A ‘baguncinha privé no Copa’ para as ‘meninas de pijama’ do Rio

A ‘baguncinha privé no Copa’ para as ‘meninas de pijama’ do Rio
Foto de Jorge Ibanez no Unsplash

O jornal O Globo informa em sua edição desse domingo, 26, sobre a mudança de padrão das festas de aniversário de meninas no Rio, dado o pânico que tomou conta de parte dos pais cariocas.

Conta O Globo que “depois do pânico de imaginar a casa virada de pernas para o ar, Annie pensou que a solução era produzir uma farra mais profissional, mantendo a tradição”.

Assim, a cirurgiã dentista Annie de Castro pagou algo entre R$ 5 mil e R$ 15 mil reais por uma festa do pijama para sua filha e mais 10 amiguinhas no LSH, hotel de luxo na Barra da Tijuca.

As 11 “meninas de pijama” ganharam do hotel necessaires, camisolinhas lilás, tapa-olhos, arquinhos e bichinhos de pelúcia para dormirem abraçadas. O Globo diz que, na manhã do dia seguinte, saíram do hotel “se achando gente grande”.

A reportagem dá conta também de que desde agosto do ano passado o LSH já fez 30 festas de “meninas de pijama”. Pais mais orgulhosos já pagaram R$ 150 mil para o hotel armar 50 cabanas pretas com néon em um dos seus salões.

‘Momento de crise’

“Num momento de crise, a gente dá uso a uma suíte que estaria parada”, comemora a gerente de marketing do hotel, Lia Coutinho. Além de camisolas e tapa-olhos, o LSH oferece também “cabaninhas de índio” para as “meninas de pijama”, e Lia diz que “piscininha privativa também é um sonho possível”.

“Piscininha privativa” no LSH e, nas palavras d’O Globo, “baguncinha privé no Copa”.

No Copacabana Palace, pais cariocas em pânico podem fechar o sexto andar para festonas do pijama, pagando R$ 8 mil por cada uma das sete suítes do piso. Sai mais em conta pagar, porém, R$ 3 mil por suítes menores, mas só para a aniversariante e mais cinco amiguinhas.

São R$ 500 reais por cabeça. Cada cabeça, no dia seguinte, sairá de uma noite privé no Copa “se achando gente grande” também. É, portanto, além de tudo, uma questão de formação daqueles que, como se diz, são “o futuro desse país”, ou como explica a diretora-geral do hotel, Andréa Natal:

“Essas gerações que estão vindo são nossos futuros clientes”.

Nem nascendo duas vezes

Além do LSH e do Copacabana Palace, o Hilton Barra é outro hotel de luxo que vem promovendo várias festinhas desse tipo todo mês. Que pena – devem pensar as “meninas de pijama” que fazem a festa no LSH, no Copa, no Hilton -, que pena que é só uma vez por ano.

Não é certo, porém, que invejem a jovem Lorena Quintal Gomes, que agora faz aniversário em 8 de dezembro e em 8 de maio também.

Nascida em 8 de dezembro do ano 2000, no último 8 de maio Lorena saiu da escola, na favela da Mangueira, e foi para a casa de uma amiga. Ela pegou um copo d’água na cozinha e, quando sentou no sofá da sala, teve as duas pernas atingidas por tiros de fuzil.

Lá fora, no mundo real, o tiro comia solto numa operação da Polícia Militar. “Agora eu tenho duas datas de nascimento”, disse Lorena ao mesmo O Globo. Ela corre risco de perder os movimentos das pernas.

Lorena.

Como propaganda é tudo, talvez algum gerente de marketing de algum hotel de luxo do Rio, algum nota 10 em acessibilidade, ofereça a quem nem nascendo duas vezes poderá ter a festa de aniversário dos seus sonhos, mesmo que modestos, com as amigas e os amigos.

Uma “baguncinha privé” diferente, só para variar um pouco, daquelas que jovens negras e pobres do Rio experimentam, via de regra, quando chegam a pôr os pés em hotéis de luxo desse país doente.

Nesse país de papais e mamães “em pânico” permanente diante de qualquer sinal de bagunça na sala ou de justiça social. Muitos estarão nas ruas hoje, alguns no posto 5 de Copa, pertinho do Copa, em desagravo a um presidente da República que saúda a violência policial e o turismo sexual.

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