“Poeta da revolução” — da Revolução Russa — , Vladimir Maiakóvski (1893–1930) prezava, além da poesia, o compromisso com a classe trabalhadora, o Spartak Moscou e o jornalismo qualificado. Sobre fazer versos, quiçá pensando no fazer jornalístico também, Maiakóvski escreveu assim certa vez, sobre objetividade: “é necessário indicar com precisão ou pelo menos dar a possibilidade de apresentar, sem erro, os traços do rosto do inimigo”.

E arrematou que, por isso:

Come ananás, mastiga perdiz.
Teu dia está prestes, burguês.

Maiakóvski, 1917

“Come Ananás”: o dístico revolucionário que marinheiros revoltosos cantaram a plenos pulmões quando investiram contra o Palácio de Inverno em outubro de 1917.

Quase um século mais tarde, em junho de 2016, Augusto de Campos esclareceu à Folha de S.Paulo algo sobre a tradução que fez de “Come Ananás” durante a ditadura civil-militar no Brasil: “nunca fui comunista, mas não resisti ao trocadilho com Prestes” 

 Luís Carlos Prestes: o histórico secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, odiado e perseguido pela ditadura.

Uma justa peraltice com as palavras, portanto. Ao traduzir do idioma de Pushkin para o de Camões, de Machado, um dos poemas em que Maiakóvski se mostrou mais engajado, Augusto de Campos não resistiu, também ele – que nunca foi comunista – à indagação profunda da luta de classes.

Hugo Souza, editor e jornalista responsável (26362/RJ)

PS – Para o Mafuá, que comia cigarras e farejava fascistas.