‘Quem tem coragem?’: como um grupo anarquista atuou após o ato de 15 de maio no Rio

‘Quem tem coragem?’: como um grupo anarquista atuou após o ato de 15 de maio no Rio
Foto de Stoner no Unsplash.

Texto originalmente publicado no dia 22 de maio no Opinião e Notícia.

Pouquíssimos minutos após o ato de 15 de maio em defesa da educação ser dado como encerrado no Rio de Janeiro, já avançada a noite daquela quarta-feira multitudinária no Brasil, rojões e bombas explodiam durante longos minutos no trecho da avenida Presidente Vargas entre a praça da Candelária e a Central do Brasil, no Centro da cidade.

No meio da escaramuça, um homem, mais velho do que a maioria dos que quebravam vidraças de agências bancárias, destruíam pontos de ônibus, incendiavam lixeiras – e um ônibus -, esse homem andava de costas no meio da avenida, a passos lentos no sentido Candelária, no sentido contrário ao avanço da Polícia Militar.

A avenida ainda estava cheia de pessoas que eram as últimas a irem embora do ato. O cheiro do gás policial já impregnava vários quarteirões da avenida e, ato contínuo, ecoou na Presidente Vargas um coro de “não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar”. Um vendedor ambulante corria puxando seu carrinho, girando uma garrafinha d’água no ar, contagiado pelo canto geral contra o símbolo máximo da violência cotidiana contra a gente pobre do Rio de Janeiro.

Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio, 15 de maio pela educação.

No meio do gás, do coro, desse clima, o homem que andava de costas começa a convidar quem passa para quebrar novos alvos: placas de trânsito, bancas de jornais, tudo mais. “Quem tem coragem? Quem tem coragem?”, repete sem parar. A um grupo que estava na frente da única lanchonete que não tinha baixado a porta, gritou: “vão ficar comendo hambúrguer e bebendo coca-cola, porra?”.

Bem perto da lanchonete, a vidraça de uma agência bancária se fez em pedaços ao impacto de uma pedra. No canteiro central, um rapaz usou um maçarico para acender uma fogueira sob uma placa de trânsito. A dois quarteirões dali, um ônibus da viação Mauá já ardia inteiro, um imenso farol na Presidente Vargas. Um farol avisando o quê? Mostrando o quê? Apontando em que direção?

‘Isso aí é que quebra’

Momentos antes, jovens mandaram o motorista da viação Mauá descer. Não havia passageiros. Pedras e garrafas choveram sobre o ônibus, que era o primeiro veículo de uma longa fila do trânsito interrompido numa transversal da avenida. Ao lado do ônibus havia um carro de passeio com uma senhora ao volante. Algumas pessoas tentaram interromper o ataque, sem sucesso. Em seguida, alguém pôs fogo nos bancos do “busão”.

Uma viatura da PM passou no outro lado da avenida e, quando começou a chover pedras e garrafas nela também, o policial ao volante engatou a marcha à ré e voltou em altíssima velocidade, na contramão. Por muito pouco um grupo de pessoas que atravessava a avenida não foi atropelado.

De volta à Candelária, na esquina da Presidente Vargas com a avenida Rio Branco, uma moça com um lenço cobrindo o rosto atirou outra enorme pedra contra outra agência bancária, uma agência da Caixa. Em frente, na praça da Candelária, um jovem com camisa da UERJ comentava com quem passava ao seu lado: “um ato tão bom, mas isso aí é que quebra”.

Quem já viu de perto uma ação como essa – que quebra, literalmente – após um ato gigantesco como o de 15 de maio no Rio, quem já viu de perto já notou como as enormes vidraças de imponentes agências bancárias podem vir abaixo, inteiras, de uma vez só, com facilidade, ante um braço que brande uma pedra.

Mais ou menos como algumas ilusões.

‘Pelego! Pelego! Pelego!’

Quem for ler “O Mestre de Petersburgo”, romance do Nobel J.M. Coetzee, poderá se lembrar do agitador, talvez um policial infiltrado, da avenida Presidente Vargas (“Quem tem coragem?”) quando o protagonista do livro, ninguém menos que Fiódor Dostoiévski, diz assim ao conselheiro Maximov, um policial também, sobre um conhecido anarquista russo do século XIX: “Nietcháiev é um jesuíta, um jesuíta secular que abraça abertamente a doutrina de que os fins justificam o mais cínico abuso da energia de seus seguidores”.

Diferentemente de outras inúmeras manifestações no Rio, em que foi a repressão policial que desencadeou jornadas de justa revolta mais violenta, dessa vez – e logo dessa vez – foi um grupo de dezenas de jovens que, como gosta de dizer a mídia corporativa, “que começou”, disparando rojões numa aglomeração de viaturas que monitorava o ato a certo distância.

O grupo que provocou e enfrentou a polícia no fim do ato em defesa da educação no Rio, em 15 de maio, só apareceu no fim do ato, ao lado do carro de som. Não foi só à polícia que o grupo dirigiu provocações. A quem, do carro de som, puxasse uma última palavra de ordem contra Bolsonaro, antes da dispersão, o grupo gritou e provocou também: “Pelego! Pelego! Pelego!”.

Final do ato de 15 de maio em defesa da educação no Rio. Aos 30 segundos é possível ouvir um grupo gritando “pelego!” para quem discursava no carro de som.

Gritou e agitou bandeiras metade pretas, metade vermelhas. A bandeira do anarco-sindicalismo. Muitos usavam máscaras. Um deles usava uma máscara do Homem de Ferro – um conhecido vingador do século XXI.

Bandeira anarco-sindicalista.

‘Não é por isso que luta?’

Diante do conselheiro Maximov, o democrata Dostoiévski diz que o mais perto que já tinha chegado do anarquista Nietcháiev havia sido num evento em Genebra organizado pela Liga Para a Paz e a Liberdade – um evento “para ouvir o que poderia ser dito de todos os lados sobre a Rússia”.

O suposto encontro entre Dostoiévski e Nietcháiev em Petersburgo, romanceado por Coetzee, teria acontecido no outono de 1869. Exatos 150 anos depois, nesse outono de 2019 no hemisfério sul, a resposta do conselheiro Maximov a Dostoiévski, quando Dostoiévski lhe diz que rejeita Nietcháiev, soa como um alerta atual para quem tem a verdade ao seu lado, mas aposta no caos.

Avenida Presidente Vargas, Centro do Rio, 15 de maio pela educação.

Para quem tem a verdade, mas considera as justificativas mera perda de tempo – que dispensa, portanto, a política; quem tem a verdade, mas aposta no caos num momento em que as verdades, como já disse alguém, estão morrendo na cruz da utilidade circunstancial que o cinismo no poder encontra para elas. Quando Dostoiévski diz que rejeita tudo o que Nietcháiev representa, Maximov responde: “Incluindo o bem-estar dos povos? Nietcháiev não defende bem-estar dos povos? Não é por isso que luta?”.

Fosse nesse outono, talvez o cínico conselheiro emendasse, antes de chamar reforços, talvez um cabo e um soldado: “Pois é, Fiódor Mikhailovitch, conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

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