Foto: reprodução/Facebook Rio de Paz.

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Na madrugada do dia 30 de abril de 1884, quatro anos antes da abolição da escravatura no Brasil, três escravos foram assassinados na cidade de Resende, sul do estado do Rio, dentro do prédio da cadeia municipal, onde os negros Augustinho, Amâncio e Estevão estavam presos sob acusação de terem matado um fazendeiro do Vale do Paraíba Fluminense.

Na época, o jornal local Itatiaya informou que a turba assassina era de mais de 200 pessoas. E fez, o jornal, a seguinte consideração:

“E assim que ao assassinato de fazendeiros, administradores e feitores temos a juntar a tragédia pungente que teve logar na madrugada de 30 do passado, na cadeia desta cidade”.

Feitores tombando em serviço, aquele serviço, e turbas linchando escravos até a morte seriam então “tragédias” dignas de notas idênticas de repúdio.

O governador do Rio, Claudio Castro, deve ter lido o Itatiaya, porque quando se prestou a se manifestar sobre os assassinatos das meninas Emily e Rebeca em Duque de Caxias, região metropolitana do Rio, saiu-se com “duas crianças na porta de casa e um policial exercendo sua missão”, referindo-se a um policial morto em serviço no Rio no mesmo dia.

Não é necessário avisar a Claudio Castro. Ele sabe muito bem: a morte de um agente do Estado em serviço não se compara em sentido, em significado, em tragédia, ao assassinato de duas meninas, de 4 e 7 anos de idade, por agentes a serviço do Estado. No caso, do estado do Rio de Janeiro.

Em tempo: os artífices do linchamento até a morte de Augustinho, Amâncio e Estevão foram levados a julgamento, e foram absolvidos.

Por três juris diferentes.

A acusação contra Augustinho, Amâncio e Estevão, a que os levou ao xadrez, jamais foi comprovada. Não obstante, eles continuam sendo suspeitos, presos, trucidados, mortos, todo santo dia, no Rio de Janeiro, neste velho Brasil.

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