‘A primeira atitude de Lula foi abrir as gaiolas dos passarinhos e deixar que voassem’

‘A primeira atitude de Lula foi abrir as gaiolas dos passarinhos e deixar que voassem’
Lula no velório do seu neto Arthur.

Relato de Frei Betto no livro “Lula – biografia política de um operário”. O ano é 1980.

Na noite de sexta-feira, 18 de abril, Lula esteve no hospital Assunção (em companhia de Airton Soares, que era deputado federal pelo PT), em São Bernardo do Campo, visitando dois companheiros feridos por bombas de gás lacrimogênio. Às 2:30h da madrugada, o deputado deixou-o em casa, após insistir em retirá-lo da área escondido no porta-malas de seu Alfa Romeo. Lula não queria sair de casa, como fizera no ano anterior, para não tumultuar a rotina de seus filhos. naquela noite, Geraldo Siqueira – que era deputado estadual pelo PT – e eu dormíamos em casa de Lula. Às 5:45h da manhã, escutei da sala o ruído típico de viaturas policiais que estacionam repentinamente. Chamavam pelo nome de Lula. Subi ao seu quarto e bati à porta:

– Lula, os homens estão aí.

Lá fora, os agentes policiais gritavam:

– Senhor Luiz Inácio! Senhor Luiz Inácio! Lei de Segurança Nacional!

Sonolento, Lula parecia não se dar conta se aquilo era pesadelo ou realidade. Marisa, sua mulher, insistiu para que se levantasse, enquanto fui à porta e vi seis homens portando metralhadoras. O deputado Geraldo Siqueira tivera seu carro apreendido na noite anterior e o motorista havia sido preso. Sugeri a ele:

– Vai lá fora e pede que mostrem identidade e mandado de prisão.

Os papéis foram exibidos, enquanto Lula vestia a roupa apressado e se despedia da família.

– Olhem, cabeça fria, cuidem aí da família e o que importa é a categoria ir até o fim desta luta – disse ele ao sair.

Lula foi preso pela Ditadura no dia 19 de abril de 1980. De abril a maio, comandou, da prisão, a maior greve da história da categoria dos metalúrgicos. Enquanto estava preso, perde sua mãe e tem autorização de liberdade temporária para ir ao velório. No cemitério, uma multidão de 2 mil pessoas gritava: “Lula livre!”.

O esquema repressivo compreendia todo o ABC, onde inúmeros dirigentes sindicais foram presos na mesma madrugada. Por sorte, o telefone de Lula não havia sido cortado, como fizeram com outros sindicalistas. Comuniquei o fato imediatamente a Dom Cláudio Hummes e ao cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo. Liguei também para a imprensa, que logo divulgou a notícia.

Embora incomunicáveis nos primeiros dias, os dirigentes sindicais conseguiram, de dentro do DOPS – Departamento de Ordem Política Social – estabelecer canais de comunicação com a Comissão de Mobilização, responsável pelo comando do movimento grevista. Na cela, os prisioneiros ouviam rádio e liam jornais, acompanhando toda a mobilização no ABC. No entanto, os empresários recusavam-se a reabrir as negociações. Queriam vencer a categoria pelo cansaço. Como meio de pressão sobre eles, Lula e seus companheiros decidiram entrar em greve de fome. Após seis dias de jejum, acataram o apelo de Dom Cláudio Hummes para que suspendessem o protesto.

A 20 de maio, a prisão preventiva dos sindicalistas foi revogada, permitindo que recuperassem a liberdade. Ao chegar em casa, a primeira atitude de Lula foi abrir as gaiolas dos passarinhos e deixar que voassem… Julgado pelo Conselho Permanente de Justiça da 2a Auditoria Militar de São Paulo, em novembro de 1981, Lula foi condenado a 3 anos e 6 meses de prisão, com direito de recorrer em liberdade ao Superior Tribunal Militar – que posteriormente anulou o processo.

A greve de 1980 começou a terminar quando já durava 29 dias. A imprensa noticiou que os patrões, a partir do 30° dia, demitiram por abandono de emprego. Muitos operários deixaram-se intimidar. Ainda assim, o movimento resistiu até 11 de maio, quando completou 41 dias.

