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Por volta das 17 horas do dia 26 de abril de 2008, Gautier Béranger, então um alto funcionário do ministério francês da Imigração, foi fazer compras no hipermercado Carrefour Bercy II, na cidade de Charenton, vizinha a Paris. Após passar as compras no caixa 18, Béranger tirou a carteira do bolso e fez um cheque para pagar. Ato contínuo, o funcionário do caixa chamou um segurança da loja para conferir o cheque e os documentos do cliente, procedimento padrão da rede para valores acima de R$ 250 euros, como era o caso. O segurança, terceirizado, era Pierre-Damien Kitenge.

Kitenge, que é negro, diz que quando se aproximou para fazer a checagem protocolar ouviu as seguintes palavras dirigidas a ele por Gautier Bérange:

“Senhor, eu o conheço, o senhor é indocumentado. Negro sujo. Você não tem o direito de tocar nos meus documentos. Você pode colocar um ponto final na sua carreira. Sou eu quem credencia as empresas de segurança”.

Conta o jornal Le Monde:

“No mesmo dia, ‘chocado’, Pierre-Damien Kitenge decide fazer uma reclamação. ‘O gerente da loja está tentando encobrir o caso – diz seu advogado, Patrick Klugman – o gerente telefonou para Gautier Béranger para se desculpar com ele e pediu ao Sr. Kitenge que retirasse sua reclamação’. Em vão. Kitenge então vê sua carga de trabalho diminuir e seus colegas não falam mais com ele. O SOS-Racismo assume o caso e registra uma queixa contra X [o gerente]… por adulteração de testemunhas. A associação ‘está surpreendida com o ambiente pesado, para dizer o mínimo, que tem levado a que, num dos maiores supermercados da França, ninguém tenha visto ou ouvido nada'”.

Dias após o episódio envolvendo Gautier Bérange e Pierre-Damien Kitenge no Carrefour Bercy II, após o episódio ser mencionado pela rádio France Info, a reportagem do Bondy Blog, site francês que cobre diversidade étnica e bairros populares na França, esteve no local para tentar falar com possíveis testemunhas.

Kitenge não estava trabalhando naquele dia. Ninguém fala abertamente sobre o caso. O Bondy Blog ouve de outros seguranças que “eu não quero problemas. Estou aqui para trabalhar”, “quando o vi depois, ele tinha chorado. Tinha os olhos vermelhos” e “não ouvimos o que está acontecendo com os colegas porque trabalhamos relativamente longe uns dos outros”. Outro segurança, este contratado direto do Carrefour, aborda o repórter e diz que os funcionários não estavam autorizados a falar durante o trabalho.

Em julho de 2008, a justiça francesa acabou rejeitando tanto a denúncia de injúria racial feita por Pierre-Damien Kitenge quanto a de adulteração de testemunhas feita pelo SOS-Racismo.

“A acusação não fez nada e não se deu os meios para encontrar provas. Há um aspecto curioso neste caso: o próprio Sr. Béranger trouxe à polícia os depoimentos dos caixas que o colocaram fora de questão”, disse, na época, o advogado de Kitenge.

Depois, a justiça francesa acatou outra denúncia, feita pelo Carrefour, de difamação, contra Kitenge e a revista Entrevue, que havia publicado uma entrevista com o segurança. À Entrevue, Kitenge dissera que “o Carrefour pressiona os funcionários para que ninguém testemunhe” e que o gerente da loja Bercy II “garantiu-me que eu teria um emprego estável se retirasse a minha reclamação. Recebi três telefonemas ofensivos. Eram ameaças que me pediam para retirar a minha reclamação”.

O processo do Carrefour contra Kitenge corre, correm os meses, e no dia 24 de setembro de 2009 um tribunal de Nanterre condena o segurança, já desempregado, e a revista Entrevue a pagarem “um euro simbólico” por difamação e três mil euros de custas judiciais. O Carrefour pedira, inicialmente, indenização de 100 mil euros, quantia descrita pelo advogado da empresa no caso, Emmanuel Daoud, como “relativamente ridícula”, porque “a marca Carrefour vale mais de seis bilhões de euros”.

“O Carrefour é uma empresa que há muitos anos é signatária da Carta da Diversidade e que é considerada uma boa empresa cidadã nesta área. Ver seu nome ligado a atos de adulteração de testemunhas para encobrir comentários racistas em defesa de um funcionário do ministério da Imigração… é simplesmente insuportável!”, disse Daoud numa das audiências do processo.

Curioso: mais de 10 anos depois, “insuportáveis” foi a palavra usada pelo CEO global do Grupo Carrefour, Alexandre Bompard, para se referir com indignação também, também em nome do Carrefour e pelo bom nome do Carrefour, às imagens do espancamento e assassinato do homem negro João Alberto Silveira Freitas na última quinta-feira, 19, em uma loja do… Carrefour, por seguranças a serviço do… Carrefour, em Porto Alegre, aqui para esses lados da França Antártica.

Neste sábado, 21, o CEO do Carrefour Brasil, Noël Prioux, apareceu no intervalo do Jornal Nacional caprichando também nos adjetivos de revolta e pesar, e ao lado de outro João, João Senise, vice-presidente de Recursos Humanos da empresa, que afirmou que “57% dos nossos funcionários são negras e negros”. Em nenhum momento nem Prioux nem Senise mencionam a palavra “racismo”. Outros “colaboradores”, os da “gestão de crises”, provavelmente não deixam.

Quando uma pessoa física é acusada de racismo, a primeira providência costuma ser elencar uma lista de amigos negros. “Tenho amigos negros”. Quando uma pessoa jurídica é acusada de racismo, a primeira providência de “gestão de crises” é pôr na mesa porcentagens de funcionários negros. “Tenho colaboradores negros”. É tiro e queda. Ou melhor: é soco na cara, derruba no chão, asfixia e morte.

“57% dos nossos funcionários são negras e negros”.

Sim, como Pierre-Damien Kitenge.

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2 Comentários

  1. Se a adoção de alto percentual de empregados negros, como forma de dizer que não são racistas, como seriam classificados os senhores de engenho, na época da escravidão, OFICIAL? Provavelmente vão comentar que não tem nada a ver uma situação com a outra.

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