Glenn Greenwald corre perigo em Paraty, onde morreu Teori Zavascki

Glenn Greenwald corre perigo em Paraty, onde morreu Teori Zavascki

No dia 1º de agosto de 2014, uma sexta-feira, Glenn Greenwald participou da mesa “Liberdade, Liberdade”, sobre liberdade de imprensa, na 12ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Naquela ocasião, Greenwald lembrou que quando Edward Snowden pediu asilo ao Brasil, meses antes, o governo de Dilma Rousseff primeiro negou que o pedido tivesse sido feito e, depois, negou o pedido.

“Todos os países que se beneficiaram das denúncias de Snowden tinham não apenas a obrigação legal, mas a obrigação moral de dar a ele o seu apoio. O Brasil não recebe Snowden porque parece estar com mais medo de desagradar aos EUA do que de ser espionado”, disse Greenwald naquele dia, naquela edição da Flip.

Glenn Greenwald se referia ao aceno feito por Edward Snowden de que, em troca do asilo, repassaria ao governo brasileiro novas informações sobre a espionagem feita pelo governo estadunidense a Dilma, escândalo que um ano antes tinha vindo à tona em reportagem do Fantástico baseada em documentos da NSA vazados por ele, ele mesmo, Snowden.

Vazados por Snowden a Glenn Greenwald, que, em parceria com a Globo, assinou aquela reportagem do Fantástico junto com Sônia Bridi. Passa o tempo, e no dia 4 de julho de 2015 a GloboNews divulga simultaneamente com o WikiLeaks a informação de que, além de Dilma, o governo dos EUA havia espionado também diplomatas, funcionários do ministério da Fazenda e ministros brasileiros, naquela feita já ex-ministro, como Antonio Palocci.

A GloboNews, na época, informou que a reportagem foi feita em parceria “com a publicação online The Intercept”, dos EUA. O The Intercept Brasil só seria lançado mais de um ano depois, em agosto de 2016.

O tempo não para e, hoje, Globo e GloboNews estão empenhadas em desacreditar Glenn Greenwald e a Vaza Jato do Intercept Brasil, não se fazendo de rogadas em açular a “narrativa” de que a publicação dos Telegram Papers é “ataque às instituições”, fruto de “ataque hacker”, quem sabe um planejado “ataque russo” – comunista, portanto – à Lava Jato.

‘Falam que ele ganhou o Pulitzer, mas é fake’

Nesta quarta-feira, 10, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem mostrando que moradores de Paraty estão se mobilizando contra a presença de Glenn Greenwald na edição deste ano da Flip. A participação de Glenn na festa literária está marcada para esta sexta-feira, 12, na Flipei (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes), uma das “casas parceiras” da organização do evento, que promovem atividades paralelas à programação oficial.

A Folha informa que centenas de pessoas, organizando-se via Whatsapp, pretendem aparecer na Flipei nesta sexta com o objetivo de impedir Greenwald de falar.

Um dos organizadores da “manifestação”, citado pela Folha, diz que “Foi uma indignação instantânea quando essa palestra foi divulgada. A indignação é por um estrangeiro vir discutir sobre a Lava Jato, este patrimônio do brasileiro decente que cansou de ouvir barbaridades sobre roubalheira. Um americano que foi expulso do país dele. Falam que ele ganhou o prêmio Pulitzer, mas ele não ganhou nada, é tudo fake”.

“Se violar o celular da gente já é um crime gravíssimo, imagina o que eles fizeram com uma autoridade, um ministro de Estado. A gente vai receber um cara que não tem moral. Lugar de bandido é na cadeia. Será que a Flip vai fazer isso, trazer mais bandidos e criminosos para cá?”, disse à Folha um outro agitador.

E, ainda, um terceiro: “nós não queremos envolver política nas festas da cidade, e eles estão praticamente querendo colocar a sede do comunismo aqui na cidade de Paraty”.

Flip: Festa Literária Isentona de Paraty

Na semana passada, essa gente de bem de Paraty mandou um e-mail para a organização da Flip pedindo o cancelamento da participação de Glenn Greenwald na festa. A organização da Flip se manifestou dizendo, “isentona”, que a programação das casas parceiras “não necessariamente refletem sua opinião”.

Cobrada por atuar diante do ronrom de ataques a Glenn, a Flip, que tem apoio da Fundação Roberto Marinho, posicionou-se dizendo que não iria se posicionar, dizendo que “não se vê no papel de desautorizar manifestações que por ventura ocorram no seu território, contanto que as mesmas não contenham teor ofensivo ou discriminatório”. 

Tímido, para usar uma palavra tímida, para uma festa literária cheia de borogodó. E assim, de pouquinho em pouquinho, Glenn Greenwald corre perigo real, para além da certeza de que “para morrer, basta estar vivo”, em sua participação no primeiro evento público com ampla divulgação na mídia depois que virou o inimigo público número um do “novo Brasil”.

Glenn Greenwald, da Vaza Jato, corre perigo em Paraty, onde morreu Teori Zavascki quando relatava os processos da Lava Jato no Supremo sem inspirar “aha, uhu” em Curitiba.

Uma época em que tudo era possível

O avião do qual Teori Zavascki jamais desembarcou, senão morto, caiu no litoral de Paraty em 2017. Dez anos antes, em 2007, o escritor argentino Cesar Aira, um dos principais nomes da literatura latinoamericana contemporânea, participou da Flip como autor convidado. Cesar Aira acaba de lançar no Brasil, pela Rocco, o romance “O Santo”.

A história começa quando os manda-chuvas de uma pequena cidade costeira impregnada dos estertores da Idade Média, tipo Paraty, quando eles se veem de repente de calças curtas quando uma celebridade da época se torna, para eles, inconveniente de uma maneira incontornável.

“A cultura da época, seus sonhos, suas guerras se desenrolavam sobre o solo europeu como um colorido tapete que o Tempo tornaria História. No momento, nada mais era que uma confusão. Ninguém se dava ao trabalho de esclarecê-la, porque não convinha e porque os trabalhos da Razão estavam desvalorizados. A fé subjugava o povo. Era uma época de milagres e ressurreições, em que tudo era possível. Misturava-se o saber com a ignorância e as severidades do dogma corriam lado a lado com as liberdades do cotidiano”.

Os afetados diretos faziam conciliábulos em ritmo frenético, para decidir que diabos fazer com a celebridade que se tornara, súbito, desconvinhável. Por fim, “descartadas todas as soluções legais, só restava outra, que não se mencionou pelo nome”.

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