Adriano Magalhães da Nóbrega está morto. O braço direito de Adriano na milícia que ele chefiava na Zona Oeste do Rio de Janeiro, porém, está vivo – e preso. Em outubro de 2018, quando estava solto, Manoel de Brito Batista, o “Cabelo”, distribuiu entre comparsas quatro caixas de uísque “que foi um deputado que me deu”.

A informação consta em uma denúncia feita em 14 de janeiro do ano passado pelo Ministério Público do Rio. Foram denunciados, naquela feita, 13 integrantes da “perigosa organização criminosa”, milícia, que atua nas comunidades cariocas de Rio das Pedras, Muzema e adjacências.

Encabeçava a lista o nome de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão da PM do Rio e velho conhecido do ex-deputado federal (pelo Rio) que acabara de tomar posse como presidente da República; velho conhecido também do filho primogênito do novo presidente, um ex-deputado estadual (do Rio) que, outro campeão de votos, estava prestes a tomar posse como senador.

Aquela denúncia foi o ponto de partida da operação Os Intocáveis, desencadeada no fim de janeiro de 2019 pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MPRJ, e pela Polícia Civil fluminense. Dos 13 denunciados, a operação prendeu cinco no dia em que botou o bloco na rua, inclusive Manoel.

O outros milicianos que escapuliram na primeira hora foram todos presos ao longo de 2019. Quase todos. Só Adriano continuava foragido, até ser morto “em confronto com a polícia” no último fim de semana, na Bahia, mais precisamente no sítio do presidente da Câmara da cidade de Esplanada, um sujeito que atende por Gilsinho de Dedé e que é vereador do PSL.

O seguinte diálogo telefônico entre Manoel de Brito Batista, o “Cabelo”, e outro miliciano aconteceu no dia 25 de outubro de 2018, três dias antes do segundo turno das eleições, e foi gravado pelo MPRJ com autorização judicial:

O diálogo, como se pode depreender, teve uma sequencia que não foi transcrita na denúncia. Na denúncia, pode-se ler, mais à frente, que “o denunciado MANOEL é braço direito do denunciado ADRIANO”. Em outro trecho, ele é apontado também como “braço financeiro da quadrilha”.

Na época da operação Os Intocáveis, a mídia informou que, “em entrevista coletiva, a promotora Simone Sibílio não entrou em detalhes sobre a participação ou apoio de políticos na quadrilha alvo da operação”.

O Gaeco até hoje não sabe digamos que a marca e a idade do uísque. Caso contrário, já teria informado. Correto?

Neste corrente fevereiro de 2020, Adriano Magalhães da Nóbrega estava, segundo a polícia da Bahia, com 13 celulares no momento em que foi morto. Em fevereiro de 2019, agentes penitenciários encontraram ainda mais celulares, 19, na área comum próxima à cela de “Cabelo” na penitenciária Bandeira Stampa, em Gericinó. A revista foi feita após uma denúncia de que Manoel de Brito Batista estava se comunicando via telefonia celular, do xadrez, poucos dias depois de ir em cana, sabe-se lá com quem.

Na denúncia do MPRJ que foi, com o perdão da palavra, o gatilho da operação Os Intocáveis, o nome de Manoel aparece nada menos que 307 vezes; o nome de Adriano, mencionado pelos milicianos de Rio das Pedras como “patrãozão”, aparece 46.

‘A felicidade das pessoas’

Nas últimas eleições, segundo levantamento da Agência Pública, os candidatos a deputado estadual mais votados em Rio das Pedras foram Cleuza Preta Loira, moradora da comunidade, e Pedro Brazão, ambos do PR, que, eleito, estreou na Alerj no dia 1º de fevereiro de 2019, na 12ª legislatura da casa.

Pedro é cunhado de Domingos Brazão, ex-deputado e conselheiro afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. No ano passado, Domingos Brazão chegou a ser apontado pela Procuradoria Geral da República como “autor intelectual” do assassinato de Marielle Franco, o que foi duramente refutado pelo MPRJ.

Em outras ligações interceptadas no âmbito da operação Os Intocáveis, fica explícito que Manoel de Brito Batista tinha acesso à família Brazão, inclusive a Pedro. Pedro, porém, que na verdade também se chama Manoel – Pedro Brazão é “nome político” – ainda não era deputado quando o “Cabelo” disse ao telefone que “foi um deputado que me deu quatro caixas de whisky”, por mais que já fosse deputado eleito.

Já o senador mais votado em Rio das Pedras nas eleições 2018 foi o então deputado estadual Flávio Bolsonaro, com 8.729 votos, o equivalente a 17% do total. Dez anos antes, em 10 de junho de 2008, dia em que a Alerj aprovou a CPI das Milícias, Flavio Bolsonaro, que estava na Alerj desde 2003, citou Rio das Pedras como exemplo da “felicidade das pessoas” nas comunidades “supostamente dominadas por milicianos”:

“Sempre que ouço relatos de pessoas que residem nessas comunidades, supostamente dominadas por milicianos, não raro é constatada a felicidade dessas pessoas que antes tinham que se submeter à escravidão, a uma imposição hedionda por parte dos traficantes e que agora pelo menos dispõem dessa garantia, desse direito constitucional, que é a segurança pública”.

“Façam consultas populares na favela de Rio das Pedras, na própria Favela do Batan, para que haja esse contrapeso também, porque sabemos que vários são os interesses por trás da discussão das milícias, como falei”.

‘É Federal?’, ‘é estadual?’

Existe um jogo de tabuleiro muito conhecido chamado Cara a Cara, da Estrela. Na precisa e sucinta descrição na Wikipédia, “o objetivo do jogo é, através de perguntas e raciocínio lógico, descobrir o personagem do seu adversário”. Para cravar, por eliminação, quem é a figura oculta, a ideia é fazer questionamentos diretos a quem está do outro lado da mesa, como costumam fazer, por exemplo, os promotores de Justiça.

Tipo: “é federal?”, “é estadual?”, “usa óculos?”.

Jogo Cara a Cara (Imagem: reprodução/Mercado Livre).

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