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“Anticoitadismo”, infinitos sofismas sobre a realidade social, alheamento à realidade da pandemia, incentivo ao trabalho infantil e até ao trabalho escravo. Bolsonarismo? Não, pelo menos não abertamente. É empreendedorismo mesmo. Ou melhor: é o nível a que chegou a quimera ideológica complementar aos ataques ao mundo do trabalho, cara ao neoliberalismo, urdida em torno desta palavra.

O repórter Daniel Lisboa, do UOL, assistiu por dever da profissão a várias explanações do Summit Êxito de Empreendedorismo 2020, e redigiu a matéria “Alheios à crise, gurus do sucesso pedem fim de ‘vitimismo’ e ‘coitadismo'”. O evento online aconteceu entre os dias 24 e 29 de novembro e teve mais de 60 horas de palestras de mais de 130 “especialistas em diversas áreas”, como diz o site do sucedido. Algumas dessas áreas, nota o repórter, “de difícil definição”.

Um dos palestrantes, o ex-BBB Pyong Lee, por exemplo, define-se como “ilusionista, hipnólogo e youtuber”. Teve também, claro, um alpinista. Não pode faltar um alpinista quando o assunto é subir na vida. Outro participante do “Summit”, Ricardo Bellino, apresenta-se como “empresário e ex-sócio de Donald Trump”. Bellino não é o general Augusto “Foda-se” Heleno, mas é especializado em nada mais, nada menos que “fudência”.

Autor do livro “Ninguém é fudido por acaso: um guia prático anticoitadismo”, Ricardo Bellino discorreu no evento sobre como “o pobre é pobre de espírito. Não é aquele que não tem dinheiro” e que o segredo para mudar de vida é seguir o exemplo daqueles que “vão lá e fazem. Não arrumam desculpas e se escondem no coitadismo”.

Bellino mantém online uma ferramenta chamada “fudidômetro“, para medir “o quanto você está fudido na vida”. Daniel Lisboa, jornalista crítico, fez o teste e deu que ele “sempre fala coisas negativas e fica parecendo o portador oficial de más notícias”. Este articulista fez o teste também, e o resultado do quanto estou fudido na vida deu “Fudido Total”:

“Hugo, você é o fudido clássico! Está além de um pessimista, sempre vê o copo meio vazio. Esse tipo de visão atrai problemas, então possivelmente muitos dos seus projetos não funcionaram. Sua rede de contatos é muito limitada ou defasada, já que sua postura não atrai novos contatos. Sua visão o fechou em um circuito que não se renova, e você não se surpreende mais com suas conquistas. Não sabe o que são objetivos faz tempo. Está em um trabalho pouco motivador, mas também não se esforça para melhorar, mudar ou encontrar um novo desafio. Talvez já tenha perdido muitas oportunidades interessantes de trabalho simplesmente porque não tentou ou não acreditou ser capaz. Vai dar trabalho. Precisa mudar tudo. É agora ou nunca. Não tem outra saída: ou você muda, ou muda. Não desista! Agora é a hora da virada. Quando você está no fundo do poço, a única vantagem é que só tem uma direção possível: para cima”.

Quando o sol bater no seu dedo decepado

Já o “empresário, escritor e filantropo” gaúcho de Porto Alegre Eduardo Volpato contou em sua palestra no “Summit” que começou a trabalhar aos 13 anos de idade, com o pai, e que quando tinha essa idade teve um dedo decepado em uma máquina de cortar ferro. Hoje, Volpato exibe orgulhoso o dedo perdido no acidente, mas que foi reimplantado, sorte que não teve um pernambucano de Garanhuns que teve um dedo esmagado às três da manhã numa prensa de uma fábrica que não era a da família, e que só conseguiu atendimento médico às sete, quando já brilhava o sol que, como dizem os gurus, nasce para todos…

Reprodução: Pinterest.
Foto: Ricardo Stuckert.

“Foi trabalhando com meu pai que aprendi a fazer muita coisa e eliminei duas crenças que hoje são um grande problema do brasileiro. A primeira é a crença de que trabalhar é ruim. Eu não tive opção, para mim o trabalho sempre foi uma coisa natural e dignificante. A outra crença é sobre dinheiro. Eu via meu pai cobrando dos clientes, vendendo produtos e serviços. E os clientes me validavam. No final dos anos 80 e começo dos 90, ainda era normal uma criança trabalhar”, palestrou Volpato.

O gaúcho, que escreveu um livro com “meditações poderosas” que visam “deixar para trás antigas concepções” e vencer na vida, teve tempo ainda para recomendar a adolescentes, digamos, “fudidos” que aceitem trabalhos não remunerados. Conta o repórter Daniel Lisboa:

“Volpato, ainda adolescente, foi à casa de uma senhora para um serviço de manutenção elétrica. Quando já estava indo embora, a cliente perguntou se ele poderia também pregar uns quadros na parede. Volpato aceitou o desafio e não cobrou valor extra – mesmo depois de trabalhar por duas horas e meia a mais que o esperado”.

“A decisão, ele conta, acabou lhe garantindo ótimos trabalhos depois. Gostaram daquele garoto que trabalhava duro sem cobrar”.

