fez ‘palestra surpresa’ no domingo em evento que teve ainda Gebran Neto

Dallagnol fez ‘palestra surpresa’ no domingo em evento que teve ainda Gebran Neto

O ainda procurador da República Deltan Martinazzo Dallagnol parece ter arranjado maneira de seguir em frente também com sua carreira de palestrante profissional, sem causar constrangimentos prévios a seus convidadores e/ou contratantes.

Em julho, veio à tona via Vaza Jato que Dallagnol planejou abrir uma empresa de palestras com fachada de instituto “sem fins lucrativos”, usando sua esposa como laranja e aproveitando “o networking e a visibilidade” que conquistou na condição de chefe da task force da Lava Jato.

No último domingo, 25, Dallagnol fez uma “palestra surpresa” no 10º Encontro Nacional de Observatórios Sociais do Brasil, que foi realizado no Centro de Eventos do Sistema Fiep (Federação das Indústrias do Estado do Paraná), em Curitiba.

Os Observatórios Sociais são “uma rede de cidadãos voluntários que fiscaliza prefeitos e vereadores” e são coordenados pelo Observatório Social do Brasil (OSB), instituição não governamental também ela sem fins lucrativos e também ela com sede na capital do Paraná. A Vaza Jato revelou ainda que Deltan manobrou “nas sombras” para que a OSB fizesse um abaixo-assinado pela prisão de Lula.

O 10º Enos foi um encontro preparatório para um evento que começou oficialmente só no dia seguinte, 26, com um nome sugestivo para esses tempos de conluio, o 3° Congresso Pacto Pelo Brasil, que começou na segunda e termina nesta quarta-feira, 28, com o tema “Práticas honestas na relação Público-Privada”.

Aula magna? Não. ‘Palestra magna’

E quem abriu o 3° Congresso Pacto Pelo Brasil, “área livre de corrupção”, “maior evento de Controle Social do país”, foi um nome sugestivo também: o desembargador João Pedro Gebran Neto, relator dos processos da Lava Jato no TRF4. Na segunda-feira, Gebran Neto deu no “Pacto pelo Brasil” uma “palestra magna”, esta devidamente agendada, sobre “perspectivas no enfrentamento à corrupção no Brasil”.

A Vaza Jato revelou também que Dallagnol teve “encontros fortuitos” com Gebran Neto e que Gebran Neto adiantou a Dallagnol, privadamente, de maneira corrupta, informações sobre a apreciação em andamento de pelo menos um processo da Lava Jato no TRF4.

O 3° Congresso Pacto Pelo Brasil será encerrado na noite desta quarta com outra “palestra magna”, também divulgada previamente, esta outra com o “líder inspirador” João Paulo Pacífico, do Grupo Gaia, “maior especialista em securitização do mercado brasileiro”.

No 1º Congresso do Pacto pelo Brasil, quem deu “palestra magna” foi o então juiz Sergio Moro, com “casa lotada e pico de 2.000 via streaming”.

Deltan Dallagnol, em sua “palestra surpresa” deste domingo, falou sobre seu tema predileto: a “teoria das estradas não duplicadas em razão de pagamento de propinas”:

“Você vê uma pessoa que sofre um acidente, vai ao hospital e não tem o equipamento para fazer um diagnóstico, pessoas trafegando por estradas não duplicadas em razão de pagamento de propinas, daí essa pessoa sofre um acidente e um caminhão ceifa a vida de toda sua família”.

“É por isso que nós estamos aqui. É por isso que nós lutamos. É por vida, por compaixão, é por amor, por propósito”, jurou o chefe da task force da Lava Jato no 10º Enos.

“Sou uma área livre de corrupção”: campanha do Observatório Social do Brasil, que organizou “palestra surpresa” de Deltan Dallagnol.

Da ‘Cidadania Fiscal’ a ‘Soluções em Licitações’

O Observatório Social do Brasil é uma instituição “disseminadora de uma metodologia padronizada” de procedimentos de monitoramento e controle da gestão pública via Observatórios Sociais, que já estão presentes em 140 cidades de 16 estados brasileiros.

O OSB tem como princípio geral que “a justiça social será alcançada quando todos os agentes econômicos recolherem seus tributos corretamente” e “os agentes públicos os aplicarem com ética e eficácia”; tem como missão “despertar o espírito de Cidadania Fiscal na sociedade organizada”; tem como valores “atitude ética, técnica e proativa”.

“Bem-vindo à República de Curitiba”: outdoor pago pelo ex-procurador da Lava Jato Diogo Castor.

O OSB tem entre seus apoiadores a “organização para-maçônica” Ordem DeMolay, a Controladoria Geral da União, o Tribunal de Contas da União e o Ministério Público do Estado do Paraná.

Além de princípios, missão, valores e apoiadores, o OSB tem mantenedores, como a Federação das Associações Comerciais e Empresariais do Estado do Paraná (Faciap), a Bolsa Brasileira de Mercadorias e o próprio sistema Fiep. O mantenedor do OSB que mais salta aos olhos, porém, é a RCC Soluções em Licitações, que se afirma empresa pioneira em “inteligência de Mercado Público”; “atuante há 50 anos na construção de tecnologia e base de dados que lhe permite entender todas as nuances deste segmento”; “detentora do maior Big Data Business to Government (B2G) do Brasil”.

Na página principal do site da RCC, a principal atração é o vídeo “Como Ganhar Licitações com Software Online”. Claro, entre todas vantagens oferecidas pela RCC, diz a empresa, “nossa tecnologia permite inclusão empresarial”.

Leia também:

  1. Ele deveria dar palestra sobre como ser desumano; sobre como perder a noção de dignidade e seguir fingindo que é contra a corrupção.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também:

Future-se: 'o professor que descobrir a cura da dengue vai ficar rico. É isso que a gente quer', diz Weintraub

Future-se: 'o professor que descobrir a cura da dengue vai ficar rico. É isso que a gente quer', diz Weintraub