Escolas militares: Witzel transforma ‘Brizolões’ em ‘Bombeirões’

Escolas militares: Witzel transforma ‘Brizolões’ em ‘Bombeirões’

Acusado pela matilha bolsonarista de “pirraça” por não aderir ao programa de escolas cívico-militares do governo Bolsonaro, o governador Wilson Witzel correu para dizer que o Rio de Janeiro não está dentro porque já tem o seu próprio modelo de educação marcialmente tutorada, e que, inclusive, “já inauguramos duas novas unidades: em Volta Redonda e Miguel Pereira”.

Witzel afirmou ainda, nesta quarta-feira, 2, que “serão sempre novas unidades, não iremos adaptar escolas já existentes”.

É mentira. Mais uma de Wilson Witzel, mas esta não tão inócua quanto a pândega de que estaria negociando a instalação de uma filial da Disneylândia no Rio.

As “unidades” estaduais militarizadas inauguradas por Witzel nos municípios de Volta Redonda e Miguel Pereira, no sul fluminense, foram na verdade reinauguradas, porque, antes, eram Centros Integrados de Educação Pública. Eram Cieps, ou “Brizolões”, o projeto de escola pública em tempo integral, “escola-casa”, idealizado por Darcy Ribeiro e implementado nos dois governos de Leonel Brizola no estado do Rio (1983-1987 e 1991-1994); projeto de escola democratizadora que surgiu, num momento histórico de aspirações democráticas, “questionando, por dentro, esta realidade social injusta, desumana e impatriótica”.

Apresentação escrita por Leonel Brizola para “O Livro dos Cieps”, escrito por Darcy Ribeiro.

Pois os Cieps 403 e 494, respectivamente em Volta Redonda e Miguel Pereira, viraram nas mãos de Witzel o Primeiro e o Segundo Colégios do Corpo de Bombeiros Militar (CCBMs) do Rio de Janeiro, cuja lista de seleção de jovens “indicados à matrícula” é divulgada em papel timbrado da Diretoria Geral de Ensino e Instrução (DGEI) do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ).

No ex-403 e no ex-494, os icônicos prédios dos Cieps, projetados por Oscar Niemeyer e que na cidade do Rio são tombados como patrimônio histórico e urbanístico, suas fachadas foram mesmo pintadas de vermelho-bombeiro e há agora um novo slogan, a mui original evasiva “mantendo viva a chama da educação”, substituindo um qualquer lema old fashion que remeta a transformar a dura realidade, ao invés de escamoteá-la.

Nova Fachada do ex-Ciep 494, em Miguel Pereira, transformado no II Colégio do Corpo de Bombeiros Militar.
Alunos do I Colégio Militar do Corpo de Bombeiros Militar de Volta Redonda, perfilados: “mantendo viva a chama da educação”.

‘Marchem!’

No último 3 de junho, três filhos do bairro do Açude II, jovens alunos, recrutas do Primeiro CCBM – Volta Redonda, passaram mal depois de passarem horas perfilados, em posição de sentido, ouvindo discursos de autoridades e à espera de Wilson Witzel, que naquele dia viajou até o sul fluminense para reinaugurar oficialmente o antigo “Brizolão”, agora “Bombeirão”.

Os três jovens, todos com 15 anos de idade, precisaram de atendimento médico. Um deles desmaiou bem na frente do governador.

O repórter Gustavo Goulart, de O Globo, conta que naquele dia, depois de amparados os debilitados e cumpridas as solenidades, Witzel gritou: “Fora de forma! Marchem!”, ordenando à dispersão aquela que é menos a turma de uma escola de ensino médio e mais um grupamento, tropa ou pelotão, com todos os componentes usando corte de meia cabeleira curta, com máquina três e desbastamento à tesoura na parte superior da cabeça, bem nítidos os contornos juntos às orelhas e ao pescoço, costeletas até a altura correspondente à metade do pavilhão auricular.

O Segundo Colégio do Corpo de Bombeiros Militar de Miguel Pereira foi inaugurado naquele mesmíssimo dia, por Witzel também. Não há notícias de desmaios por causa de provas de fogo, para não fugir aos trocadilhos mui originais.

Além do Corpo de Bombeiros Militar, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro já dirige outras três escolas estaduais, nas cidades de Niterói e Duque de Caxias e no bairro carioca de Campo Grande. Nelas, o lema é esse e não remete propriamente a uma pedagogia da libertação: “onde sonhadores semeiam vencedores”.

‘Que não sejam aqueles que reprimam’

Reinaugurado formalmente em junho, o Primeiro CCBM de Volta Redonda já vinha funcionando desde março. Nesse meio tempo, em abril, todos os 30 alunos do pelotão do primeiro ano do ensino médio ficaram uma hora e meia presos no quartel, ou melhor, de castigo na escola até que aparecesse o responsável por uma bolinha de papel que apareceu no chão. Depois que um deles finalmente levantou o dedo, todos foram libertados. Foram liberados, segundo a reportagem de O Globo, “após uma lição que marcou um novo estilo de disciplina na sala de aula”.

