Ora, o que são dois tapinhas de surpresa, medo e violenta emoção?

Ora, o que são dois tapinhas de surpresa, medo e violenta emoção?

Imagina, sua santidade em pessoa vai se aproximando, cercado de querubins, ou melhor, de seguranças, chacoalhando mãos peregrinas com aquela serenidade papal encurvadinha. Francisco avança do outro lado do gradeado do Vaticano, está a dois passos de chegar a sua vez. O YouTube mostra bem: ela faz o sinal da cruz com as mãos, as mesmas que – é agora, é agora! – vão pegar nas mãos do papa.

Mas de repente, logo na sua vez, justinho no seu momento de glória – ou de “Oh, glória!” – o papa gira a sumo pontifícia carcaça sobre os calcanhares e faz que vai embora.

Ah, mas não vai mesmo!

Filme novo: DOIS TAPAS. Imperdível!

Posted by Irajá Menezes on Wednesday, January 1, 2020

Imagina, imagina se na obra prima de Michelangelo, que está ali pertinho, na Capela Sistina, imagina se n’A Criação de Adão o primeiro homem não daria um pulo de sua indolência no prado, e com tanta ânsia que poderia até torcer o dedo de Deus, caso aqueles querubins de repente arrastassem El Shaddai de volta para o Reino dos Céus sem que Ele chegasse a tocar a primeira mão humana com o próprio toque da vida.

(Não há provas, porque Michelangelo pintou o suspense dos dois indicadores, o dele e o d’Ele, apenas quase se encostando, mas há convicção, fé, de que a coisa toda de fato rolou).

Por falar na Lava Jato, o bom servo de Deus, ou o próprio Deus Moro, diria – deve ter dito a Rosângela no lar da Sagrada Família Brasileira – que Francisco nem deveria ter pedido “escusas” pelos dois tapas na mulher oriental, dado que foi acometido de surpresa, medo e violenta emoção, tipo uma tia tentando apenas defender o tender dos sobrinhos afoitos até a meia-noite da noite de Natal.

E foi assim que o mundo mui católico descobriu que o papa também é humano, posto que santo, e por mais que Baudelaire, ou melhor, Roberto Frejat já tivesse esclarecido em Flores do Mal: “a mesma mão que acaricia, fere e sai furtiva”.

Chama-se até Bergoglio, o Francisco. Já a mulher estapeada pelo sumo sacerdote até agora não tem nome, muito menos dois. Até agora não pintou na imprensa internacional algo do tipo “who is the woman who was slapped by Pope Francis?”.

É porque o papa, imagina, o papa não agride ninguém, no máximo “perde a paciência”.

Mas em verdade, em verdade este Come Ananás vos diz: estapear peregrinas afoitas são, como parece ser tudo em se tratando de Francisco, um progresso! Em 1983, o encarniçado anticomunista Karol Wojtyła, na veste branca de João Paulo II, passou um esporro diante das câmeras, de dedo em riste, no padre nicaraguense Ernesto Cardenal, em pleno aeroporto de Manágua, exortando aquele atrevido de outrora a escolher entre a batina ou o cargo de ministro da Cultura do governo sandinista da Nicarágua.

Cardenal não “regularizou sua situação”, e foi suspenso “ad divinis” pela Igreja Católica. Em fevereiro de 2019, Jorge Mario Francisco Bergoglio o reabilitou. O que são, portanto, dois tapas, a relação de Bergoglio com a Ditadura na Argentina e o silêncio do “papa progressista”, enquanto mulheres agonizam em açougues, ante a dramática luta pelo direito ao aborto seguro em seu país natal?

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