Ah, sim, outra dica de Eduardo Volpato foi usar cabelo curto, para não ser confundido com um “vagabundo”.

‘Sou investidor, tio! Sou investidor!’

Daniel Lisboa assistiu também à palestra de Carol Paiffer, CEO e sócia fundadora da Atom Participações. Paiffer, conta o repórter, saiu-se com esta sobre o Brasil:

“Até o ano passado, tinha mais gente na cadeia do que na bolsa. Aí você diz que é porque tem muita gente presa. Tem 0,3% das pessoas na cadeia. E 0,29% investiam na bolsa. Agora temos 1% de investidores. Mas, nos Estados Unidos, 65% das pessoas investem na bolsa e 0,73% estão presas”.

Fica, então, a dica de sucesso para quem só resta “uma direção possível, para cima”, mas que para subir tem que descer o morro todo dia de manhã: quando for selecionado pelo Sistema Penal, reinvente-se e grite bem alto “sou investidor, tio! Sou investidor!”.

Tão parecido. Até confunde

Não olhe agora, mas o empreendedorismo está mesmo a cara do bolsonarismo, de modo que chamou atenção a ausência de Luciano Hang no Summit Êxito de Empreendedorismo 2020. Afinal, a Havan acaba de ganhar na categoria varejo o prêmio Melhores e Maiores 2020 da revista Exame.

Mas estava lá, abrindo o “Summit” sobre “empreendedorismo, tecnologia e inovação em uma sociedade disruptiva”, o fundador e CEO da XP Investimentos, Guilherme Benchimol, que em janeiro demitiu sua economista-chefe por ela fazer críticas ao governo Bolsonaro e em maio disse que o pico da covid-19 já tinha passado entre as classes altas, passando o problema a ser, segundo ele, que o Brasil tem muita favela, “o que acaba dificultando”.

Estava lá Andre Esteves, palestrando sobre a criação do banco BTG Pactual, que é o maior banco de investimentos da América Latina e ao qual está ligada a empresa que mais devasta o Pantanal, a BRPec Agropecuária, conforme descobriu o De Olho nos Ruralistas.

Estava lá William Douglas, juiz federal, professor, escritor, pregador e cotado para ser o “terrivelmente evangélico” que Bolsonaro diz que irá indicar para o Supremo Tribunal Federal. No “Summit”, William Douglas falou sobre as leis – “do sucesso”.

Estava lá o “investidor anjo” João Kepler. Em outubro de 2018, Kepler disse que entre todos os candidatos à presidência da República, Jair Bolsonaro foi quem mais chamou sua atenção, “porque escreveu no seu plano importantes menções e desafios sobre Startup, Empreendedorismo e suas variáveis, inovação Digital e Investimento na área. No total foram 13 citações que o deixou destacado entre os demais candidatos, como o que mais se preocupou com esse tema, principalmente no sentido de desburocratizar, simplificar e liberdade para Empreender”.

‘Boss Nova’

Ainda que no perfil do palestrante no site do “Summit” o nome da “Venture Capital que mais investe em startups” esteja grafado sugestivamente como “Boss Nova”, João Kepler é sócio da Bossa Nova Investimentos.

A “Boss Nova” já tem na agenda outro “Summit”, a Feira de inovação Gramado Summit, que acontecerá em março do ano que vem na cidade que ganhou, via lei sancionada por Bolsonaro, o título de capital nacional do chocolate artesanal, e a prefeitura agradeceu dizendo que era “um reconhecimento ao empreendedorismo do povo gramadense”.

Na Feira de inovação Gramado Summit, a Bossa Nova Investimentos dará R$ 150 mil em “prêmio de aporte” para a startup vencedora.

Tudo bem, tudo certo que da Bossa Nova, o movimento musical, dizia-se que era “alienada”, mas em nenhuma hipótese era do naipe de Wesley Safadão, que também esteve no Summit Êxito de Empreendedorismo 2020, com a palestra “Do cantor ao empreendedor”. E, puxa vida, tinha lá o que se chamou de Bossa Nova engajada, com Carlos Lyra, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Nara Leão, Sérgio Ricardo… E o que diria o Zelão de Sergio Ricardo sobre startups, summits, “leis do sucesso” e “liberdade para empreender”?

No fogo de um barracão
Só se cozinha ilusão
Restos que a feira deixou
E ainda é pouco só

Mas assim mesmo Zelão
Dizia sempre a sorrir
Que um pobre ajuda outro pobre
Até melhorar

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3 Comentários

  1. Parabéns, Hugo Souza. Se houvesse na mídia jornalistas com a mesma capacidade, argúcia, independência e talento que você esbanja certamente o Brasil não estaria submetido à sanha dos que o desgovernam atualmente.

  2. Hugo Souza insista e não desista Água mole em pedra dura tanto bate até que fura.
    Jornalista como você são a esperança do Brasil.
    Parabéns pela sua tenacidade e votos de que seu exemplo seja capaz de que outros persigam a faina de esclarecer o povo brasileiro dos quem são os seus carrascos, os atuais governantes que estão destruindo a pátria em proveito próprio, dos seus familiares e demais asseclas.

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