Espera autocrítica da Folha? Não se anime. A Folha faria tudo novamente

Espera autocrítica da Folha? Não se anime. A Folha faria tudo novamente

Boom! Não, ainda não explodiu nenhuma bomba, como, por exemplo, as que a ditadura detonou entre 1979 e 1980 em mais de 30 bancas de jornais de todo o Brasil que vendiam publicações críticas ao regime.

Trata-se da explosão de assinaturas da Folha de S.Paulo um ano atrás, na sequência das primeiras ameaças de Jair Bolsonaro ao jornal depois de eleito presidente. O “boom” foi de assinaturas da Folha foi “efeito colateral” daquelas ameaças, segundo informou o próprio jornal em matéria autorreferente publicada no dia 30 de outubro de 2018.

“Raciocínio autorreferente”. Foi exatamente assim que a ex-ombudsman da Folha Vera Magalhães classificou, no início de 2016, a pergunta a ela dirigida por um leitor sobre como era “acordar colega do Kim Kataguiri”.

Naquela feita, a Folha tinha acabado de estrear o líder do MBL, hoje deputado federal do PSL, como seu mais novo colunista. Ao “leitorado” que protestou (e que, “efeito colateral”, cancelou assinaturas), a ombudsman respondeu que era caso de “intolerância ao colunista e suas ideias”.

Na época, escrevi um artigo intitulado “Folha e ombudsman para além da insensatez total”.

‘ExpressarEM’ compromisso com a Democracia

Quando finalmente demitiu Kim Kataguiri, ano e mês depois de contratá-lo, a Folha dispensou também um outro colunista, um da esquerda. O “jornal das Diretas” inaugurava ali sua tática kamikaze de, para cada ripada no fascismo, outra nas forças capazes de lhe dar refutação. Dispensou Guilherme Boulos para compensar, ante o “leitorado”, o pé na bunda tardio que deu no fascistinha.

Passa o tempo e, em 2018, num editorial pré-eleitoral, a Folha põe na mesma prateleira (“chegou a hora de expressarem compromisso definitivo com a democracia”) tanto a candidatura Haddad quanto a candidatura assente em ataques aos direitos humanos e na defesa de crimes contra a humanidade.

Para cada rechaço à mais absoluta barbárie, outro, equipotente, a quem “o mercado identifica como menos disposto as fazer as reformas”. Será esse o epitáfio da “imparcialidade” e do “equilíbrio” de “um jornal a serviço do Brasil”, do jornal que, já faz quase 10 anos, classificou de “ditabranda” a ditadura brasileira, para mais tarde dizer que “errou”, como se tivesse faltado uma crase.

A mídia brasileira “demorou a perceber uma mudança na natureza do campo conservador, apesar dos alertas”, disse, generosa, a historiadora Maud Chirio, especialista em história da direita brasileira, numa entrevista publicada há pouco mais de um ano na própria Folha.

Jingle bell

Agora, hoje, 30 de novembro, quando Jair Bolsonaro incita o boicote às empresas que pagam anúncios na Folha de S.Paulo – a loucura se voltando contra “quase todos os setores da economia representados em suas plataformas” -, a Folha de S.Paulo finalmente publica um editorial dizendo claramente que é preciso deter Jair Bolsonaro.

No início deste ano, a Folha incorporou a palavra despetizar, assim, sem aspas, em seu noticiário. Depois, referiu-se à “perseguição” a Dilma na Ditadura assim, com aspas. Há poucos dias, noticiou um processo de desmame, sem aspas outra vez, do Bolsa Família.

Ainda ontem, horas antes de publicar o editorial “Fantasia de imperador”, a Folha destacava que “Bolsonaro age como Cristina Kirchner ao boicotar a Folha, afirma presidente da ANJ”.

Pode ser que alguém se anime a pedir autocrítica da Folha, agora que a Folha se anima para confrontar Bolsonaro a sério pelo menos na página A2. Mas não se empolgue! Pelo visto, o jornal faria tudo novamente.

É como meu filho não para de cantar, agora, com a proximidade do Natal, sabe-se lá onde aprendeu: “jingle bell, jingle bell, acabou o papel. Não faz mal, não faz mal, limpa com jornal. O jornal tá caro, caro pra chuchu. Como é que eu vou fazer pra limpar o meu bumbum?”.

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