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No artigo de Glenn Greenwald que teria sido censurado pelo The Intercept estadunidense, no final do longo artigo intitulado “O verdadeiro escândalo: mídia dos EUA usa falsidades para defender Joe Biden dos e-mails de Hunter”, o fundador do The Intercept Brasil afirma que jornalistas não devem se preocupar com a intenção de quem lhes passa documentos ou informações (nem com o que a fonte eventualmente deixa de lhes passar?) e, no arremate do texto, diz que a imprensa perde o rumo quando se preocupa mais com a quem serve determinada informação do que se ela é verdadeira.

A segunda afirmação, principalmente, é algo à primeira vista difícil de contestar, como todo bom paralogismo. Mas, olhando de perto, trata-se da dispensa, por um prêmio Pulitzer, do imprescindível balanço geral entre a procedência, relevância e implicações de determinada informação, em um determinado contexto, e o resultado que a fonte pode, pretende, está babando mesmo para obter com a divulgação massiva do… babado.

Passar ao largo dessas questões significa simplesmente que o jornalista está sempre disponível para ser manipulado.

No caso dos e-mails do Hunter Biden, por exemplo, quem se encarregou de distribuir o material de procedência discutível para blogs de direita e para os jornais New York Post e Wall Street Journal, ambos da News Corp. de Rupert Murdoch, foi ninguém menos que a dupla Rudolph Giuliani e Steve Bannon, segundo reportagem do New York Times intitulada “Trump tinha uma última história para vender. O Wall Street Journal não iria comprar”.

O tabloide New York Post, o jornal de menor credibilidade da cidade, comprou a história que Trump, Giuliani e Bannon tinham para vender. O WSJ, não. Segundo o Times, o trio forte do trumpismo aguardava até para um dia específico a publicação da sua última cartada, que, assim pretendiam, seria transformada em material jornalístico explosivo pelas mãos de repórteres do Journal:

“Os editores do WSJ em Washington estavam às voltas com uma questão central: os documentos, ou Bobulinski [um ex-sócio de Hunter Biden], poderiam provar que Joe Biden estava envolvido no lobby de seu filho? Ou era mais uma história do jovem Sr. Biden negociando com o nome de sua família – um tema perfeitamente bom, mas não exatamente novo ou que precisasse ser revelado com urgência antes da eleição”.

“Trump e seus aliados esperavam que a matéria do WSJ fosse publicada na segunda-feira 19 de outubro, de acordo com Bannon. Isso seria tarde, para a campanha, mas não tarde demais – e poderia ditar o noticiário daquela semana que se encaminhava para o nevrálgico debate final. Um ‘artigo importante’ no WSJ sairia em breve, disse Trump a assessores em uma teleconferência naquele dia”.

O artigo do WSJ, afinal, não saiu. Sendo assim, na quarta-feira, 21 de outubro, véspera do debate final, Bobulinski enviou a alguns veículos de imprensa um relato segundo o qual Biden teria lucrado alto com os negócios controversos do seu filho. O site Breibart News, fundado por Bannon, publicou na íntegra.

No dia seguinte, Tony Bobulinski apareceu como convidado surpresa de Trump na Belmont University, em Nashville, palco do debate. Antes de o debate começar, Bobulinski leu uma declaração, voltando à carga contra Biden.

Mas não se deve, diz Glenn Greenwald, ficar preocupado com o objetivo de certas fontes, com o resultado que certas fontes pretendem obter, como se fontes fossem chafarizes jorrando, inocentes, água cristalina para o ar sem consequências além de molhar a própria bacia.

Em sua dura resposta à acusação de Glenn Greenwald de que o artigo “O verdadeiro escândalo: mídia dos EUA usa falsidades para defender Joe Biden dos e-mails de Hunter” foi censurado, os editores do Intercept disseram que Glenn “tentou reciclar as afirmações duvidosas de uma campanha política – a campanha Trump – e lavá-las como jornalismo”.

São acusações graves. As duas. Qual é o “verdadeiro escândalo”?

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