Já são quatro horários diferentes para acesso de Élcio ao condomínio

Já são quatro horários diferentes para acesso de Élcio ao condomínio

Desde a prisão de Ronnie Lessa e Élcio Vieira de Queiroz pelo duplo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, no dia 12 de março deste ano, já são quatro horários diferentes – com diferença de até quase um quarto de hora – apresentados diretamente pelos investigadores ou reportados pela imprensa para o momento da entrada de Élcio no condomínio Vivendas da Barra no dia 14 de março de 2018, dia da morte de Marielle e Arderson.

São eles: 16h59, 17h07, 17h10 e 17h13.

Vejamos.

Antes das cinco?

No dia 14 de março de 2019, um ano após o duplo assassinato e dois dias depois da prisão de Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, o jornal O Globo citou o resultado de um rastreamento feito pela Delegacia de Homicídios do Rio por meio de antenas de telefonia espalhadas pela cidade: “às 16h59, o aparelho de Élcio Queiroz é detectado por antenas no condomínio de Lessa, o Vivendas da Barra”.

“Desse momento em diante, a polícia afirma que eles estiveram juntos até a madrugada do dia seguinte. Uma análise mostra que os telefones cadastrados pelos dois foram deixados no local”, diz O Globo.

Tecnicamente às 17h07 ou tecnicamente às 17h13?

“A prova técnica juntada aos autos mostra que no dia 14 de março de 2018, às 17h07, quem autoriza a entrada de Élcio Queiroz no condomínio é Ronnie Lessa”, disse a promotora Simone Sibilio, do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco), no último 30 de outubro, na entrevista coletiva em que o Ministério Público mentiu sobre a perícia ter refutado o porteiro – de resto, porque posteriormente foi trazida à luz por Lauro Jardim a informação de que o porteiro que prestou depoimento não é o mesmo da gravação que mostra Ronnie Lessa dando ok para a entrada de Élcio no condomínio.

“(O porteiro) Mentiu. Isso está provado por uma prova técnica. As testemunhas prestam depoimento, todos os elementos precisam ser checados. Todos os elementos o GAECO checa. Nada passa sem ser checado”, disse Simone Sibilio.

No vídeo exibido por Carlos Bolsonaro “provando” que foi Ronnie Lessa quem autorizou a entrada de Élcio na tarde do dia 14 de março de 2018, a gravação aparece tecnicamente registrada no computador do condomínio como sendo das 17h13.

A “prova técnica”, afinal, teria sido gravada automaticamente no sistema de registros de ligações do condomínio às 17h07 ou às 17h13?

Registro manual: 17h10

Já o livro de registros da portaria do condomínio Vivendas da Barra mostra a entrada de Élcio de Queiroz às 17h10, para visita à casa 58, de Jair Bolsonaro. É bom lembrar que esta anotação é de um ano antes de o nome de Élcio de Queiroz sair no noticiário como um dos presos pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Se na tarde daquele dia 14 de março de 2018 o porteiro mais antigo do condomínio tentou incriminar Jair Bolsonaro pela morte de Marielle Franco, trata-se mesmo de um viajante do tempo.

O porteiro ouvido pelos investigadores do caso não apenas confirmou o que registrou no livro do condomínio, como disse ainda à polícia que interfonou duas vezes para a casa de Bolsonaro, a segunda para avisar que Élcio de Queiroz havia se dirigido na verdade para a casa de Ronnie Lessa, recebendo nisso, segundo ele, confirmação da autorização para a visita de Élcio ao condomínio.

Do ‘claustro psíquico’ ao disco rígido

“Por que o porteiro lançou a casa 58? Aí essa questão está no claustro psíquico do porteiro”, disse Simone Sibilio da entrevista coletiva do MPRJ que ela comandou no último 30 de outubro.

No “claustro psíquico” ou no HD?

