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Seis? Meia dúzia? Seis por meia dúzia? É tímido o número de um dígito com que algumas criaturas democráticas brasileiras ora expressam convicção de que entre Donald Trump e Joe Biden tanto faz, porque de qualquer maneira o império requisita o Brasil.

Maior, bem maior, é o número de motivos mais imediatos, óbvios, para não incorrer em verdadeiro insulto: mais de 400 mil, que é marca de mortos por covid-19 ultrapassada no último domingo, 1º de novembro, na América Latina.

Poucos dias antes, no último 27 de outubro, o New York Times publicou extensa reportagem detalhando como Trump e Bolsonaro “minaram defesas da América Latina contra a covid-19” a partir de uma dobradinha contra a ciência, pelo morticínio em massa, selada no encontro entre os dois em Mar-a-Lago, na Flórida, em março deste ano, quando a pandemia começava a se agravar lá, na matriz, como cá.

“Os dois presidentes expulsaram 10.000 médicos e enfermeiras cubanos, retiraram financiamento da principal agência de saúde da região e promoveram erroneamente a hidroxicloroquina como uma cura”, diz o Times.

A reportagem detalha especialmente como Trump e Bolsonaro trabalharam para esvaziar a Organização Panamericana de Saúde (Opas), enfraquecendo o apoio médico-científico com que muitos países latinoamericanos poderiam ter respondido melhor à pandemia.

Em maio, na esteira de seu boicote à OMS, Trump anunciou o congelamento dos repasses dos EUA à Opas. O quinhão estadunidense representa 60% do orçamento da organização. Entre 2019 e 2020, dois primeiros anos do governo Bolsonaro, o Brasil deixou de repassar previstos US$ 24,2 milhões à Opas – 13% do orçamento.

“Com a ajuda de Bolsonaro – diz o Times – Trump quase levou a agência à falência ao reter os fundos prometidos no auge do surto, em um movimento que não havia sido divulgado anteriormente”.

“Países menores e menos poderosos, como o Equador, foram duramente atingidos. O Equador cedeu à pressão dos Estados Unidos e, pouco antes da pandemia, mandou embora cerca de 400 profissionais de saúde cubanos. Em seguida, o país também sofreu com o congelamento de fundos da administração Trump para a Opas, prejudicando a capacidade da organização de fornecer suprimentos de emergência e suporte técnico”.

Dos 10 países com mais mortos por covid-19 em todo o mundo, seis são latinoamericanos, entre eles Brasil e Equador.

“Em sua dedicação para se livrar dos médicos cubanos, o governo Trump puniu todos os países do hemisfério e, sem dúvida, isso significou mais casos de covid e mais mortes pelo vírus”, disse ao jornal o ex-chefe de planejamento estratégico da Opas Mark L. Schneider.

“É ultrajante”, emendou.

“Quase todas as administrações republicanas e democratas anteriores consideraram a saúde pública da América Latina um interesse nacional urgente, porque as doenças infecciosas podem se espalhar facilmente entre a América do Sul e a América do Norte”, pontuou o New York Times, diante da catástrofe impulsionada.

Mas há quem insista que Trump ou Biden é seis por meia dúzia, e isto é ultrajante também.

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