Sobre ‘Come Ananás’: a indagação profunda da luta de classes

Na introdução que escreveu para a coletânea “Maiakóvski: poemas”, Boris Schnaiderman, nascido na Ucrânia e naturalizado brasileiro, diz o seguinte sobre “Come Ananás”, um dos mais conhecidos poemas de Vladimir Maiakóvski, o “poeta da revolução”, a Revolução Russa de 1917:

“‘Come Ananás’ é um exemplo da poesia de luta. Jornais dos dias da Revolução de Outubro noticiaram que os marinheiros revoltados investiam contra o Palácio de Inverno cantando estes versos. É fácil de compreender sua popularidade: o dístico incisivo, de ritmo tão martelado, à feição dos provérbios russos, fixava-se naturalmente na memória e convidava ao canto”.

O próprio Maiakóvski comentou sobre seu “Come Ananás”, em seu “Como fazer versos”.

Neste livro-manifesto, ao exortar os jovens poetas a que busquem o máximo auxílio à sua classe, ao lançarem mãos à obra, Maiakóvski cita um verso de um poema de Aleksandr Blok, outro poeta russo, seu contemporâneo, a título de exemplo a não ser seguido: “Não dorme, o inimigo infatigável”.

“Eu vos falo/como um vivo aos vivos”, dirigiu-se assim Maiakóvski aos “camaradas futuros”, num outro poema, “A Plenos Pulmões”. Diante do “inimigo infatigável” de Blok, Maiakóvski toca num ponto que, por um lado, ainda hoje – sobretudo hoje -, é capaz de enraivecer os poetas, escritores em geral, educados em tudo, menos nos fins sociais.

Por outro lado, pode ser que esse ponto faça enrubescer, pode ser que nem por isso, certos jornalistas educados em tudo (sobretudo na cartilha dos “novos tempos”), menos na responsabilidade de referir-se às coisas claramente pelos nomes que elas têm; em fazer sobre os fatos as indagações que mais se impõem.

Vladimir Maiakóvski.

Segundo conta o crítico e diretor teatral Fernando Peixoto, em “Maiakóvski: vida e obra”, Maiakóvski, como fundador e enquanto diretor da revista LEF (sigla de Líevi Front, Frente de Esquerda), prezava o jornalismo qualificado. Esse Maiakóvski afirma assim, em “Como fazer versos”, contra Blok:

“É necessário indicar com precisão ou pelo menos dar a possibilidade de apresentar, sem erro, os traços do rosto do inimigo”.

E arremata dizendo que, “por isso”:

Come ananás
Mastiga em paz
O teu último dia chegou, burguês…

Sobre estar prestes

Em outubro de 2017, a editora Perspectiva lançou a mais nova edição de “Maiakóvski: poemas”. Era o centenário da Revolução Russa. Seria o centenário de vida de Boris Schnaiderman, se esse colosso da tradução e do ensaio literário não tivesse morrido no ano anterior, aos 99 anos de idade.

A nova edição é revista, ampliada (traz 20 poemas a mais, em relação à edição original), tem capa dura. Entre o que não mudou está a consagrada tradução de “Come Ananás” do russo para o português feita por Augusto de Campos, significativamente discrepante daquela da edição brasileira de “Como fazer versos”, da Global, feita por Antônio Landeira e Maria Manuela Ferreira:

Come Ananás, mastiga perdiz.
Teu dia está prestes, burguês.

‘Come Ananás’, na página 135 da mais nova edição de ‘Maiakóvski: poemas’. Ao fundo, a edição de 2003. No primeiro plano, capa da primeira edição, de 1967.

Uma nota da edição brasileira de “Como fazer versos” traz a informação adicional – adicional àquela dada por Boris Schnaiderman na introdução de “Maiakóvski: poemas” – de que os marinheiros russos que em outubro de 2017 entoavam os versos de “Come Ananás” em Petrogrado valeram-se, para isso, da melodia de um canto muito conhecido do povo.

Num índice de um outro, diferente, de um antagônico espírito do tempo, em outubro de 2018, no dia da eleição de Jair Bolsonaro, com a apuração já encerrada, moradores da cidade de Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, ao verem passar um comboio do Exército que levava de volta para o quartel soldados que tinham sido alocados em locais de votação, usaram um conhecido canto dos estádios de futebol, mudando-lhe a letra, para saldar a tropa: “Ô, ô, a Ditadura voltou”.

A primeira edição de “Maiakóvski: poemas” saiu em 1967, em plena ditadura militar. Augusto de Campos, segundo ele próprio contou, escolheu alguns dos poemas em que Maiakóvski mais se mostrou engajado, engajado na lua de classes, “para provocar a ditadura”.

Bruno Barretto Gomide, autor do livro “Da Estepe à Caatinga”, sobre a recepção da literatura russa no Brasil, avalia que, às vésperas da decretação do AI-5, a publicação de “Antologia Poética Russa” e “Maiakóvski: poemas” – as duas grandes parcerias tradutórias entre os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Boris Schnaiderman – colocava “a literatura russa em choque com o autoritarismo do país”.

Sobre ser possível ‘suprimir as canalhices’

Acerca de “Come Ananás”, Augusto de Campos esclareceu algo sobre a grande diferença entre a sua tradução do poema de Maiakóvski e aquela feita por Antônio Landeira e Maria Manuela Ferreira: “nunca fui comunista, mas não resisti ao trocadilho com Prestes”.

Luís Carlos Prestes, o histórico secretário-geral do Partido Comunista Brasileiro, odiado e perseguido pela ditadura.

Nas palavras de Fernando Peixoto, Maiakóvski tinha um coração gigante grávido do suicídio, que veio em 1930. Em 1913, o poeta escreveu: “dizem que em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”.

Exato meio século mais tarde, em 1963, Vinícius de Moraes e Carlos Lyra compuseram a “Marcha da quarta-feira de cinzas”, que começa assim: “Acabou nosso carnaval/Ninguém ouve cantar canções/Ninguém passa mais brincando feliz/E nos corações/Saudades e cinzas foi o que restou…”.

O pesquisador Samuel Machado Filho considera a “Marcha da quarta-feira de cinzas” uma espécie de “protesto premonitório contra a realidade imposta pela ditadura militar”. Trata-se de uma daquelas que Caetano Veloso classificou como “as canções de protesto mais bonitas do mundo” – o repertório brasileiro de teor social do pré-64 que, numa mudança estética radical, deixaria para trás a Bossa Nova e sua linha “amor, sorriso e flor”.

Em 1927, numa das viagens que Maiakóvski fez pela União Soviética para recitais e conferências, um espectador lhe perguntou por que ele não abordava em seus poemas os temas belos, “como as rosas”. O poeta respondeu que a época que ficara para trás tinha deixado na Rússia, não obstante, muitos traços, muitas canalhices: “as canalhices suprimidas, as rosas voltarão a florir”.

“A tristeza que a gente tem/Qualquer dia vai se acabar”, dizem outros dois versos da “Marcha da quarta-feira de cinzas”. Por mais que essa marcha nunca tenha sido sobre tomar algum Palácio de Inverno, trata-se de Vinícius, também ele, hoje, depois de morto, falando para os vivos. Talvez um dia algum tradutor russo verta esse dístico para o idioma de Pushkin e cometendo, como Augusto de Campos, alguma justa peraltice com as palavras. Sem resistir, também ele, à indagação profunda da luta de classes.

Hugo Souza, jornalista, quarta-feira de cinzas de 2019.