Por que a reforma da previdência é nada menos que um crime perfeito?

Por que a reforma da previdência é nada menos que um crime perfeito?

Os economistas-chefes dos maiores bancos privados do Brasil já fizeram suas fezinhas, fezonas, no bolão da reforma da previdência; do quanto em “economia” com o não-pagamento de aposentadorias a reforma vai representar em 10 anos.

Mario Mesquita, economista-chefe do maior deles, o Itaú Unibanco, aposta em R$ 650 bilhões. O economista-chefe do Banco Safra, Carlos Kawall, confia em R$ 700 bilhões, mas em 12 anos, somente no regime geral de previdência: “muito positivo”. O do Santander, Maurício Molon, tentou estragar a brincadeira: “alertamos que a reforma da seguridade social é necessária, mas dificilmente uma condição suficiente para restaurar totalmente a confiança dos investidores na dívida soberana do Brasil”.

O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, porém, não deixou a seta, ou melhor, a peteca cair. Ele espera que, com a reforma da previdência, o Estado brasileiro deixe de pagar R$ 800 bilhões aos velhos em uma década, e diz mais: a aprovação da reforma pode, sim, fazer o Brasil recuperar o grau de investimento.

O grau de investimento, dado pelas Big Three, as três maiores agências de classificação de risco do mundo – todas dos EUA -, é um selo de bom pagador. Indica baixo risco de calote para quem pensa em apostar, depositar fichas, dinheiro, em títulos da dívida pública.

O futuro ao Deus mercado pertence

Segundo os defensores da reforma da previdência, ela é necessária para garantir a “liquidez” do Estado brasileiro, para que o Brasil tenha capacidade de “honrar seus compromissos no futuro”.

Sobre honrar vinculações orçamentárias determinadas pela Constituição de 1988, nomeadamente com saúde e educação, Paulo Guedes afirmou em entrevista publicada neste domingo, 10, que o governo Bolsonaro pretende avançar, paralelamente à reforma da previdência, com uma ampla desvinculação orçamentária.

O mercado se animou: a bolsa subiu e o dólar caiu. De modo que a ideia de o Brasil “honrar seus compromissos” se resume mesmo a nem pensar em dar uma fraquejada com o pagamento dos títulos da dívida pública num futuro que, assim, ao Deus mercado pertence.

A Safra Vida e Previdência S/A, vendedora de planos de “previdência complementar” do Banco Safra, compõe as carteiras de investimento desses planos, os planos SafraPrev, com ações, títulos de renda fixa e, eles, os títulos públicos federais.

É apenas um exemplo, tomado do banco do banqueiro mais rico do mundo, um brasileiro, Joseph Safra. Todos os maiores e menores bancos do Brasil apostam, depositam suas fichas, dinheiro, nos títulos públicos federais, nos seus juros, como forma de aplicação do capital dos seus produtos de investimento. De fato, “muito positivo”, como disse Carlos Kawall, do Safra, sobre a economia de bilhões e bilhões com a reforma da previdência, também conhecida como crime perfeito: o verdadeiro rombo é a dívida pública, não a previdência social.

Tudo o que já está entre nós

No bolão dos bilhões e bilhões, nenhum economista-chefe seguiu o lance da casa do trilhão (do trilhão a menos, em 10 anos, em pagamentos a aposentados) feito pelo ministro da Economia (da economia a toda custa “para restaurar totalmente a confiança dos investidores na dívida soberana do Brasil”, y la garantia somos nosotros, el pueblo).

O astrônomo Carl Sagan, estadunidense (mas não como a Moody’s, a Fitch e a Standard & Poor’s), durante muito tempo se irritou por lhe atribuírem, inclusive “em artigos elementares de economia nos jornais”, a imprecisa expressão “bilhões e bilhões” (“Como diria Carl Sagan…”), que nunca tinha dito. Sagan superou esse “ressentimento infantil” quando notou, em sua última obra, de meados da década de 1990, que “um número muito mais elegante está agora aparecendo no horizonte, ou perto dele. O trilhão já está entre nós”.

Como exemplo, o astrônomo lembrou que, naquela feita, já estava na casa dos US$ 2 trilhões “o endividamento total de todas as nações subdesenvolvidas para com os bancos ocidentais”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também:

Chefete da República, Bolsonaro saúda as mulheres: 'Ustra vive'

Chefete da República, Bolsonaro saúda as mulheres: 'Ustra vive'