Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil.

Há exatos três meses, no dia 7 de novembro de 2019, a Polícia Civil do Rio de Janeiro foi até o Vivendas da Barra, na Barra da Tijuca, para apreender o computador da administração do condomínio onde são vizinhos Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Ronnie Lessa, este último apontado pela polícia como o apertador de gatilho, executor de Marielle Franco.

No dia 29 de outubro do ano passado, uma reportagem do Jornal Nacional mostrou que um porteiro do Vivendas da Barra havia anotado no livro de registros, e confirmado à polícia em depoimento, que no dia do duplo assassinato de Marielle e Anderson Gomes, bem nesse dia, partiu do “Seu Jair” a autorização para que um dos assassinos de Marielle e Anderson, Élcio de Queiroz, entrasse no condomínio horas antes do crime.

Poucas horas após a exibição da reportagem, Carlos Bolsonaro começou a postar vídeos no Twitter exibindo, por sua vez, a tela do computador da administração do condomínio, a fim de provar, mostrando a lista de registros de ligações da portaria, que o porteiro não havia ligado para a casa 58, a do “Seu Jair”.

No dia seguinte à veiculação da reportagem do Jornal Nacional, 30 de outubro, o Ministério Público do Rio de Janeiro mentiu escandalosamente numa entrevista coletiva convocada para dizer que uma perícia nos áudios do condomínio havia refutado conclusivamente o que anotara e dissera o porteiro.

Mentiu, o MPRJ, porque a perícia feita pelo Ministério Público nos arquivos de áudio da portaria do Vivendas da Barra, feita às pressas, duas horas após a exibição da reportagem, avaliou – se é que avaliou – apenas se houve adulteração deste ou daquele arquivo. A perícia não se debruçou sobre a possibilidade, por exemplo, de algum registro de áudio da portaria ter sido deletado antes de ser entregue à Polícia Civil, o que é o próprio xis da questão.

Uma das procuradoras que participaram da entrevista fez campanha para Bolsonaro nas eleições 2018. Este Come Ananás mostrou que ela e uma outra, dentre as três procuradoras que participaram daquela coletiva, assinaram um manifesto tipicamente bolsonarista em 2017.

Nos dias 2 e 3 de novembro, este Come Ananás mostrou também, em dois artigos, que os próprios vídeos de Carlos no Twitter mostravam indícios de que os arquivos de áudio do condomínio Vivendas da Barra estavam sendo manipulados – na melhor das hipóteses, movidos para lá e para cá no próprio computador ou em uma rede; na pior, apagados ou enxertados.

Os dois artigos estão aqui:

Apenas oito minutos após a publicação por Come Ananás do artigo do dia 2, o portal G1 repercutiu que Jair Bolsonaro, presidente da República, havia afirmado num quebra-queixo que “pegou” as gravações do Vivendas da Barra “antes que fossem adulteradas”. Era o presidente da República confessando crime de obstrução de Justiça.

A nota do Sindperj

No dia 3 de novembro, o Sindicato dos Peritos Oficiais do Estado do Rio de Janeiro (Sindperj) emitiu “nota de esclarecimento” sobre o caso Marielle, dizendo assim:

“O SINDPERJ, entidade representante dos Peritos Oficiais do Estado do Rio de Janeiro, vem por meio desta esclarecer que a Perícia Oficial do Estado do Rio de Janeiro, atualmente subordinada à Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, conta com Peritos Criminais e setor especializados em perícias de informática e de áudio e imagem, à disposição e qualificados para o devido seguimento de perícia, como definido no Código de Processo Penal. Esclarecemos que a Perícia Técnica Oficial não foi acionada para periciar a mídia apreendida no condomínio Vivendas da Barra. Segundo os fatos amplamente divulgados, o exame foi feito por técnicos do Ministério Púbico, e teve como objeto um CD apresentado pelo síndico do condomínio, não havendo assim a apreensão dos equipamentos do sistema de portaria. Lamentamos que um evento de grande importância criminal para o país, que envolveu até o Presidente da República, venha a ser apresentado sem o devido processo de comprovação científica. Uma prova técnica robusta e incontestável só pode ser produzida com respeito à cadeia de custódia e com a devida Perícia Oficial da mídia original e do equipamento original no qual foi gravada”.

No dia 5, o Blog do Berta informou que a empresa responsável pelo equipamento de comunicação interna do Vivendas da Barra oferece serviço de acesso remoto a interfone, pondo em xeque o álibi de Bolsonaro de que ele, então deputado, estava em Brasília no dia da morte de Marielle Franco e não poderia, portanto, estar do outro lado da linha quando o porteiro disse ter falado com “Seu Jair” para autorizar a entrada de Élcio de Queiroz no condomínio.

