Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas.

Sempre que a chuva cai mais forte, como agora, chovem também, como agora, números sobre os bilhões que estavam previstos, mas que as autoridades deixaram de aplicar em obras antienchentes e de contenção de encostas. Exemplo é a informação apurada pelo jornal O Estado de S.Paulo, e publicada nesta terça-feira, 11, dando conta de que nos últimos cinco anos a prefeitura paulista segurou R$ 2,7 bilhões do total que deveria desembolsar para mitigar os efeitos dos temporais na cidade.

Em maio do ano passado, enquanto a cidade do Rio de Janeiro era castigado por temporais – só para variar um pouco -, um levantamento da Coordenadoria de Auditoria e Desenvolvimento do Tribunal de Contas do Município apontou que entre 2013 e 2018 o município deixou de aplicar R$ 3 bilhões do orçamento previsto em programas de controle de enchentes, proteção de encostas, expansão do saneamento, drenagem de rios e obras de pavimentação.

Enquanto os investimentos em infraestrutura despencavam, cidades como Rio de Janeiro e São Paulo apostavam, contra calamidades públicas, em uma médium que diz incorporar o espírito de um índio, o cacique Cobra Coral, que “afirma”, por sua vez, já ter sido Galileu Galilei, Abraham Lincoln e que, não menos importante, é capaz de desviar tempestades.

Trata-se, a médium, de Adelaide Scritori, presidente da Fundação Cacique Cobra Coral (FCCC), cuja missão é, via paranormalidade, “minimizar catástrofes que podem ocorrer em razão dos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”.

O site da FCCC diz que “Adelaide nasceu acompanhadas de uma profecia. Uma certa noite ao norte do Paraná, geava fortemente sobre o sítio da família, momento em que sua mãe entrou em trabalho de parto. Tão forte a geada que toda a plantação de café da pequena propriedade foi perdida. Ângelo Scritori [pai de Adelaide] afirma que naquela noite a profecia havia acontecido, o espírito do Padre Cícero (1844-1934) se manifestou, como costumava acontecer, por meio dele. Avisou, daquela feita, que a mais nova integrante da família teria poderes para se comunicar com outro espírito, um ente poderoso o suficiente para alterar fenômenos naturais”.

O ente era o cacique.

A prefeitura do Rio, por exemplo, manteve por quase duas décadas um convênio com a Fundação Cacique Cobra Coral, que já teve o escritor Paulo Coelho na diretoria. Quando Marcello Crivella, terrivelmente evangélico, assumiu a administração da capital fluminense, em 2017, o convênio não foi renovado.

Há um ano, no início de fevereiro de 2019, Adelaide mandou uma mensagem a Crivella, dizendo: “senhor prefeito, necessário se faz a retirada urgente e remoção de moradores em áreas de risco, para que não seja preciso depois resgatar os corpos”.

E ironizou, a médium:

“Nós ainda acreditamos nas vossas palavras, de que não mistura Política com Religião”.

‘São Paulo vai exigir mais esforço do cacique’

Em fevereiro de 2017, a fundação anunciou que, desprezada por Crivella no Rio de Janeiro, passaria a priorizar São Paulo, atendendo a um “pedido pessoal” do então novo prefeito da capital paulista, João Dória.

Na época, informou a coluna Gente Boa, do jornal O Globo:

“João Doria, prefeito de São Paulo, fechou parceria com a Fundação Cacique Cobra Coral, a entidade esotérica que teria o poder de controlar o clima. O contrato com a prefeitura paulista havia sido firmado na gestão José Serra e finalizado com Gilberto Kassab. A fundação estava de mudanças para a China, mas desistiu porque quer dar uma atenção especial a SP. No entanto, negociou com os chineses de trabalhar à distância”.

Naquela época também, disse assim o porta-voz da fundação, Osmar Santos:

“São Paulo vai exigir mais esforço e empenho pessoal do cacique. É muito mais difícil atuar para dispersar as chuvas por ser uma cidade mais plana. No Rio, o relevo ajuda, pois tem como desviar as nuvens para regiões montanhosas ou o mar”.

‘inodoro, incolor’

O convênio do governo Serra em São Paulo com a Fundação Cacique Cobra Coral foi firmado em 2005. Em 2006, quando foi renovado pela primeira vez, o secretário das Subprefeituras, Andrea Matarazzo, explicou-se assim, no melhor estilo yo no creo em brujas, pero las hay: “o convênio é inodoro, incolor e sem valor financeiro, apenas continuou”.

Andrea Matarazzo, do PSD e da Fiesp, é pré-candidato ao Edifício Matarazzo nas eleições 2020. Quanto ao cacique, de fato a Cobra Coral nada cobra das cidades para desviar temporais, mas pede, em troca, investimento em obras para evitar enchentes – e ganha exposição para fechar contratos com o setor privado.

Teria sido um entendimento, da parte do espírito, de que esse acordo havia sido quebrado o motivo do rompimento do convênio com São Paulo no governo Kassab. Naqueles idos, Osmar Santos disse que “o cacique se irritou com o fato de os recursos para o combate a enchentes na cidade ter sido remanejado para outros investimentos”.

O cacique vs. Maduro

Reativada por Dória em 2017, a parceria entre a cidade de São Paulo e a FCCC não aparece mais na lista dos contratos, convênios e parcerias da prefeitura paulistana que estão em vigor. A lista, disponível no site da prefeitura, foi atualizada pela última vez em setembro de 2018. O atual prefeito de São Paulo, Bruno Covas, assumiu o cargo em abril de 2018, substituindo Dória quando candidato a governador.

No ano passado, A “entidade esotérico-cientifica” ameaçou fazer o céu desbabar sobre a cabeça de Nicolás Maduro. Em e-mail enviado ao presidente da Venezuela, e copiado para a Embaixada da Venezuela no Brasil, a FCCC exortou Maduro a reabrir a fronteira com o Brasil, para passagem de “ajuda humanitária”, caso contrário, a fronteira poderia “ser reaberta por causa de intempéries climáticas”.

No início de 2019, por outro lado, a Cobra Coral afirmou ter sido contratada por um “admirador” de Jair Bolsonaro para impedir que a chuva estragasse a posse do 38º presidente do Brasil. O porta-voz Osmar Santos, garantiu que a missão dada foi cumprida: “apesar de o dia ter amanhecido chuvoso, começou a melhorar após as 13h e foi abrindo. Por onde o presidente e a comitiva passavam, o tempo ia abrindo e permaneceu firme”.

Hoje, a Fundação Cacique Cobra Coral trabalha duro na Austrália, contratada por empresários locais não para desviar, mas para levar chuvas para lá, para apagar incêndios.

“Por que – dizia o astrônomo Carl Sagan – somos tão facilmente enganados por cartomantes, videntes mediúnicos, quiromantes, pelos que leem as folhas de chá, as cartas do tarô, os pauzinhos do I Ching, e por tantos outros do gênero? Mentiras, fraudes, pensamentos descuidados, imposturas e desejos mascarados como fatos não se restringem à magia de salão, nem a conselhos ambíguos sobre assuntos do coração. Infelizmente, eles estão infiltrados nas questões econômicas, religiosas, sociais e políticas dos sistemas de valores dominantes em todas as nações”.

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