Bolsonaristas roubaram algo no exterior, e não se trata de ‘coisas de hotéis’

Bolsonaristas roubaram algo no exterior, e não se trata de ‘coisas de hotéis’

O Ministério da Educação da Pátria Amada, Brasil, foi acusado na última sexta-feira, 8, pelo jornal El Heraldo, do México, de roubar a ideia da pintura “La Patria”, do mexicano Jesus de la Helguera (não confundir com Jesus da Goiabeira, o da visão da ministra Damares Alves), para defender a execução marcial e obrigatória do hino nacional brasileiro nas escolas do país, da cabeça aos pés do impávido colosso.

O óleo sobre tela em questão, “La Patria”, que remete à Revolução Mexicana de 1910, foi pintado por Jesus de la Helguera em 1942. Em 2019 do Nosso Senhor, no Brasil, alguém fez download da imagem do quadro, trocou a bandeira mexicana pela bandeira brasileira, alterou o brilho e o contraste no Photoshop e voilá: “Movimento do povo brasileiro. Se achar ruim eu vou junto e canto também”.

Não há registro concreto, porém, de que a divulgação da imagem manipulada tenha partido diretamente do MEC Bolsonarista. O El Heraldo informa que quem chamou atenção para o plágio foi uma brasileira, no Twitter. O tweet, porém, diz que a imagem vem sendo repercutida na internet pela “galera do ‘Hino Sim’”, numa alusão às campanhas de apoio nas redes sociais – umas mais, outras menos espontâneas – não apenas para que as crianças cantem, sim, o hino nacional nas escolas, perfiladas, mas também para que sejam filmadas no ato cívico, conforme chegou a conclamar o MEC, recuando em seguida, após imensa polêmica.

Um dos propagadores do plágio foi a conta no Twitter “Brasil sem comunas”, que tem mais de 20 mil seguidores e cuja imagem de perfil é uma foto do ex-presidente dos EUA Ronald Reagan. Já Jesus de la Helguera, segundo o El Heraldo, era comunista.

A notícia do suposto roubo de uma imagem nacional mexicana pelo MEC ganhou amplitude ainda maior nas redes sociais, no último fim de semana, porque, em fevereiro, o chefe do Ministério da Educação do Brasil, o colombiano deseducado, por assim dizer, Ricardo Vélez Rodríguez, afirmou numa entrevista que o brasileiro, quando viaja, “rouba coisas dos hotéis, rouba o assento salva-vidas do avião; ele acha que sai de casa e pode carregar tudo”.

‘Nunca mais vou colar’

Sobre sua certeza da mão leve brasileira, Vélez Rodríguez disse, naquela mesma entrevista, que “esse é o tipo de coisa que tem de ser revertido na escola”. O ministério da Educação ainda não se pronunciou sobre a acusação de plágio feita pelo jornal mexicano El Heraldo, ainda não a desmentiu. Estranho, para um governo que se apressa para chamar de “fakenews” (sic) até o que ele próprio manda publicar no Diário Oficial da União:

Não se sabe ainda se o ministro Vélez Rodrigues, caso venha a desmenti-la, convocará seus apoiadores para uma volta às aulas, para algum castigo depois do sinal, do tipo escreverem no quadro negro até aprenderem a lição, num último esforço para reverter a estupidez na escola: “Nunca mais vou colar. Nunca mais vou colar. Nunca mais vou colar”.

Tampouco o ministro da Justiça, Sergio Moro, pronunciou-se até hoje sobre um outro episódio não exatamente da “propinocracia”, mas da “plagiocracia” brasileira.

No último 26 de fevereiro, jornais brasileiros divulgaram a informação de que a juíza Gabriela Hardt, substituta de Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba, usou, para condenar Lula pelo sítio de Atibaia, “o mesmo arquivo de texto” da sentença de Moro que condenou Lula pelo triplex do Guarujá, com Direito – com D maiúsculo – a uma referência, na sentença da juíza Gabriela, ao “apartamento”. No que o jornalista Elio Gaspari deduziu, sobre o Ctrl+C, Crtl+V em Curitiba: “A juíza não leu o que colou”.

‘Ouviram do Ipiranga à Barra Funda’

Alexandre Garcia, muito culto, passou recibo, ruminando que se os bolsonaristas, ele próprio um deles, roubaram de Jesus de la Helguera, então Jesus de la Helguera teria roubado de “de Lacroix” (sic), referindo-se a outro óleo sobre tela, bem mais famoso, “A liberdade guiando o povo”, de Eugène Delacroix, que deve ter dado cambalhotas de desgosto em seu túmulo no cemitério do Père-Lachaise.

“A liberdade guiando o povo” está, de fato, no museu do Louvre. O delírio alexandrino sobre o ladrão que rouba ladrão vai diretamente para o Museu da Direita Histérica, no mesmo pacote do “La Patria” bolsonarizado.

A rigor, a própria “doutrina Vélez” é em si um plágio mal feito. Em janeiro de 1971, a ditadura militar baixou o decreto-lei 68.065, que estimulava a criação dos Centros Cívicos Escolares (CCEs). Os grêmios estudantis haviam sido proibidos pela ditadura em 1968. Os CCEs eram estimulados a apresentar poemas, peças teatrais, danças e até jograis patrióticos. Na “Horas Cívicas”, nas escolas, hasteava-se a bandeira ao som de um marcial e obrigatório coro dicente do hino nacional.

Na cabeça dos filhos deste solo em idade escolar, portanto, continua indo o que o vai não é de hoje quando os adultos lhe exigem perfilamento, deferência e decoreba ante “a voz sacrossanta da Pátria”:

Ouviram do Ipiranga à Barra Funda
Dom Pedro abaixa a calça e mostra a bunda

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também:

Por que a reforma da previdência é nada menos que um crime perfeito?

Por que a reforma da previdência é nada menos que um crime perfeito?