Sob o aspecto trabalhista, nada se ganhou com a greve, pois não houve acordo entre empresários e trabalhadores. Porém, politicamente a categoria avançara, sobretudo ao reconhecer que a mobilização de 1979 não fora inútil, pois nela se conquistaram 15% de aumento e o pagamento dos dias parados. Se 1980 não representou nenhum ganho material, não há dúvida de que influiu decisivamente para criar maior consciência de classe entre os metalúrgicos. Agora, com o PT, a onça iria beber água também nas fontes da atividade político-partidária…

  1. 08/11/201913:37
    Libertação de Lula exige estratégia, não festa
    http://midianinja.org/gabrielrg/libertacao-de-lula-exige-estrategia-nao-festa/?fbclid=IwAR0qBPJfvXJ69vG2Si2mIAugqhI5ZFBMccZWCjqCcqOFEjQvCZ5PtapjlRk

    Ao que parece, Lula sairá da prisão, depois de uma vitória assustadoramente apertada do constitucionalismo sobre o obscurantismo no STF. Por um voto de diferença, os magistrados decidiram que no Brasil só puxa cadeia quem for condenado. Não é uma vitória nossa. Não é uma vitória popular. Difícil até dizer que é uma vitória. Afinal, batemos na trave de mais um suicídio institucional.
    Claro que temos que festejar que Lula, entre outros 5 mil inocentes (todo mundo é até que se prove o contrário, lembra?), poderão em breve dormir em suas camas. Podemos e devemos comemorar que uma grande liderança popular poderá estar, ao menos parcialmente, ao lado dos seus.
    Mas não tem avanço político em si nessa libertação. Ao contrário do que aconteceu com Angela Davis ou o líder Pantera Negra Huey P. Newton, não foi o movimento popular quem tirou Lula da cadeia. Também não foi um ato de radicalização de uma organização política à la MR8. Não foram nem seus advogados. Quem solta Lula é quem abriu o caminho para que ele fosse preso sem provas. E sinto muito, mas nada do que vem de cima nos pertence.
    Até simbolicamente é uma libertação vazia, já que sequer será atendido o desejo manifesto de Lula, de só sair com a prova irrefutável de sua inocência e a implicação dos capos policialescos do lavajatismo numa trama conspiratória para tirá-lo do cenário eleitoral. O STF decidiu o que decidiu porque sabe que disputa um jogo de elites num país cindido entre os novos cães raivosos da extrema-direita e um conservadorismo quatrocentão, que julgou possível se autoadministrar doses controladas de fascismo e terminou intoxicado, engolido pelo monstro.
    Agora, esperemos por um tsunami de anti-institucionalidade. “Queimem o STF, arranquem a cabeça do Gilmar Mendes”… É esse tipo de retórica que emanará do cristo-milicianismo justiceiro e será tacitamente ecoado por sua representação federal. É hora de Bolsonaro promover sua “noite dos cristais” e provar de uma vez por todas que ninguém precisa de 80% da população para se eleger, muito menos para governar. Basta uns 20% de fanáticos, dispostos a matar ou morrer pelo líder.
    Esses serão os que se mobilizarão agressivamente pela completa destruição da institucionalidade liberal. Se, como em junho de 2013, a esquerda se vender como o último dos republicanos e não pensar seriamente em como construir a luta extra-institucional, bom… bem-vindos ao Reich Tupiniquim. A direita tradicional – mídia liberal, PSDB, indústria – se desmilinguiu sob o moralismo anti-establishment do neofascismo. E a esquerda tem na libertação vertical de Lula um monumento a sua inabilidade conjuntural de disputar a sociedade.
    Ou seja, a avenida que se abre é, mais uma vez, extra-institucional. Ou reivindicamos nosso ethos revolucionário e aprendemos a trilhá-la, ou não seremos mais do que a torcida silenciosa de um jogo de barões.
    Texto de GABRIEL RG

    Texto de Gabriel RG: Jornalista especializado em política externa. Foi correspondente na França para vários veículos de mídia do Brasil e repórter na Radio France Internationale. Mestre em literatura pela Sorbonne Nouvelle Paris III e consultor no coletivo @favelanopoder.

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