De um vascaíno, com amor: o seu Flamengo é melhor que o deles

De um vascaíno, com amor: o seu Flamengo é melhor que o deles
Reprodução: Twitter.

O Flamengo estreou no campeonato brasileiro de 1984 no dia 28 de janeiro, contra o Palmeiras. Estreou órfão de Zico, que havia partido para a Udinese, e apresentando o goleiro argentino Ubaldo Fillol, ex-River Plate, adversário do rubro-negro carioca neste sábado, 23, na final da Libertadores. Com Filiol no gol, Andrade e Tita na meia-cancha e João Paulo no ataque, aquele Flamengo tinha na zaga, Além de Mozer, Júnior e Leandro, tinha ainda o jovem Claudio Figueiredo Diz.

Por mais que jovem, o zagueiro Claudio Figueiredo Diz jogaria sua última partida de futebol no 1º de dezembro daquele ano, pelo Flamengo, contra o Fluminense. No dia 20 de dezembro, morreu num acidente aéreo. Na época, a Folha de S.Paulo publicou que ele não foi um jogador excepcional, e que era notório devido “em parte ao sobrenome, que insinua um parentesco com o presidente João Figueiredo”.

Na partida contra o Fluminense, num detalhe assombroso do derradeiro jogo do zagueiro mediano, o então técnico do Flamengo, Zagallo, deu a Claudio Figueiredo Diz a camisa 10 do galinho Arthur Antunes Coimbra.

Naquela partida de janeiro de 1984 contra o Palmeiras, pela primeira vez circulou no Maracanã uma grande bandeira da Fla-Diretas, torcida organizada do Flamengo que tinha acabado de ser criada, dizem, justamente após alguém cravar numa pelada de flamenguistas militantes democratas que “nosso Figueiredo é melhor que o deles”. Figueiredo, o “nosso”, aceitou mesmo ser padrinho da torcida, num ato de coragem. Ainda estava vivo, e o que a vida quer da gente é coragem.

Henfil

O site do Flamengo diz que a Fla-Diretas foi a “primeira torcida a surgir em prol da redemocratização no período final da ditadura militar. A aparição dessa mistura irremediável de política e futebol deu as caras três meses antes da votação da Emenda Dante de Oliveira no Congresso, em abril daquele ano. Os deputados iriam decidir se o povo poderia escolher nas urnas o Presidente da República.”

Em julho de 2017, na vigência do governo golpista de Michel Temer, a Fla-Diretas foi relançada no Rio, por iniciativa do Instituto Henfil.

Henfil desenhou o logo da Fla-Diretas em 1984.

‘A Democracia começa pelos mulambos’

A atual diretoria do Flamengo, porém, transformou o Flamengo e o supertime que o Flamengo montou em instrumento do fascismo que chegou ao poder, eleito, no Rio de Janeiro e no Brasil. Felizmente, há flamenguistas cientes de que, como dizia Nelson Rodrigues, no futebol o pior cego é aquele que só vê a bola. A nova Fla-Diretas parece não ter ido muito pra frente, mas neste sábado estão lá em Lima, no Peru, representantes por exemplo da Flamengo Antifascista e Flamengo da Gente – gente democrata que torce pelo mengão.

Reprodução: página do Flamengo da Gente no Facebook.
Reprodução: Facebook.
Marcelo D2 (Reprodução: Facebook).

Foi a Flamengo da Gente que em junho deste ano criou as camisetas “A Democracia começa pelos mulambos” e “A Democracia começa pelas mulambas”, colocadas à venda a fim de financiar a feitura de uma nova placa de homenagem a Stuart Angel, remador do Flamengo que foi morto pela Ditadura em 1971. A placa original desapareceu misteriosamente da sede de Remo do Flamengo, na Lagoa.

No dia em que o time do Flamengo embarcou para Lima, torcedores democratas do Flamengo estenderam uma faixa em homenagem a Stuart Angel no Galeão. Bem ali, próximo da cabeceira da pista do aeroporto internacional do Rio, onde os gorilas da ditadura enterraram o corpo trucidado do atleta.

“A Democracia começa pelos mulambos”, e pelas mulambas, é uma referência ao grupo Frente Ampla pelo Flamengo, que nos anos 1970, em plena Ditadura, venceu uma eleição no clube sob a palavra de ordem “A democracia começa pelo Flamengo”.

Em abril, a atual diretoria do Flamengo soltou uma nota dizendo que nada tinha a ver com o lançamento de uma camisa do Flamengo com o número 25, idade de Stuart Angel quando foi assassinado, e o nome do remador rubro-negro. Dizia aquela nota oficial, um primor de cretinismo, que o Flamengo, “por ser uma verdadeira Nação, formada por mais de 42 milhões de torcedores das mais diversas crenças e opiniões, não se posiciona sobre assuntos políticos”.

O ‘Aliança’ e o anel

Um dos maiores jornalistas esportivos que este país já produziu, Juca Kfouri, por seu turno, posiciona-se sobre assuntos políticos, pela Democracia, o que é mesmo requisito para um jornalista esportivo, para um jornalista, para alguém figurar entre os maiores.

Nesta sexta-feira, 22, Juca publicou em seu blog um artigo sobre o aterrador evento de fundação do Aliança pelo Brasil, “partido das pessoas fiéis a Bolsonaro”, como parecem ser os manda-chuva do Flamengo. No artigo, intitulado “Aliança pela bestialidade”, diz Juca Kfouri:

“Passou da hora de simplificar as coisas entre direita e esquerda. Estamos diante de um grupo minoritário de sanguinários que quer aniquilar a cidadania. Se não chegou a hora do basta, quando chegará? Quando a barbárie se instalar e for tarde demais? Pelas nossas filhas e pelos nossos filhos , pelos nossos netos e pelas nossas netas, chega!”.

A patrocinadora da Libertadores, a transnacional japonesa Bridgestone, prometeu presentear o melhor jogador da competição com um anel de ouro cravejado com 128 diamantes. A entrega será feita neste sábado, durante a festa da vitória do campeão, no Peru, bem ali onde Pizarro fez a festa na base da “pobreza do homem como resultado da riqueza da terra”.

‘De pé, pela Nação!’

Vascaíno militante, por assim dizer, não posso dizer com sinceridade que vou torcer pelo Flamengo neste sábado, contra o River, na final da Libertadores da América. Posso dizer que torço, isto sim, para que até a torcida do Flamengo, como se diz sobre as massas, que até a torcida do Flamengo saiba que este governo é de destruição e morte, e que precisa cair.

Que saiba, a maioria dos flamenguistas, que o seu Flamengo é melhor que o deles.

  1. “O meu Flamengo é melhor que o deles”, assim como melhor ainda é torcer pela Volta da Democracia, dos Direitos Civis, Sociais e Politicos e da Soberania no Brasil!
    SAUDAÇÕES FLAMENGUISTAS DEMOCRÁTICAS!

  2. Parabéns pelo incrível texto! Hoje, 10/12/2019, estamos vendo sombras se adensando também sobre o Vasco da Gama, cuja história qualquer um, até um orgulhoso rubro-negro, deve ser feliz em reconhecer e admirar.

    Forte abraço de um flamenguista pela democracia!

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