Na França, uma festa de Baaaaah-Bette contra o desmonte na educação

Na França, uma festa de Baaaaah-Bette contra o desmonte na educação

Emmanuel Macron não come chocolatinhos em live para falar, de boca cheia, de cortes de verbas para universidades; não ousará implodir os cursos de Letras e Ciências Humanas da Sorbonne, nem da instituição de sediciosíssimo nome Université Paris 13; Macron dificilmente incitará adolescentes a delatarem professores para alguma Ocupação. Neoliberalíssimo, o governo Macron é o governo Macron, não é o governo de Vichy.

Neoliberalíssimo, o governo Macron na França é mais um que vem levando adiante o projeto neoliberal de desmonte da educação pública, ainda que não em ritmo e nível fascistas, como acontece agora mesmo no Brasil. Uma das nuances desse projeto, na França, é o fechamento de escolas rurais.

Há algumas semanas, por exemplo, os pais e professores de uma pequena escola encravada numa pequena localidade dos alpes franceses descobriram que uma de suas turmas seria extinta a partir de setembro porque o número de matrículas diminuiu de 266 para 261 alunos… Em protesto contra o encerramento da turma, a direção da escola decidiu aceitar a matrícula de carneiros como novos alunos.

No último 7 de maio, um criador local entrou na escola primária Jules-Ferry com um rebanho de 50 carneiros, numa iniciativa em conjunto com pais de alunos, com a direção da escola e com o próprio prefeito local. Quinze animais foram matriculados. O objetivo foi demonstrar que o governo Macron não se preocupa com argumentos, apenas com números. Uma vez que só números interessam, carneiros podem contar como crianças. Xeque!

Panúrgio?

O caso aconteceu em Crêts de Belledonne, uma comuna de pouco mais de três mil habitantes, localizada no sudeste francês, pouco mais de 600 quilômetros distante de Paris. Devagar, que “comuna” não é o que você pode estar pensando; é como os franceses se referem à menor e mais antiga unidade administrativa do seu território.

Numa balbúrdia danada, o prefeito Jean-Louis Maret recebeu das mãos da criançada as certidões de nascimento dos novos alunos, com nome de batismo e tudo mais. Um dos novos alunos da escola chama-se Panúrgio, o vingativo personagem de Rabelais que compra os melhores carneiros de um inimigo só para atirá-los ao mar. O resto do rebanho vê a cena, mas é feito cegos que todos os carneiros seguem o rumo dos primeiros, morrendo afogados também.

Cartaz de Maio de 68.

Quem daria a um carneiro o nome de Panúrgio? Mas quem também agora vai à escola na sediciosíssima comuna alpina de Crêts de Belledonne é a ovelha Baaaaah-Bette.

Babette é um nome comum na França. É o nome, por exemplo, da refugiada francesa que chega à Dinamarca para trabalhar como criada no filme A Balbúrdia, ou melhor, A Festa de Babette, de 1987, ganhador do Oscar de “Melhor Filme Estrangeiro”. O filme é baseado no conto de Karen Blixen que conta a história de uma Babette que foge da sanguinária repressão à – agora sim – Comuna de Paris, primeiro governo operário da História.

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