Um método perigoso: como afirmar, sem tremer, que formiga é cigarra

Um método perigoso: como afirmar, sem tremer, que formiga é cigarra

No site da Globo News, está no ar um vídeo cujo título informa que uma conhecida figura decreta, no vídeo, que “a sociedade precisa aderir” à proposta de reforma da previdência do governo Bolsonaro.

Não se trata de Paulo Guedes, Rodrigo Maia ou Onyx Lorenzoni. Nem tampouco de algum gerente sênior chamado a testificar o quão incontornável é a reforma da previdência. Um deles, dia desses, pontificou olimpicamente sobre cigarras e formigas; sobre uma suposta imprevidência atávica dos brasileiros. Entende ele que os 80% de brasileiros que nada conseguem pôr no porquinho, no fim do mês, é porque assistem à passagem das estações refestelando-se, à moda das cigarras, no ócio e nos prazeres da vida.

O título completo daquela fábula, ou melhor, daquele vídeo, é “Natuza Nery: a sociedade precisa aderir à proposta de reforma da previdência”.

Natuza é dessas e desses jornalistas que, estrelas, estrelam ainda outros vídeos, como os vídeos promocionais das empresas onde batem ponto. A desenvoltura com que uma jornalista se deixa confundir com Guedes, Maia, Lorenzoni e demais contadores de histórias antropomórficas, isso é um índice do espaço para o contraditório na mídia brasileira, ou de sua míngua.

O contraditório sobre a reforma da previdência – desligado no “canal de que nunca desliga” – aponta, em linhas gerais, que a reforma, em vez de incontornável para os interesses da maioria, tem, ao contrário, os contornos de algo como o slogan de duplo sentido da Assim Saúde: “um plano de classe”. Das classes proprietárias, das quais fazem parte as famílias, afinal, proprietárias das grandes empresas de mídia do Brasil.

Toda essa internalização…

Sobre essa estranha ética que leva profissionais da imprensa a escudar o poder político, o poder econômico, em vez de deixá-los nus; sobre essa estranha ética dos jornalistas, o sociólogo francês Alain Accardo escreveu assim, nos idos da virada do século:

“Tendo internalizado a lógica do capitalismo, a maior parte dos profissionais da imprensa adere livremente às suas exigências. Agem de forma orquestrada sem necessidade de se orquestrarem. Sua identidade de inspiração torna desnecessária a conspiração”.

Assado ou Assim, presume-se que Natuza Nery pague um plano de saúde, como é certo que chega junto com um plano de previdência privada. É quase certo também que seja contratada da firma na forma de outra firma: pessoa jurídica. À parte sua função ideológica, sua posição social, seu regime de contrato, é trabalhadora assalariada pela situação econômica – por mais que, “pejota” da notícia, talvez prefira ser chamada de “empreendedora”.

Não se sabe, antes, se Natuza Nery paga a terapia (toda essa internalização…) passando o cartão do plano ou o de crédito. Mas o caso é que, num daqueles vídeos promocionais sobre o quanto seria incontornável também, como a reforma, o jornalismo da casa onde trabalha, ela conta que uma vez precisou entrar ao vivo, na TV, quando estava no consultório da sua analista.

Foi a própria analista, conta a jornalista, que segurou o smartphone para o link. “Ela nem tremeu”. Claro. São profissionais.

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