Chevron, Exxon, BP, Total e Repsol já tinham anunciado ‘boicote’ ao leilão

Chevron, Exxon, BP, Total e Repsol já tinham anunciado ‘boicote’ ao leilão

Um fiasco dos pregoeiros do Brasil é sempre vitória para o povo brasileiro. Mas os campos do pré-sal não arrematados nesta quarta-feira, no “megaleilão” que o governo Bolsonaro tentou realizar, esses campos continuam no prego, e tendem a ser oferecidos num futuro muito próximo sob novas condições, ou melhor, sob melhores condições – ainda melhores condições para as grandes companhias transnacionais americanas e europeias – num leilão futuro.

Uma rápida checagem no noticiário internacional do setor das últimas semanas mostra que Exxon, Chevron, BP, Total e Repsol já diziam claramente que dificilmente dariam lances no “maior leilão de petróleo do mundo”. Isto pode ser verificado, por exemplo, em “Brazil’s $50 Billion Oil Boom Is Falling Apart“, do site Oil Price, em “Exxon May Take a Pass on Brazil’s Top Deepwater Oil Discovery“, do gCaptain, e em “Repsol Sinopec balks at terms of Brazil’s oil mega-auction“, da Reuters.

“Quer participemos ou não, tem a ver com como veríamos essa oportunidade em comparação com todas as outras opções de investimento, porque existem muitas opções de investimento por aí agora. Se você perguntar aos meus colegas de outras empresas, eles lhe dariam a mesma resposta. É uma oportunidade muito, muito única, mas precisa se encaixar em todo o resto”, disse ainda em outubro um alto executivo da Exxon.

Só a Shell parecia “otimista” com o leilão, mas no fim das contas refugou. Não tão no fim das contas assim. Depois do leilão, o presidente da Shell Brasil disse que a decisão de não participar foi tomada em 23 de outubro. Disse também que “temos uma posição bastante positiva com os blocos já adquiridos e os blocos de hoje não passaram no nosso corte de aprovação”.

De modo que, além de um fiasco anunciado, tentar forçar o governo brasileiro a baixar o “corte de aprovação” das gigantes do setor parece estar no cerne desse fiasco. Por “corte de aprovação” leia-se uma garantia de que no futuro, por causa do regime de “cessão onerosa”, não terão que pagar indenização da ordem de R$ 100 bilhões à Petrobras, ou, talvez, a fixação prévia dessa eventual indenização num patamar a elas palatável, ou qualquer outra alternativa tipo “segurança jurídica” – quem sabe mesmo mudar o regime de leilão.

Cheira a ação coordenada, e o nome da coisa, se a coisa se deu mesmo assim, como aparenta, é cartel. Uma forma de cartelização que o governo vende-pátria de Jair Bolsonaro tende a entubar, porque vende-pátria é e porque se comporta diante do grande capital internacional como um viciado no balcão de uma casa de penhores.

Compreender as razões do malogro do “megaleilão” realizado pelo governo Bolsonaro nesta quarta-feira, 6, é importante, porque compreensão, se não é arma, é munição. Se é que será possível fazer alguma coisa em matéria de defesa do patrimônio brasileiro – e em matéria de defesa de tudo mais – na vigência de um governo que tudo baralha, confunde, desloca dos termos minimamente devidos de discussão, como é o governo Bolsonaro.

Difícil, difícil mesmo de entender, independentemente de tudo mais – inclusive de marcos regulatórios – é que a Petrobras tenha que disputar em leilões o direito de explorar campos de petróleo do Brasil que ela própria descobriu e prospectou. Mas o capitalismo é assim: irracional. O capitalismo burocrático, então, aquele que só faz azeitar na colônia as condições para a rapina, esse então nem se fala.

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