“Devo à conjunção de um espelho com uma enciclopédia a descoberta de Uqbar” – um misterioso país chamado Uqbar. É assim que Jorge Luis Borges abre um dos seus mais conhecidos contos, “tlôn, uqbar, orbis tertius”.

Uma conjunção de datas com o giro oceânico do Atlântico Sul, por seu turno, se ainda não leva à descoberta de coisa nenhuma, mereceria pelo menos ser um dos encalços em meio aos esforços, se é que há esforços de fato, das “autoridades” brasileiras para descobrir a causa do desastre ambiental no Nordeste – das manchas de petróleo tão ou mais misteriosas que Uqbar.

Senão, vejamos.

No último 23 de agosto, uma sexta-feira, cerca de uma semana antes de praias do Nordeste começarem a ser emporcalhadas por petróleo, a empresa japonesa Modec, um terceirizada da Petrobras, informou à estatal que havia descoberto trincas no casco do navio FPSO Cidade do Rio de Janeiro. Em decorrência das trincas, informou a Modec, naquela altura, 1,2 mil litros de “petróleo residual” haviam vazado na Bacia de Campos, no litoral norte fluminense, a 130 quilômetros da costa.

“Petróleo residual” porque o FPSO Cidade do Rio de Janeiro não estava, não está operante desde julho de 2018. Antigo, o navio que servia para armazenamento e transferência de petróleo está em processo de “descomissionamento”, ou seja, de desativação, como parte do primeiro ciclo de desmonte da indústria brasileira de petróleo e gás, uma fase cercada de riscos ao meio ambiente.

No sábado, 24, a Modec estranhamente iniciou a retirada das 107 pessoas embarcadas no FPSO Cidade do Rio de Janeiro. A evacuação foi concluída na segunda-feria, 26. Neste dia, a Federação Única dos Petroleiros divulgou nota dizendo que os danos no navio-plataforma eram tão extensos que o FPSO corria risco de naufragar.

Em um vídeo, o coordenador geral do Sindipetro-NF, Tezeu Bezerra, disse que ainda não era possível ter noção do impacto ambiental que poderia resultar do vazamento de petróleo pelas trincas no casco do navio:

Na terça-feira, 27 de agosto, a Modec informou que as trincas no casco do FPSO Cidade do Rio de Janeiro haviam aumentado. Inicialmente calculado em 1,2 mil litros, o vazamento havia aumentado também, para 6,6 mil litros de “petróleo residual”. Havia notícias de até 7,8 mil litros. A ANP chegou a criar um “gabinete de crise” para acompanhar a situação.

Este vazamento de petróleo do fim de agosto na Bacia de Campos, mais precisamente no campo de Espadarte, não foi detectado quando apareceu petróleo na superfície d’água. Foi o contrário: as trincas por onde o petróleo vinha vazando foram identificadas quando ocorria a desconexão de risers, no âmbito do processo de “descomissionamento” do navio-plataforma operado pela Modec.

Risers, conforme explica o Dicionário do Petróleo em Língua Portuguesa, são trechos de uma tubulação que liga uma linha de produção submarina a uma Unidade Estacionária de Produção (UEP), como o FPSO Cidade do Rio de Janeiro.

Outro navio-plataforma da Bacia de Campos e que estava prestes a entrar em processo de descomissionamento é o FPSO Fluminense, operado pela Shell. Estava, porque há poucos dias a Shell anunciou que a dinamarquesa Maersk “fornecerá uma solução integrada de extensão da vida útil” do navio.

Em 2016, a Shell estendeu até 2020 um contrato com ela, a Modec, para manutenções do FPSO Fluminense, inclusive para instalação de risers.

Barril da Shell encontrado no Nordeste junto com manchas de petróleo, e com adesivo de fevereiro de 2019.

Borra oleosa, similar ao piche

No FPSO Cidade do Rio de Janeiro havia 169 metros cúbicos de borra oleosa. Borra oleosa é uma mistura de óleo, sólidos e água que se forma no fundo de tanques de armazenamento de petróleo. Em petróleo cru, 169 metros cúbicos equivalem a cerca de 1050 barris, que por sua vez pesam cerca de 280 toneladas. Até agora foram recolhidas cerca de 200 toneladas de petróleo no Nordeste.

Segundo o Programa de Conformidade do Gerenciamento de Resíduos Sólidos e Efluentes Líquidos nos Portos Marítimos Brasileiros, a borra oleosa de petróleo é um “resíduo geralmente semissólido com características oleosas, similar ao piche”. Similar ao piche é o material que vem dando na costa do Nordeste.

Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recolhe amostras de borra oleosa no Nordeste (Foto: Ascom Sergipe).

A borra oleosa de petróleo contém metais pesados. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse nesta segunda-feira, 14, que “esse óleo venezuelano é mais pesado, e por isso vem por baixo”. Venezuelano, brasileiro, uqbariano, o caso é que borras oleosas de petróleo viajam submersas em correntes marítimas, até que vão dar nalguma praia na qualidade não tão rara, não de sereia, mas de desastre ambiental.

No Anexo III de um Manual de Boas Práticas Portuárias da Coppe-URFJ, a borra oleosa figura junto com bombonas de plástico na descrição das categorias de resíduos sólidos e efluentes líquidos.

Bombona de plástico encontrada em Alagoas junto com petróleo semelhante ao piche.

