Na última quinta-feira, 6, Come Ananás enviou um e-mail para o Sindicato dos Peritos Oficiais do Estado do Rio de Janeiro (Sindperj), dizendo que o site publicaria no dia seguinte um artigo sobre a demora por notícias sobre a perícia oficial dos computadores do condomínio Vivendas da Barra; destacando indícios de, digamos, balbúrdia com pastas e arquivos de áudio do condomínio, apontados por este Come Ananás no início de novembro do ano passado; e perguntando se o sindicato gostaria de se posicionar sobre a delonga.

No dia seguinte, sexta-feira, 7, faria três meses da apreensão dos computadores do condomínio da Barra da Tijuca onde são condôminos Jair Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Ronnie Lessa – o apertador de gatilho da execução de Marielle Franco -, e por cuja portaria já entraram de Sergio Moro a John Bolton e, antes deles, Élcio de Queiroz, quatro horas antes de Marielle levar quatro tiros de submetralhadora 9mm na cabeça e Anderson Gomes ser alvejado três vezes nas costas, no dia 14 de março de 2018.

O motivo da procura ao Sindperj foi a contundente “Nota de esclarecimento – caso Marielle” emitida pela entidade no dia 1º de novembro do ano passado. Naquela nota, o sindicato lamentava que “um evento de grande importância criminal para o país, que envolveu até o Presidente da República, venha a ser apresentado sem o devido processo de comprovação científica. Uma prova técnica robusta e incontestável só pode ser produzida com respeito à cadeia de custódia e com a devida Perícia Oficial da mídia original e do equipamento original no qual foi gravada”.

Aqui, a nota completa:

A referência feita pelo Sindperj era ao “resultado” apresentado às pressas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de uma perícia feita às pressas de um CD com os arquivos de áudio do Vivendas, CD esse que foi entregue ao MPRJ pelo síndico do condomínio. No dia anterior àquela nota, 31 de outubro, Come Ananás publicou artigo intitulado “Ministério Público mentiu sobre perícia ter refutado porteiro”.

No dia 29, uma reportagem do Jornal Nacional havia mostrado que no livro da portaria e no depoimento de um porteiro do Vivendas da Barra constava que a autorização para Élcio de Queiroz entrar no condomínio no dia da execução de Marielle partiu da casa 58, a do “seu Jair”. Horas depois da reportagem, Carlos Bolsonaro exibiu no Twitter uma gravação do sistema de interfone do condomínio em que fica claro que a portaria se comunica com Ronnie Lessa, na casa 65, e não com “seu Jair”, na casa 58.

Mentiram, porém, as promotoras do MPRJ, ao dizerem enfaticamente, em entrevista coletiva dada no dia 30, que a perícia realizada nos arquivos duas horas após a exibição da reportagem do Jornal Nacional havia resultado em prova técnica de que a versão do porteiro não correspondia à realidade:

“Isso porque a perícia feita pelo Ministério Público nos arquivos de áudio da portaria do Vivendas da Barra avaliou apenas se houve adulteração deste ou daquele arquivo. A perícia não se debruçou sobre a possibilidade de algum registro de áudio da portaria ter sido deletado antes de ser entregue à Polícia Civil, o que é o próprio xis da questão”, dizia este Come Ananás, naquele artigo.

Deletados, alguns; recortados e enxertados, outros. Só uma perícia a sério poderia dizer.

Sobre ver ou não ver indícios

Come Ananás não recebeu resposta do Sindperj ao e-mail enviado na última quinta. Às 8h06 de sexta, publicamos o artigo “Cadê a perícia? Computador do Vivendas da Barra está há três meses com polícia do Rio”. Naquele mesmo dia, por coincidência, ou nem por isso, o laudo da perícia foi finalmente anexado ao processo do duplo homicídio.

O laudo, vazado para o jornal O Globo, traz uma grande novidade que não é novidade nenhuma. A informação de que a “voz que autorizou entrada de acusado de matar Marielle em condomínio não é de porteiro que citou Bolsonaro”, como O Globo pôs em capa nesta terça-feira, 11, esta informação o jornalista Lauro Jardim, do próprio jornal, já tinha dado no dia 4 de novembro do ano passado, citando conclusão à qual já tinha chegado, não se sabe por quais meios, a Polícia Civil do Rio de Janeiro.

De modo que, se nada mudou na informação, nada mudou na dúvida: ou o porteiro de fato mentiu para a polícia ao dizer que foi da casa 58 que veio o OK para Élcio de Queiroz entrar; ou o porteiro, com 13 anos de casa, enganou-se; ou aconteceu de fato certa balbúrdia com os podcasts, por assim dizer, do Vivendas da Barra, provas técnicas do caso Marielle. Esta última hipótese explicaria o fato de o porteiro do depoimento ser um e o porteiro do áudio ser outro, ou seja, o áudio do OK de Ronnie Lessa para Élcio entrar poderia ser um estranho no ninho, ou melhor, na pasta dos áudios do dia 14 de março de 2018.

Em tempo: as planilhas de controle de acesso ao condomínio mostram que Élcio entrou pelo menos 12 vezes no Vivendas da Barra entre janeiro e outubro de 2018, todas as vezes com registro de visita à casa de Ronnie Lessa. A única exceção seria a entrada para a casa 58 no dia do duplo assassinato de Marielle e Anderson.

