‘Idiota como uma raposa’: um inédito de Kafta

‘Idiota como uma raposa’: um inédito de Kafta

No “novo Brasil”, a live de quinta-feira é mais familiar que qualquer acepipe da literatura universal, tradicional como a família brasileira e cognoscível como uma espécie de parlenda que era muito comum no Brasil algumas décadas atrás. Quem, nesse país, tem por volta dos 40 e ainda tem memória, há de se lembrar: “era meia-noite e o sol brilhava intensamente. Os passarinhos pastavam e as vacas pulavam de galho em galho. Um velho novo, sentado de pé, numa pedra de pau, calado, dizia: eram quatro os três poetas, Jacó e Jeremias”.

Na live presidencial dessa quinta, 9, eram mesmo quatro os três poetas sentados de pé na bancada, mas não foi Jacó, nem Jeremias, quem roubou a cena. Foi “Abraão”, que é como Jair Bolsonaro pronuncia o nome de Abraham Weintraub, seu ministro da Educação e de Sonos Intranquilos.

Lá pelas tantas, Weintraub comparou cortes da ordem de 35% no orçamento das universidades federais, “dessas que a gente vê por aí”, com “dar uma segurada” se bater vontade de comprar Prestígio, Lolo ou Chokito. Afinal, “as contas de um país são como as contas de uma família”. Na sequência de sua brilhante explanação, o ministro “confundiu” 35 chocolates a menos, de 100, com 3,5. Weintraub chegou a partir uma barrinha ao meio, e Bolsonaro comeu um pedaço – de Prestígio…

“Confundiu”, pois sim. Não exatamente como quem chama Kafka de Kafta três vezes consecutivas, mas sim como um dia a senadora Ana Amélia, muito inocentemente, “confundiu” Al-Jazeera com Al-Qaeda.

Mas sempre haverá quem dê mãozinha ao baralhados, classificando como “gafe” seja a tentativa de trapaça, seja a mais patente inaptidão. Se Borges deveu à conjunção de um espelho com uma enciclopédia a descoberta de Uqbar, a conjunção de trapaça e inaptidão nos remete a “Abraão” Weintraub, ou ao título original de um célebre episódio do desenho animado Pica-Pau que no Brasil recebeu o nome “Esperto contra sabido”. O título original é Dumb like a Fox, algo como “Idiota como uma raposa”.

‘Três pra você, três pra mim’

O título é uma referência à raposa Fink. Fink passa o episódio quase todo tentando se vingar de umas pancadas que levou do Pica-Pau. Em vão, claro, porque a raposa é desses personagens de desenhos animados para quem nada dá certo, nunca. Tipo o Dick Vigarista, o Tom de Jerry ou Juan Guaidó.

No início do episódio, Fink, idiota, mas vigarista, tenta passar a perna no Pica-Pau na hora da divisão do chocolate, ou melhor, dos mantimentos. Esse episódio é um clássico porque ensinou toda uma geração de irmãos mais velhos, talvez de ministros, a usar toda sua autoridade para subtrair Prestígios, Lolos e Chokitos dos mais novos e incautos. “Um pra você, um pra mim. Dois pra você, dois pra mim. Três pra você, três pra mim. Prontinho. Tudo dividido meio a meio”. Pois sim.

Antes de assistirem às lives de quinta, ou a Paulo Guedes falando sobre a “nova previdência”, ou à GloboNews; antes, assistam a “Idiota como uma raposa”, um inédito de Kafta que virou episódio do Pica-Pau.

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