Mesmo diante de tudo isso, só no dia 7 de novembro a polícia do Rio se dignou a apreender o computador do Vivendas da Barra. No dia 9, publicamos o terceiro artigo da série que mostrou indícios de que os arquivos de áudio da portaria do condomínio estavam sendo de alguma maneira manipulados.

O terceiro artigo é este:

No dia 12 de novembro, Carlos Bolsonaro desapareceu das redes sociais, e do mapa também.

Os voos da Gol

No dia 14 de novembro, Come Ananás publicou a lista dos voos Brasília-Rio realizados e cancelados pela Gol no dia do duplo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Naquele dia, dois voos da Gol saíram de Brasília e chegaram ao Rio de Janeiro “a tempo” de seus passageiros eventualmente atenderem interfones na Barra da Tijuca por volta das 17h00, horário da entrada de Élcio de Queiroz no condomínio Vivendas da Barra.

Conforme mostrou em primeira mão o site Tijolaço, Jair Bolsonaro tinha duas passagens Brasília-Rio compradas para aquele dia, para viajar pela Gol.

O artigo de Come Ananás sobre os voos da Gol é este:

Um dia antes da publicação deste artigo, 13 de novembro, começou a circular um tuíte resgatado do dia 14 de março de 2018, dia do assassinato de Marielle, postado pela jornalista Thais Bilenky, que na época do crime trabalhava na Folha de S.Paulo. O tuíte da jornalista informava que “Bolsonaro teve uma intoxicação alimentar, passou mal e, nos últimos dois dias, precisou reduzir bem o ritmo da agenda. Até voltou mais cedo (hoje) pro Rio. Disse a sua assessoria”.

No mesmo dia, mais tarde, porém, começou a circular também um vídeo da Câmara dos Deputados mostrando muito providencial e claramente Jair Bolsonaro participando de uma sessão na Câmara por volta das 20h00 do dia 14 de março de 2018. Dizia este Come Ananás:

“A não ser que se trate de deepfake, é possível cravar que Bolsonaro não estava no Rio, mas em Brasília, em 14 de março de 2018, de modo que só mesmo um sistema de interfone que conecte a portaria a celulares poderia manter de pé, na íntegra, a versão do porteiro que disse ter sido ‘Seu Jair’ quem autorizou a entrada de um dos assassinos de Marielle e Anderson no Vivendas da Barra por volta das 17h00 do dia do crime. Não significa, porém, que Jair Bolsonaro não tivesse de fato intenção de viajar para o Rio no dia do assassinato de Marielle Franco, uma quarta-feira. Ao contrário: ao que tudo indica, tinha, mas por algum motivo desistiu”.

O caçador de porteiro

No dia 19 de novembro, o porteiro que dissera ter falado com “Seu Jair” para autorizar a entrada de Élcio de Queiroz no Vivendas da Barra no dia 14 de março de 2018 voltou atrás, em novo depoimento à polícia do Rio, tomado após dias de imensa pressão, inclusive da parte do ministro da Justiça, Sergio Moro:

Não se sabe se alguém passou a borracha também, ou Liquid Paper, na anotação feita no livro da portaria horas antes dos disparos contra Marielle e Anderson dando conta de que o “tá ok” para a entrada de Élcio no Vivendas da Barra partiu da casa 58, a do “Seu Jair”.

No dia seguinte, 20 de novembro – 13 dias após a apreensão do computador do Vivendas da Barra -, o jornalista Kennedy Alencar dava a notícia de que a polícia do Rio investigava a participação da Carlos Bolsonaro na morte de Marielle Franco. Já seria um “resultado” na perícia?

Em meados de dezembro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, atendendo recomendação do procurador-geral da República, Augusto Aras, arquivou dois pedidos de investigação contra Jair Bolsonaro e Carlos Bolsonaro por obstrução de Justiça no caso Marielle. Os pedidos haviam sido feitos pelo PT e pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Hoje, três meses se passaram desde que o computador do Vivendas da Barra foi tardiamente apreendido, e perícia que é bom, até agora, nenhuma notícia sobre. Aparentemente, Alexandre de Moraes nem esperou por ela para enterrar as notícias-crime contra Bolsonaro por obstrução de Justiça, e nem foi, o ministro do Supremo, questionado sobre isso por uma mídia corporativa inebriada com as reformas anti-povo e pró-corporações – reformas que, segundo essa mídia, tardaram também, mas saíram.

Três meses. A “perícia” para desmentir o porteiro saiu rapidinho, a jato mesmo, num par de horas. Mês que vem, no próximo 14 de março, completam-se dois anos do dia em que Marielle Franco levou quatro tiros na cabeça e Anderson Gomes levou três tiros nas costas, no bairro do Estácio, no Rio. Os disparos com pistola de 9mm foram feitos a dois metros de distância. A casa do apertador de gatilho fica a 50 metros da casa do presidente da República.

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