“Ele mudou até o jeito de falar. Agora é senhor, senhora”, disse a mãe de um dos alunos ao repórter do jornal O Globo. “Ele põe o fone no ouvido e fica escutando vários hinos, especialmente o hino nacional para memorizar. Tem também o hino dos soldados do fogo”, disse outra.

A cultura da sociedade de consumo – dizia o sociólogo polonês Zygmunt Bauman – envolve sobretudo o esquecimento, não o aprendizado”.

Houve um tempo no Rio de Janeiro em que um candidato ao governo do estado, em campanha, era capaz de pular uma fogueira feita com armas de plástico, celebrando a vida, em vez de prometer “mirar na cabecinha e… pimba!”, aclamando a morte e semeando o pânico.

Houve um tempo no Rio em que aquele candidato, eleito, falava abertamente, sem medo de fogueiras de outros tipos, em suspender o pagamento da dívida externa para pôr todas as crianças brasileiras em escolas públicas democráticas de tempo integral. Houve um tempo em que o governo no Rio de Janeiro destinava quase 40% do orçamento para Educação e Cultura – mais precisamente 39,25% no ano de 1986.

A célebre foto “Brizola pula a fogueira”, de Aguinaldo Ramos.

Houve um tempo, outros tempos, em que o professor, vice-governador e secretário de Ciência e Cultura do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro, mandava recados outros a professores, inspetores e funcionários da rede pública de educação: “que não sejam aqueles que reprimam ou vigiem, varram ou espanem seguindo rotinas inteiramente desvinculadas da ação educacional, mas se tornem colaboradores do processo educativo”.

Hoje, no indicativo presente, quem toca pra frente o projeto de militarização da educação pública no estado do Rio de Janeiro é um jovem chamado Pedro Fernandes, secretário de Educação do governo Wilson Witzel. Espécie de Tábato carioca, Pedro, até anteontem, estava no PDT de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro, ainda que não mais o PDT de Brizola e Darcy, e sim o de Tábata Amaral e Kátia Abreu.

Pelo PDT, Pedro Fernandes concorreu ao governo do Rio em 2018, identificado por certa esquerda bate-cabeça com o campo progressista. Em julho, Pedro Fernandes anunciou uma lista de 200 escolas do Rio onde 1.800 militares egressos das Forças Armadas vão fazer as vezes de porteiros e inspetores de disciplina – e bota disciplina nisso. EN-TEN-DI-DO?!

‘Brizola parecia estar num voo acima de tudo’

“Vocês que caíram foram muito corajosos por suportarem até não aguentarem mais. Eu também já caí. E vocês vão se levantar. Nunca desistam na vida, que vocês serão o que quiserem ser. Você foi corajoso por ter ficado em pé até onde aguentou”, foi o que disse Wilson Witzel, naquele dia, no bairro proletário do Açude II, em Volta Redonda, aos rapazes que não aguentaram tanto tempo de corpo rígido e mãos espalmadas junto às coxas, esperando as “autoridades”, e particularmente ao rapaz que desfaleceu.

“Brizola não ia permitir o que estou permitindo”, disse Wilson Witzel no último 23 de setembro, em entrevista coletiva sobre a morte da menina Ágatha Félix. Referia-se não à transformação dos “Brizolões” em “Bombeirões”, mas à política de Brizola, oposta à do atual governo do Rio, de evitar a promoção de bangue-bangues em bairros populares.

A jovem Ágatha Félix, de 8 anos de idade, ela não teve tempo para tentar ser corajosa, para tentar suportar, para nem pensar em desistir quando uma bala de fuzil da PMERJ atingiu as suas costas com um impacto de quatro toneladas. Mas, como Ágatha morreu, na cabecinha do governador-coach, comandante da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, na cabeçorra de Witzel só deve passar que a menina, tipo, não segurou o rojão.

Sobre a célebre foto “Brizola pula a fogueira”, tirada por Aguinaldo Ramos em 1982 no bairro proletário de Irajá, na capital fluminense, conta o fotógrafo:

“Brizola tinha os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto. Com suas botinas de gaúcho exilado, camisa azul-clara de mangas arregaçadas, arredou um pouco a garotada, abriu uma roda, concentrou-se e, sem considerações, partiu! No meio do caminho, abriu os braços, parecia estar num voo acima de tudo. Aterrissou com perfeição, sem qualquer escorregão ou derrapagem”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também:

Não há no STF um só ministro digno de integrar um tribunal constitucional

Não há no STF um só ministro digno de integrar um tribunal constitucional