Esperava-se que o trabalho dos peritos oficiais do estado do Rio produzisse uma “prova técnica robusta e incontestável”, a partir da análise científica “da mídia original e do equipamento original”; uma prova que pudesse, robusta e incontestavelmente, descartar ou comprovar a hipótese de eventual balbúrdia com os podcasts do Vivendas da Barra.

Mas o que diz o jornal O Globo é que “o ponto crucial da perícia se dá em uma conversa rápida, de poucos segundos, entre os interlocutores identificados como VM1 (voz masculina 1) e VM2 (voz masculina 2)”. Quanto a discos, arquivos e pastas, a reportagem menciona en passant que os peritos usaram um equipamento com “bloqueador de escrita, função que impede que qualquer dado do disco original seja apagado” (impede também que dados sejam enxertados?), mas diz que a perícia foi feita em “cópias” (o que isso significa exatamente?).

Na reportagem, o trecho transcrito do laudo é dúbio; cita que não foram encontrados “indícios sugestivos de edição fraudulenta do disco analisado” – antes, a reportagem diz que os peritos analisaram (“cópias”) não de um, mas de cinco HDs.

Aqui, cabe lembrar, acerca de ver ou não ver indícios, que Alexandre de Moares disse não ter encontrado “indícios mínimos da ocorrência de ilícito penal”, de obstrução de Justiça, na declaração de Jair Bolsonaro de que havia pegado os arquivos de áudio do Vivendas da Barra, provas de um caso de duplo assassinato; e que o procurador-geral da República, Augusto Aras, em manifestação endossada por Moraes, posicionou-se assim, como se uma vereadora adversária do clã não tivesse sido executada com tiros disparados a dois metros de distância por um vizinho de 50 metros do chefe do clã e de Estado: “o fato de um condômino ter o eventual acesso a cópia dos áudios da portaria do local onde reside consiste em mero exercício de direito”.

Assim, em terreno impreciso, equívoco, irresoluto, Jair Bolsonaro faz a festa, comemorando notícia velha como se nova fosse:

‘Desculpe, enganei-me com riqueza de detalhes’

Uma curiosidade adicional fica por conta da data em que os peritos começaram a se debruçar sobre o material: 13 de janeiro, dois meses e seis dias depois de os computadores do Vivendas da Barra serem apreendidos.

Assim, com tudo caminhando de maneira não muito despachada para, não obstante, elucidar um “evento de grande importância criminal para o país”, uma nuance da versão de que o porteiro teria mentido, ou se enganado, vai sumindo do noticiário tão convenientemente quanto um CPF cancelado na Bahia. Ela sequer é mencionada, por exemplo, na reportagem desta terça do jornal O Globo sobre o laudo da perícia oficial. É que, se mentiu ou se enganou, o porteiro fez isso com impressionante riqueza de detalhes. Com vocês, a transcrição de um trecho daquela reportagem do Jornal Nacional do dia 29 de outubro do ano passado:

“O porteiro disse que depois que Élcio se identificou na portaria e disse que iria para a casa 58, o porteiro ligou para a casa 58 para confirmar se o visitante tinha autorização para entrar. O porteiro diz que identificou a voz de quem atendeu como sendo a do ‘seu Jair’. Ele confirmou isso nos dois depoimentos. No registro geral de imóveis, consta que a casa 58 pertence a Jair Messias Bolsonaro. O presidente é dono também da casa 36, onde vive um dos filhos dele, o vereador do Rio Carlos Bolsonaro. O porteiro explicou que, depois que Élcio entrou, ele acompanhou a movimentação do carro pelas câmeras de segurança, e viu que o carro tinha ido para a casa 66 do condomínio. A casa 66 era onde morava Ronnie Lessa, acusado de matar Marielle e Anderson. O porteiro disse, em depoimento, que ligou de novo para a casa 58, e que o homem identificado por ele como ‘seu Jair” teria dito que sabia para onde Élcio estava indo”.

Afora tudo isso – o que não é pouco – está lá, registrado no livro da portaria do Vivendas da Barra, que às 17h10 do dia 14 de março de 2018, o do duplo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, está registrado, por escrito, que antes de o crime acontecer um dos assassinos entrou no condomínio com autorização da casa 58, a daquele que viria a se tornar presidente da República.

A não ser que alguém já tenha usado Liquid Paper, isto não mudou, e em qualquer República minimamente digna da denominação este “detalhe” seria exaustivamente destrinchado, para ser indubitavelmente esclarecido pelos poderes, órgãos e organismos públicos competentes.

Em vez disso, sugere-se a um país que suspeita-se entregue às milícias que este país entube um simplório “o porteiro mentiu”, ou “o porteiro se enganou”, e que depois “o porteiro voltou atrás”, e que “Bolsonaro estava em Brasília”, como se não houvessem soluções tecnológicas para isso, nomeadamente a Bluephone Soluções Tecnológicas, empresa que oferece serviço de acesso remoto a interfone e que presta serviços ao Vivendas da Barra: “seu celular vira um ramal”.

Mas, a rigor, uma República minimamente digna do nome jamais se daria ao irresponsável desfrute de permitir a ascensão a chefe de Estado do chefe de um clã com vasto rol de ligações com a laia miliciana de certo senhor condômino, e de determinado usuário das vagas de visitantes; um fascista; o chefe de um clã, de resto, com histórico, precedente, de exibir gravação fraudada como prova:

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