O conluio e o decano: ‘in Celso we trust’

O conluio e o decano: ‘in Celso we trust’

Os canais brasileiros de “jornalismo 24 horas” costumam transmitir ao vivo infindáveis e enfadonhas sessões do Supremo Tribunal Federal sobre se Tostines vende mais porque é fresquinho ou se é fresquinho porque vende mais.

Nessa terça-feira, 25, porém, nenhum desses canais transmitiu ao vivo a sessão da segunda turma do STF sobre se Lula deveria esperar em liberdade o julgamento, ainda a ser marcado pelos supremos devoradores de lagostas, sobre como fica sua sentença do Triplex à luz dos “fatos novos”, e que fatos: as combinações entre juízo e acusação e tudo mais feito “fora dos autos” no âmbito da operação Lava Jato.

No caso de Lula, e nas palavras do juiz Luis Carlos Valois, um “acordo de condenação” revelado pela “Vaza Jato” do Intercept Brasil.

As salas das turmas do STF, informa O Globo, “não têm estrutura para ao vivo”. Há dois anos, o site O Lavajatista, ou melhor, O Antagonista transmitiu ao vivo uma “oitiva sigilosa” de Marcelo Odebrecht diretamente da sala de audiência então governada por Sergio Moro em Curitiba.

Na Globo News, coube à repórter Isabela Camargo entrar ao vivo logo após o fim da sessão dessa terça no STF para dar a notícia da decisão da segunda turma: três a dois para manter Lula preso.

Na Globo News, não poderia mesmo caber a qualquer outro repórter fazer as honras da casa. Isabela passou anos cobrindo a Lava Jato, entrando ao vivo nos telejornais da noite sempre de um jardim à meia luz dos suis do país: o jardim do prédio da 13ª Vara Federal de Curitiba, para dar os informes do dia, tipo porta-voz, sobre os heroicos trabalhos da “Liga da Justiça”.

Quando Super Moro se mudou para Brasília, Isabela, ato continuo, foi transferida para Brasília também. Na primeira entrevista coletiva de Moro como ministro da Justiça de Jair Bolsonaro, Isabela Camargo fez a primeira pergunta. Antes de tudo mais, parabenizou o “Dr. Sérgio”.

‘Não se engane’, my friend

Dado o informe na Globo News sobre o três a dois contra Lula, a comentarista de política Cristiana Lobo destacou, bonançosa e abonançada, que “havia grande expectativa pelo voto do ministro Celso de Mello”. Havia, de fato, porque quem ainda bota fé nos “setores responsáveis desse país” supunha que a segunda turma do STF resistiria, com um três a dois inverso, como uma espécie de último bastião institucional da legalidade, contra o arbítrio.

A Lobo em pele de jornalista talvez tenha sido, entre Valdos, Camarottis, Leitões e até entre Mervais, aquela que ao longo dos últimos anos mais diminuiu, ridicularizou, menosprezou as críticas, denúncias e alertas sobre a atuação política da Lava Jato, classificando-os como “narrativa do PT”.

No dia 10 de março do ano passado, o ministro Marco Aurélio Mello adiou a apreciação, pelo Supremo, de uma Ação Declaratória de Constitucionalidade (ADC) contra a prisão após condenação em segunda instância, matéria de que era relator. Adiou porque quem havia entrado com a ação, o Partido Ecológico Nacional (PEN), arrependeu-se, sob a justificativa mui republicana de que “somos um partido de direita” e, nessa condição, não poderia mover pauzinhos que resultassem, quem sabe, na liberdade de Lula.

Várias entidades da esfera jurídica, como a Defensoria Pública da União e a Associação Brasileira de Juristas pela Democracia, manifestaram-se imediatamente, na ocasião, dizendo que o recuo do PEN não deveria ser motivo para o STF, por sua vez, deixar de analisar a matéria, “matéria de extremo relevo”. 

Naquele mesmo dia 10, no Jornal das 10, da mesma Globo News, o âncora Heraldo Pereira virou-se de repente para a câmera e advertiu, em tom grave, e sutil como uma bigorna em queda livre:

“O ministro Marco Aurélio Mello é professor de Processo Penal Constitucional, vice decano do Supremo Tribunal Federal, um dos magistrados mais experimentados da Suprema Corte. Não se engane! Ele é um magistrado sério, e fará também nesse julgamento um trabalho muito sério. Ele não mistura política com Direito. Pelo menos do que eu sei até aqui”.

Com o decano, com tudo

Agora, depois de Marco Aurélio; depois de Rosa Weber votar com o general Villas-Bôas contra o HC preventivo de Lula; depois dos votos de Minerva de Carmen Lúcia a favor da República de Curitiba serem saudados como “votos de vanguarda” por outra loba, ou melhor, raposa da imprensa, Eliane Cantanhêde; depois de Luis Roberto Barroso, que já foi considerado “constitucionalista progressista”, deixar de ser tanto constitucionalista quanto progressista para ficar “em sintonia com o sentimento social”; depois de Dias “movimento de 64” Toffoli; agora, o decano Celso de Mello é o mais novo candidato a Bezerro de Ouro de quem rasga elogios a quem rasga a Constituição.

Como disse o professor Luis Felipe Miguel, “as máscaras estão caindo” – além das perucas.

Covarde, Celso de Mello vai dormir mais uma vez com a consciência pesada por deixar um inocente na cadeia e por…

Posted by Luis Felipe Miguel on Tuesday, June 25, 2019

As últimas máscaras, seria bom acrescentar. E, contra vãs expectativas futuras, vale lembrar que os dois votos pela liberdade de Lula nessa terça, no STF, foram dados por Gilmar Mendes, que barrou a posse de Lula como ministro de Dilma Rousseff por causa da divulgação ilegal de uma gravação ilegal feitas por Sergio Moro; e por Ricardo Lewandowski, que chancelou, presidiu mesmo, o golpe de 2016 contra Dilma

Quando, há poucos dias, foi ao Senado falar sobre a Vaza Jato, Moro disse que, quando “teria” escrito a frase in Fux we trust para Deltan Dallagnol, no Telegram, referia-se à instituição Supremo Tribunal Federal. De fato, parece que sempre haverá alguém em quem they trust. Em quem, no Supremo, they did not trust, esse is dead.

In Supreme they trust. Precisa traduzir?

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