Promotoras do caso Marielle assinaram manifesto ‘bolsonarista’

Promotoras do caso Marielle assinaram manifesto ‘bolsonarista’

“Pelas obras e pelos frutos você verá melhor quem é quem”. Assim, com uma paráfrase do versículo 16 do capítulo sete do Evangelho Segundo Mateus (“pelos seus frutos os conhecereis”), termina um manifesto contra a “bandidolatria”, palavra cara ao léxico do bolsonarismo, lançado em 2017 por um juiz de Direito, nove advogados e mais de 100 membros do Ministério Público Militar, Estadual e Federal.

Entre os signatários do manifesto estão duas das três promotoras que atuam no caso do assassinato de Marielle Franco: Simone Sibílio e Carmen Eliza Bastos de Carvalho. As duas, mais Letícia Emili Alqueres Petriz, deram entrevista coletiva nesta quarta-feira, 30, para dizer que a perícia do MP refutou com “prova técnica” a versão do porteiro do Vivendas da Barra de que um dos assassinos de Marielle, Élcio de Queiroz, entrou no condomínio no dia do assassinato com autorização do condômino Jair Bolsonaro. Nesta quinta, 31, mais cedo, este Come Ananás mostrou que esta prova conclusiva não existe, e que portanto a afirmação do MP é uma mentira. Curioso. O manifesto diz que seus signatários querem “revelar certas verdades”.

Manifesto contra a “bandidolatria” pede fim do garantismo.

“Bandidolatria” é um dos parologismos dos quais o clã Bolsonaro e os bolsonaristas em geral costumam lançar mão para atacar precisamente políticos do PT e do Psol. O lançamento do manifesto, em agosto de 2017, coincidiu a realização de um seminário sobre… “bandidolatria” na sede do Ministério Público do Rio de Janeiro. O seminário teve como estrela Kim Kataguiri, líder do MBL.

Na época, o então deputado estadual Marcelo Freixo, correlegionário e espécie de “padrinho político” de Marielle Franco, citou a realização do seminário para ilustrar o cenário de incitação do medo e do senso comum que alimentava aquela que na época era apenas uma possível candidatura de Jair Bolsonaro à presidência da República.

Além de “bandidolatria”, o manifesto assinado por duas promotoras do caso Marielle destila ainda todo um vocabulário “miteiro”, falando em “desordeiros”, “terroristas”, “pessoas de bem”, “você tem sido enganado!”, “bandido solto e você preso em casa com medo” e “democídio”. Pois “Bandidolatria e Democídio” é mesmo o título de um livro indicado pelo “guru” bolsonarista Olavo de Carvalho, instrução repassada por Eduardo Bolsonaro as seus milhões de seguidores no Twitter:

Este “Vade Mecum”, por assim, dizer, foi escrito por Diego Pessi, promotor do Ministério Público do Rio Grande do Sul. Em 2017, Pessi palestrou no seminário sobre “bandidolatria” no MPRJ e assinou o manifesto contra a “bandidolatria” com Simone Sibílio e Carmen Eliza.

‘Parafraseando o presidenciável’

“Do manifesto se depreende que o direito está dominado por ideologias (sic) ensinadas e praticadas por professores, juízes e advogados garantistas e de esquerda”, disse na época o jurista Lenio Streck sobre o que classificou como “assustador manifesto contra a bandidolatria”.

Lenio Streck comparou o lançamento do manifesto que parafraseou o apóstolo Mateus com a decisão de um juiz de Goiás que, também no segundo semestre de 2017, para negar progressão de regime de um apenado, disse assim: “todo mundo sabe das péssimas condições em que se encontram quase todos os presídios do país. Parafraseando o presidenciável Jair Bolsonaro era só o apenado não roubar, que não iria para o presídio. Roubou, vai ter que cumprir pena, nos moldes da sentença”.

Uma das promotoras do caso Marielle/signatárias do “assustador manifesto”, Carmen Eliza Bastos de Carvalho, posou com t-shirt do “presidenciável Jair Bolsonaro” e, no dia da posse de Bolsonaro, disse que há anos não se sentia “tão emocionada”. Em outra foto, aparece abraçada com Rodrigo Amorim, o deputado estadual do Rio que na campanha de 2018 quebrou ao meio uma placa em homenagem a Marielle Franco.

Pelo andar da carruagem, em breve teremos membros do Ministério Público subscrevendo também “um novo AI-5”.

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