O goleiro Sidão e o padrão Globo de humilhar e ofender

O goleiro Sidão e o padrão Globo de humilhar e ofender

Não foi o segundo gol uruguaio, a bola defensável chutada por Ghiggia na ponta direita que entrou e selou o Maracanazzo de 1950. A maior humilhação sofrida por Moacir Barbosa Nascimento em sua vida aconteceu 43 anos depois, em 1993, quando ex-goleiro Barbosa chorou após ser proibido de entrar na Granja Comary, em Teresópolis, para visitar os jogadores que se preparavam para disputar a Copa do Mundo de 1994, nos EUA, pela seleção de futebol da CBF e da Rede Globo.

“No Brasil, a pena maior por um crime é de trinta anos de cadeia. Há 43 anos pago por um crime que não cometi”, disse Barbosa naquela feita. Ele disputou sua última partida de futebol em 1962, pelo Campo Grande, do Rio. Morreu em abril de 2000, a poucas semanas dos 50 anos do Maracanazzo. Morreu, portanto, preventivamente – e pobre, triste, morando de favor, aos 79 anos de idade.

Quando foi chamado para disputar a Copa de 50, Barbosa jogava pelo Clube de Regatas Vasco da Gama. Negro também, e também agarrando no gol do Vasco, nesse domingo, 12, foi a vez de Sidney Aparecido Ramos da Silva, o Sidão, ser escrachado pelos donos da bola no Brasil. Ou as donas, seria melhor dizer, velhas senhoras que costumam se enervar quando quem já tanto maltratou, e não foi a bola, é alvo de escracho na porta de clubes que não são de regatas, mas verdes-oliva.

Humilhado ao vivo, em rede nacional, pela Rede Globo, que mandou a repórter Julia Guimarães entregar ao goleiro um troféu de “melhor em campo” eleito ardilosamente pela audiência, após ele ter falhado clamorosamente no primeiro gol da derrota do Vasco por 3 a 0 para o Santos.

Era Dia das Mães. Sidão, por um mal que é só dele e de mais ninguém, culpa-se pela morte da sua. Já chegou a tentar suicídio por causa disso. Após o jogo, ainda no campo, suado, com uma camisa em homenagem à sua mãe morta debaixo da camisa do Vasco, Sidão já devia pensar nas manchetes do tabloides esportivos do dia seguinte: “Com Sidão como mãe, Santos atropela o Vasco”.

Foi quando a repórter da Globo se aproximou, com um microfone na mão direita e um trofelzinho na mão esquerda. Não foi a falha feia no primeiro gol santista o pior bocado por que passou Sidão no Dia das Mães.

Pedido de desculpa do ex-jogador e comentarista da Globo Walter Casagrande, que participou da transmissão de Santos 3, Vasco 0.

‘Falta de espírito esportivo’

Há dois anos, no dia seguinte a mais uma partida em que Alex Muralha tinha agarrado de mal a pior no gol do Flamengo, o jornal Extra, do grupo Globo, publicou em capa um “editorial” dizendo que sua equipe de esportes tinha tomado a decisão de, até segunda ordem, passar a chamar o goleiro apenas de Alex, sem Muralha.

O escracho de Muralha publicado em capa desencadeou uma série de manifestações de clubes, a começar pelo próprio Flamengo, jogadores e jornalistas esportivos de solidariedade ao goleiro. Mas não da parte do jornal O Globo, que chegou mesmo a publicar um artigo não assinado intitulado “Flamengo leva a sério piada de jornal”.

Em 2011, o jogador Otacílio Neto, do Noroeste, perdeu um gol incrível numa partida contra o Mirassol, pelo campeonato paulista. Após a partida, o repórter André Aranha, da Globo, chegou perto de Otacílio para pedir que o jogador vestisse a camisa do “Inacreditável Futebol Clube”, com que o Globo Esporte “premiava” quem perdesse o gol mais feito da rodada.

O jogador respondeu: “Vocês são um time de futebol? Então, me contrata. Não, não vou vestir”.

Na época, o site Futebol Interior passou em Otacílio o seguinte sabão, sobre o que se espera de “um jogador de futebol moderno”:

“Um dos grandes objetivos do jogador de futebol moderno é criar uma imagem positiva perante o público e a mídia. Este, contudo, não parece ser a premissa do atacante do Noroeste Otacílio Neto. Nesta segunda-feira, o jogador mostrou falta de espírito esportivo e se recusou a participar de uma brincadeira do programa Globo Esporte, da Rede Globo”.

Haverá sempre quem diga, diante de alguma dignidade demonstrada por um jogador de futebol, que “o futebol está ficando muito chato”, mais ou menos o que dizem os apoiadores de Jair Bolsonaro, “o mundo tá muito chato”, diante da “ditadura do politicamente correto”.

Otacílio não foi o único:

O (a) imbecil que entregou

Em 2012, quando o atacante Hernán Barcos fazia seus primeiros gols pelo Palmeiras, alguns de seus colegas de time, principalmente seu companheiro de ataque, Maikon Leite, diziam-lhe que ele era a cara do cantor brasileiro Zé Ramalho.

No dia de uma entrevista coletiva com Barcos, a pauta do repórter Léo Bianchi, do Globo Esporte, era provocar o argentino com o “apelido”. Diante do constrangimento de Barcos para falar sobre o assunto, Léo Bianchi insistiu, insistiu, insistiu, até que se levantou, abriu espaço entre os jornalistas e, de microfone em punho, entregou uma foto de Zé Ramalho a Hernán Barcos, perguntando em seguida: “mas você não acha parecido?”.

Barcos respondeu: “Não me interessa se parece ou não. São coisas que não vêm ao caso. Estamos falando de futebol. Isso é brincadeira, coisa dos meus companheiros. Mas assim não”. No que Léo Bianchi voltou a insistir: “Foi o Maikon Leite que mandou te entregar”.

“Não importa. Foi você o imbecil que entregou”, disse Barcos, por fim. Na legendagem da coletiva, a Globo traduziu boludo por “bobão”. Então tá. Nesse domingo, na Vila Belmiro, havia outra vez uma boluda, de microfone em punho, cumprindo ordens. Depois, em vez de pedir desculpas, a promissora repórter falou, ora veja, em “respeito”:

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