O computador da administração do condomínio Vivendas da Barra foi finalmente apreendido nesta quinta-feira, pela Polícia Civil do Rio de Janeiro. Se o porteiro diz a verdade, uma perícia idônea será capaz de detectar duas ligações da portaria para a casa 58 por volta das 17h10 do dia 14 de março de 2018, a julgar pelo que afirmou à Folha de S.Paulo o presidente da Associação Brasileira de Criminalística, Leandro Cerqueira:

“A edição pura e simples, se cortou alguma coisa, dá pra fazer [apenas com a cópia]. O arquivo pode não estar editado, mas pode ter sido trocado. Tem ‘n’ coisas que aí não é a perícia no áudio, é a perícia da informática. Para ver se não foi alterada a data ou qualquer outra coisa nesse sentido, tem que ter acesso ao equipamento original. A perícia vai lá, faz um espelho, e pericia o espelho, para garantir a idoneidade da prova”.

Isso se o equipamento for mesmo o original e se o equipamento original, que ficou tanto tempo à disposição dos condôminos, já não está imprestável para que dele uma perícia idônea consiga extrair verdadeiras provas técnicas.

‘N’ coisas e mais uma

No vídeo em que Carlos Bolsonaro rodou o arquivo de áudio mostrando um ok de Ronnie Lessa para Élcio de Queiroz entrar no condomínio, a gravação imediatamente anterior registrada no sistema do Vivendas da Barra é das 16h58, para a casa 15. É o que mostra a tela de PC filmada por Carlos.

Por mais que descaraterizado pela imprensa que o divulgou, o que mostra o livro do condomínio sobre a ligação anterior àquela registrada à mão às 17h10, aquela que autorizou a entrada de Élcio, não parece ser o horário 16h58, ou coisa perto disso, nem mesmo eventualmente arredondado para 17h00, nem a casa anotada parece ser a casa 15:

Mas talvez seja apenas o porteiro mais antigo do condomínio se enganando outra vez.

O relógio de um outro capitão

Não tem jeito: de prova técnica, mas técnica mesmo, quem entende é o capitão. Se não o capitão Bolsonaro, sem sombra de dúvida o capitão Vidal, o cruel capitão Vidal de “O Labirinto do Fauno”, filme de 2006 dirigido por Guilhermo Del Toro.

O filme se passa na Espanha imediatamente após a derrota do Exército Republicano e vitória do fascismo na Guerra Civil. Em “O Labirinto do Fauno”, os fascistas tentam eliminar os remanescentes focos de resistência republicana nas montanhas, em nome de “uma Espanha limpa e nova, livre de derrotados que acreditam na igualdade”.

O fascista capitão Vidal, um obcecado pela pontualidade, carrega consigo um relógio que seu pai, ferido, quebrou um instante antes de dar seu último suspiro no campo de batalha, a fim de que seu filho soubesse a hora exata de sua morte.

  1. Estou muito longe de ser um perito criminal, mas creio que posso responder à dúvida quanto ao horário da prova técnica, que é mostrado no vídeo do Carlos Bolsonaro: O nome dos arquivos das gravações do interfone seguem um padrão: 0001_AAAAMMDD_HHMMSS*_TX**_B***_DSSSSS***_S28550_G0001_O0 (onde os primeiros campos são a data e hora em que foi realizada a chamada [registrados no relógio interno do dispositivo de gravação]; TX** [ou RX**] (que indicaria que a ligação parte da portaria [TX costuma indicar que este é o transmissor da mensagem e RX o receptor]; B*** (que é o número da residência); D**** é a duração da chamada em segundos; os outros dois campos são padrão pra todos [eu arriscaria dizer que são o número da porta e/ou servidor que os dados são transmitidos]. O horário de modificação que aparece no vídeo (17h13) é diferente do nome do arquivo porque este é o horário em que o backup foi gravado no computador. O software está programado pra gravar no computador o backup das ligações a cada 15min. O que realmente conta como registro individual do momento da ligação é o nome do arquivo. (pruma análise com base no vídeo, e que pode ser facilmente modificado)
    Novamente digo que não sou perito mas discordo que o horário registrado na planilha seja 17h10, o suposto 1 dos 10min está pra mim muito mais próximo de ser um possível 0 (17:00) do que 1 propriamente dito, é só comparar com o 1 de 17 nessa linha e na linha anterior. Pra mim parece muito mais um 0 escrito na pressa.
    E mais uma hipótese que levanto com base na foto da planilha divulgada na imprensa é a de que o registro anterior ao da entrada de Élcio Queiroz se trate de uma residência com final 9 (e que na planilha também teria entrado às 17:00), que não se encontra nas gravações da portaria.

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