Uma das fotos que mais têm sido usadas para fazer conhecer a cara do até anteontem inexplorado Kassio Nunes Marques é uma em que o desembargador do TRF-1 aparece usando uma medalha dependurada de um colar azul bundinha. Trata-se da Medalha do Mérito Judiciário Ministro Nelson Hungria.

Que diria o ex-STF Nélson Hungria Guimarães Hoffbauer, “príncipe dos penalistas brasileiros”, soubesse ele que carrega-o no peito, a caminho do STF, um fulano que, pego inventando títulos em Espanha, culpa o tradutor do seu curriculum vitae.

E já que de Hungria falamos, o tradutor do currículo de Kassio Nunes Marques seria, assim, algo como o contrário de Gallus, o protagonista do conto “O tradutor cleptomaníaco”, do húngaro Dezsö Kosztolányi.

Gallus é sujeito culto, fino, poliglota, mas não resiste a subtrair o que lhe aparece pela frente. “Sempre reincidia”. Durante uma viagem de trem, afana uma carteira e vai preso. Quando é solto, cai na miséria. Um amigo, com pena, recomenda-o a um editor, que incumbe Gallus da tradução do inglês para o húngaro do livro “O misterioso castelo do conde Vitsislav”. Semanas depois, o editor diz ao amigo de Gallus que não pagaria ao tradutor “nenhum vintém”, e mostra a ele, narrador do conto, o original e a tradução feita por seu protegido:

O manuscrito húngaro, para minha grande surpresa, assim trazia: “a condessa Eleonora estava sentada num dos cantos do salão de baile, vestida para a noite…”. Sem mais. A tiara de diamantes, o colar de pérolas, os anéis de brilhante, safira e esmeralda haviam desaparecido. Compreendem o que fizera esse infeliz escritor, merecedor de um futuro melhor? Simplesmente roubou as joias de família da condessa Eleonora, e, com a mesma imperdoável leviandade, roubou até o simpático conde Vitsislav, deixando das suas mil e quinhentas libras apenas cento e cinquenta, e da mesma forma surrupiou dois dos quatro lustres de cristal, e desviou vinte e quatro das trinta e seis janelas do velho castelo desgastado pelo vento. Tudo começou a girar ao meu redor. Minha surpresa só aumentou quando constatei, sem nenhuma dúvida, que essa determinação percorria todo o seu trabalho. Por onde sua pena de tradutor passasse, sempre causava prejuízo aos personagens, mesmo que só se apresentassem naquele capítulo, e, sem respeitar móvel ou imóvel, atropelava a quase indiscutível sacralidade da propriedade privada. 

Trecho do conto “O tradutor cleptomaníaco”, do húngaro Dezsö Kosztolányi e com tradução de Ladislao Szabo.

Mas se o tradutor – o tradutor, vamos admitir – do currículo de Kassio Nunes Marques não pegou nada de ninguém quando deu aquela guaribada em notório saber, sobre o próprio Kassio Nunes não se pode dizer o mesmo que o narrador de “O tradutor cleptomaníaco” disse de Gallus – que sua “mancada” não foi, afinal, como a de tantos outros que mexem com as letras, “contrabandear o texto de um outro original”.

Contrabandear o texto de um outro original foi precisamente o que faz Kassio Nunes Marques quando roubou a “Naníbia”, com “n”, de um artigo do advogado Saul Tourinho Leal e meteu o país mal grafado na dissertação de mestrado que apresentou à Universidade Autônoma de Lisboa, conforme fuçou e achou a revista Crusoé.

Trecho do artigo original, de Tourinho Leal:

“O art. 101 da Constituição da Naníbia diz que ‘os princípios da política de estado contidos neste Capítulo não devem ser, por si sós, exigíveis legalmente por qualquer Corte, mas deve, entretanto, guiar o governo na elaboração e aplicação das leis para dar eficácia aos objetivos fundamentais dos referidos princípios'”.

Trecho da dissertação de mestrado de Kassio Nunes Marques, sem citação ao original:

“O art. 101 da Constituição da Naníbia diz que os princípios da política de estado contidos neste Capítulo não devem ser, por si sós, exigíveis legalmente por qualquer Corte, mas deve, entretanto, guiar o governo na elaboração e aplicação das leis para dar eficácia aos objetivos fundamentais dos referidos princípios”.

De modo que o STF, cuja galeria de ministros tem o “príncipe dos penalistas brasileiros”, arrisca ter em breve em sua composição ninguém menos que o homem que roubou a “Naníbia”.

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