Quando pela primeira vez uma empresa destruída pela Lava Jato entrou em recuperação judicial, em janeiro de 2015, lá estava a consultoria estadunidense Alvarez & Marsal para fazer aquilo com que fez fama e fortuna: elaborar um plano de administração da “massa falida” para ser apresentado aos credores.

Os credores da construtora Alumini Engenharia, neste caso, neste primeiro caso da Alvarez & Marsal se apresentando para juntar e vender na xepa os cacos de empresas quebradas pelo “presiding judge of operation Car Wash“, que foi como a Alvarez & Marsal apresentou nesta segunda-feira, 30, em seu site, a chegada de Sergio Fernando Moro à casa como “sócio-diretor”.

Aconteceu com a Alumini Engenharia em 2015. No ano seguinte, muito antes da Odebrecht, foi a vez da Sete Brasil entrar em recuperação judicial.

A Sete Brasil: empresa criada em 2010, durante o governo Lula, para ser a principal fornecedora de sondas de perfuração para as operações da Petrobras no pré-sal. Em 2014, veio a Lava Jato, a Petrobras foi sendo desmontada, os contratos da Sete Brasil foram dizimados, o crédito secou, as sondas ficaram inacabadas nos estaleiros. Em abril de 2016, o pedido de recuperação judicial da Sete. Dois meses depois, a justiça acata o pedido, e começa um longo processo sob planejamento sempre da Alvarez & Marsal.

No início de outubro do ano passado, 2019, os credores da Sete Brasil aprovaram a venda de quatro sondas inacabadas de perfuração do pré-sal para a britânica Magni Partners, como parte do plano de recuperação judicial elaborado pela Alvarez & Marsal. O preço inicial do “lote” era de US$ 554 milhões. Pois os navios-sonda ou semisubmersíveis Arpoador, Guarapari, Urca e Frade foram arrematados pela multi britânica por pouco mais de 50% do valor mínimo, US$ 296 milhões.

Menos de 300 milhões de dólares por quatro joias patrimoniais do pré-sal, a troco de sequer fazer cócegas numa dívida total da Sete Brasil que era de US$ 5 bilhões. Na época da aprovação da venda pelos credores, o site especializado Click Petróleo e Gás adiantou que, no setor, comentava-se que a Magni terminaria as sondas e depois as venderia “confiando no contrato de afretamento de 10 anos com a Petrobras a uma taxa diária de US$ 299 mil (cada)”.

Tudo isso, um oferecimento da Lava Jato, e da Alvarez & Marsal também.

Segunda onda (de recuperações judiciais)

Pausa para um olhada no noticiário:

Revista Exame, 12 de abril de 2018: “não faz muito tempo, o Brasil vivia uma verdadeira liquidação de ativos. A combinação da crise econômica mais severa em décadas com o maior escândalo de corrupção já revelado na história do país complicou a vida dos acionistas de muitas empresas, que passaram a vender desde estradas e aeroportos até geradoras e distribuidoras de energia a preços baixos. Só as empresas enroladas na Lava-Jato aproveitaram o momento para vender 100 bilhões de reais em negócios nos últimos três anos, a maioria deles na área de infraestrutura, segundo a consultoria especializada em reestruturação Alvarez & Marsal. Foi o suficiente para começar a mudar a cara do setor no país. Antes dominado pelas grandes empreiteiras nacionais, agora há cada vez mais empresas espanholas, chinesas, canadenses e até indianas na cena”.

Época Negócios, 28 de outubro de 2019, matéria sobre a “a redução do papel da Petrobras no desenvolvimento de importantes áreas” do setor de óleo e gás: “Marcos Ganut, diretor de Infraestrutura da consultoria Alvarez & Marsal, destacou que o país tinha apenas a Petrobras como um agente relevante e que o mercado agora passa a ser de fato competitivo”.

Valor Econômico, 18 de março de 2020: “A consultoria Alvarez & Marsal avalia que o impacto econômico sem precedentes da crise do coronavírus tem potencial para gerar uma nova onda de recuperações judiciais e extrajudiciais em patamares semelhantes aos observados no Brasil entre 2015 e 2017, quando grandes grupos sofreram com as consequências da Lava-Jato”.

Sobre os patamares gerados pela Lava Jato, basta dizer que lá em 2015 dois cursos de pós-graduação em recuperação e reestruturação de empresas foram criados pelo Insper.

Proativo, para o alto e avante

No último 5 de novembro, o Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) destacou como “desinvestimentos” da Petrobras movimentaram fusões e aquisições no setor de óleo e gás em 2020. Entre elas, “a aquisição, pela MIC Capital Partners e Magni Partners, das sociedades com propósito específico Arpoador Drilling BV, Urca Drilling BV, Guarapari Drilling BV e Frade Drilling BV, e, em conjunto com Arpoador, Guarapari e Urca, as Rig Owning Cos, que terão como finalidade deter e operar as quatro sondas de perfuração originalmente de propriedade da Sete Brasil”.

Menos de um mês depois, Sergio Moro é anunciado como “sócio-diretor” da Alvarez & Marsal. O ex-juiz da Lava Jato irá “aconselhar clientes sobre estratégia e conformidade regulatória proativa”.

Proativo, Sergio Fernando Moro foi “sócio-diretor” da destruição da Petrobras, e agora finalmente, tardiamente, sem mais cambalachos de toga, apresenta-se para assumir formalmente o cargo. Proativo, para o alto e avante, Sergio Moro é “sócio-diretor” da destruição do Brasil.

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