O signatário do AI-5 que segue falando em ‘terrorismo’ nos jornais

O signatário do AI-5 que segue falando em ‘terrorismo’ nos jornais

Quem lesse, sem saber da autoria, a abertura de um dos mais recentes artigos de Antonio Delfim Netto publicados na Folha S.Paulo, nem desconfiaria que Delfim pode pedir música no Fantástico tanto por seguir pontificando em três veículos de imprensa (é colunista também no Valor e na Carta Capital) quanto por ter feito a trinca no ministério da Ditadura civil-militar, nas pastas da Fazenda, Agricultura e Planejamento, além de ter sido um dos oito signatários do AI-5.

O AI-5 significou ou agravou no Brasil, a título de resposta ao “terrorismo”, a suspensão do Habeas Corpus, censura prévia, supressão de direitos políticos, de organização política, perseguição, tortura, morte. No último 2 de outubro, escreveu assim Delfim Netto na Folha – o mesmo punho que assinou o AI-5 -, em artigo intitulado… “terrorismo”:

“Foi uma semana do arco da velha para quem, como eu, assistiu ao nascimento da Constituinte em 1986, composta, em ampla maioria, por cidadãos que tinham um mesmo problema: haviam sofrido restrições à sua liberdade de pensar e ao seu direito de defesa”.

A tônica do artigo é dizer que, ao contrário do “terror midiático e teatral de sempre”, o “ego inflado de alguns dos fautores” da Lava Jato não anula o legado do “inegável sucesso da operação”, definida por Delfim como “formidável autópsia” do Brasil. Além economistas – e advogados, e tantos outros doutores – muitos médicos também foram cúmplices da Ditadura. Cúmplices, por exemplo, de autópsias fraudadas de opositores assassinados pelos órgãos de repressão. Civil e Militar.

Delfim, com Figueiredo e Maluf.

‘Assinaria de novo’

Em abril do ano passado, em entrevista a Roberto D’Ávilla, na Globo News, Delfim Netto disse que “faria tudo igual”, referindo-se à sua participação na Ditadura. Teve fôlego ainda, aos 89 anos, para minimizar a suspensão da garantia do Habeas Corpus pelo AI-5, e acrescentou: “os militares foram injustiçados”.

Não foi a primeira vez. Em junho de 2013, além de garantir que não sabia que havia tortura na Ditadura, afirmou à Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo, sobre ter assinado o AI-5: “eu repetiria”.

Os supersticiosos dizem que tudo que acontece uma vez pode nunca mais acontecer, mas tudo que acontece duas vezes certamente acontecerá uma terceira. No dia 13 de dezembro do ano passado, dia do aniversário de 50 anos do AI-5, Delfim Netto disse no programa Conversa com Bial, da Rede Globo, sobre o AI-5: “assinaria de novo”.

Colunista de três veículos de imprensa. Três vezes ministro da Ditadura. Terceira vez reafirmando o AI-5 só nos últimos anos. Haja música para Delfim Netto pedir no Fantástico. Ou talvez, de coração apaziguado e devidamente bem cuidado, com dois stents colocados pelos médicos do Incor, talvez Delfim peça mesmo uma só: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo. Meu coração é verde, amarelo, branco, azul anil”.

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