De 25 partidos, só cinco participaram de tributo às vítimas do AI-5 na Câmara

De 25 partidos, só cinco participaram de tributo às vítimas do AI-5 na Câmara

Há quase um ano, no último 13 de dezembro, aniversário de 50 anos do AI-5, apenas cinco dos 25 partidos que naquela data tinham representação no Congresso participaram da sessão solene na Câmara dos Deputados em homenagem às vítimas do ato institucional que a famiglia já fala abertamente em reeditar.

Apenas parlamentares do PT, PSOL, PDT, PCdoB e PSB compareceram. Na época, a revista Fórum informou que deputados de outros partidos apareceram apenas para registrar presença e depois se retiraram. Em matéria publicada naquele dia, uma quinta-feira, a Folha de S.Paulo informou que às 11h30, cerca de 40 minutos após o início da sessão, era possível contar no plenário a presença de não mais que 10 dos 513 deputados.

Ignoraram a sessão solene de memória do AI-5 partidos como PSL, Patriotas e PRB, mas também PSDB, MDB e DEM, mesmo às vésperas da posse de um presidente da República fã de torturador e exaltador da Ditadura Militar – ou talvez exatamente por isso. Hoje, muitos tucanos, “democratas” e emedebistas – talvez nem tantos assim – se dizem estupefatos de verem o próprio líder do governo na Câmara levantar a bola da reedição do AI-5.

Entre eles, Rodrigo Maia. No dia seguinte à sessão, 14 de dezembro, 50 anos e um dia do AI-5, informava a coluna de Bernardo Mello Franco: “embora o painel eletrônico marcasse a presença de quase 300 parlamentares, a maioria já estava longe de Brasília quando a sessão começou. O presidente Rodrigo Maia ficou na cidade, mas não saiu da residência oficial”.

Os ‘restos do AI-5’

“Isso mostra que a maioria dos parlamentares da Casa não tem sensibilidade de entender o que representou o AI-5 e, mais do que isso, grande parte é cúmplice dos restos do AI-5 que estão na nossa contemporaneidade”, disse naquele dia, diante do plenário vazio, a deputada Erika Kokay (PT-DF).

O então deputado Chico Alencar (Psol-RJ) foi um dos organizadores e foi o presidente daquela sessão. Candidato a senador pelo Rio nas última eleições, Chico ficou em quinto lugar, com 9,17% dos votos, e não está mais no Congresso Nacional. O primeiro lugar na disputa pelo Senado no Rio ficou com Flavio Bolsonaro, que amealhou 31,36% dos votos. Em São Paulo, seu irmão Eduardo “AI-5” Bolsonaro foi o deputado federal mais votado da história do Brasil.

No encerramento da sessão solene na Câmara em homenagem às vítimas do AI-5, Chico Alencar leu “Os primeiros tempos da tortura”, do poeta paraibano Alex Polari de Alver­ga, que foi preso e barbaramente torturado pela Ditadura durante a vigência do AI-5. O poema diz assim:

Não era mole aqueles dias
de percorrer de capuz
a distância da cela
à câmara de tortura
e nela ser capaz de dar urros
tão feios como nunca ouvi.
Havia dias que as piruetas no pau-de-arara
pareciam ridículas e humilhantes
e nus, ainda éramos capazes de corar
ante as piadas sádicas dos carrascos.
Havia dias em que todas as perspectivas
eram pra lá de negras
e todas as expectativas
se resumiam à esperança algo cética
de não tomar porradas nem choques elétricos.
Havia outros momentos
em que as horas se consumiam
à espera do ferrolho da porta que conduzia
às mãos dos especialistas
em nossa agonia.
Houve ainda períodos
em que a única preocupação possível
era ter papel higiênico
comer alguma coisa com algum talher
saber o nome do carcereiro de dia
ficar na expectativa da primeira visita
o que valia como um aval da vida
um carimbo de sobrevivente
e um status de prisioneiro político.
Depois a situação foi melhorando
e foi possível até sofrer
ter angústia, ler
amar, ter ciúmes
e todas essas outras bobagens amenas
que aí fora reputamos
como experiências cruciais.

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