Mas bombonas de plástico, também elas, poderiam “vazar” por fissuras? Bem, o dano no casco do desativado FPSO Cidade do Rio de Janeiro tinha, segundo a ANP, 25 por três metros de extensão.

E borras e bombonas eventualmente despejadas no mar na altura do Sudeste brasileiro poderiam chegar às praias do Nordeste? Petróleo vazando por trincas explicaria petróleo chegando a conta-gotas, ou a “conta-manchas”, na costa nordestina? Bem, os enormes acúmulos de lixo, a maioria – por coincidência, ou nem por isso – plástico, que volta e meia se formam em determinados pontos do litoral brasileiro têm, entre suas explicações, um fenômeno chamado giro oceânico.

Um giro tropical

Com vocês, uma explicação do giro oceânico tropical do Atlântico Sul feita pelo site Geografia Visual:

“O giro tropical do Atlântico Sul, por exemplo, é formado a partir da corrente do Brasil (que flui na nossa costa em direção à Antártica), da corrente do Atlântico Sul (flui em direção à África), da corrente de Benguela (flui da costa africana em direção ao Equador) e da corrente Sul Equatorial (em direção ao Brasil), fechando o giro”.

“A circulação oceânica, sobre o talude continental e o Platô de São Paulo, na Bacia de Campos é dominada pelo chamado ‘Sistema Corrente do Brasil'”, é o que diz um estudo de 2016 chamado “Caracterização da Oceanografia Física do Talude Continental e Região Oceânica da Bacia de Campos”.

O giro tropical do Atlântico Sul, portanto, começa com a Corrente do Brasil, ou Corrente Brasileira, que domina a Bacia de Campos, onde vazou petróleo no fim de agosto – se não antes, se não depois -, e termina na corrente Sul Equatorial. Segundo matéria da Folha de S.Paulo publicada no dia 11 de outubro, as manchas de petróleo que não param de aparecer no Nordeste estão sendo levadas por ela, “fechando o giro”: a corrente Sul Equatorial.

Um pouco mais de “geografia visual”:

O Arquipélago de Fernando de Noronha, por exemplo, fica em uma região de bifurcação da corrente Sul Equatorial. Relata Marcio Dumel, artista plástico, guia turístico e morador de Noronha:

“As praias do arquipélago de Fernando de Noronha são constantemente bombardeadas por chinelos, sementes, troncos de árvores, bambus e muito polietileno, tais como: baldes, canecas, escovas de dentes, garrafas, pratos, etc. Porém, o que se constitui de mais grave é o aporte de resíduos petrolíferos. O tráfego de navios petroleiros na corrente de benguela é muito intenso e a ilegal e destruidora lavagem de porão de navios ainda é uma prática muito utilizada, corroborada por uma inócua fiscalização marinha internacional”.

Para cumprir esse giro tropical, porém, uma manchinha de borra oleosa de petróleo levaria mais, muito, mas muito mais que uma semana para viajar submersa da Bacia de Campos até a costa do Nordeste, o que tornaria oceanograficamente impossível ela partir por volta do dia 26 de agosto e chegar ao seu destino no início de setembro.

A não ser que o “petróleo residual” viesse vazando a “conta-manchas” pelas fissuras no casco do FPSO Cidade do Rio de Janeiro antes de elas serem detectadas durante uma qualquer desconexão de risers. A não ser que do FPSO Cidade do Rio de Janeiro tivesse vazado óleo muito antes desse episódio.

Modec: portfólio

O vazamento do fim de agosto não foi o primeiro, e não foi o primeiro em 2019, no FPSO Cidade do Rio de Janeiro. Nos primeiros dias do ano, outro vazamento no navio na Bacia de Campos resultou em uma mancha de petróleo de 38 quilômetros de extensão – essa, a visível.

O plano inicial para o “descomissionamento” do FPSO Cidade do Rio de Janeiro previa o reboque do navio do campo de Espadarte. Após “uma série de discussões técnicas”, o plano mudou. Na época do primeiro vazamento, a Petrobras não informou se ainda havia óleo armazenado no tanque do navio e qual seria seu volume. O vazamento de semanas atrás mostra que, sim, ainda havia óleo no navio.

Ainda agora, no fim de setembro, as operações no FPSO Cidade de Santos, operado também pela Modec e também a serviço da Petrobras, nos campos de Uruguá e Tambaú, na Bacia de Santos, foram mesmo suspensas após uma fiscalização encontrar “inconformidades”.

Em 2011, quando vazou petróleo do navio-plataforma FPSO Cidade de São Paulo, mais um operado pela Modec, na Bacia da Ilha Grande, litoral sul fluminense, o então delegado da Delegacia de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico do Rio, Fábio Scliar, disse que a empresa contratada pelo Modec para cuidar do acidente ambiental “não fez a coleta do óleo que vazou, mas sim a dispersão”.

“Ou seja – disse o delegado – espalhou o óleo no mar”.

Leia também:

Vaza Óleo V – Petroleiro sob sanção dos EUA e que passou por Singapura está ancorado em Angra dos Reis

Vaza Óleo IV – Colisão de navios com petróleo da Shell em 2017 não foi relatada ao Brasil

Vaza Óleo III – Exclusivo: rastreamos o navio ‘suspeito’ por vazamento no Nordeste

Vaza Óleo II – Óleo do Nordeste: sanções dos EUA criaram ‘frota fantasma’ de petroleiros

Vaza Óleo I – Sanções de Trump podem ser causa primeira de petróleo no Nordeste

Deixe um comentário

Deixe um comentário