Emancipação da mulher: vamos de Uber ou das Teses Über Feuerbach?

Em março de 2018, durante testes, um “carro autônomo” da Uber atropelou e matou uma mulher nos EUA: Elaine Herzberg. Um ano depois, na última quinta-feira, 7 de março, véspera do “Dia Internacional da Mulher”, os promotores estadunidenses responsáveis pelo caso (os promotores, não os advogados de defesa) disseram que “não há base para responsabilidade criminal” da Uber no sucedido.

Já a “motorista de apoio” do “carro autônomo” que matou Elaine, outra mulher, Rafaela Vasques, poderá ser indiciada por homicídio, segundo os mesmos promotores.

O site Auto Esporte informa que “a decisão dos promotores de não apresentarem acusações criminais remove uma possível dor de cabeça para a empresa, já que os executivos da companhia tentam resolver uma longa lista de investigações federais, processos judiciais e outros riscos legais antes do IPO [sigla em inglês para Oferta Pública Inicial, de ações] previsto para este ano”.

Elaine caiu morta numa rua do condado de Yavapai, no Arizona. Rafaela deve ser mais uma latina indo em cana nos EUA. Fernanda Melchionna, do Psol, comemorou no Facebook, celebrando vitória do “direito de escolha”, quando a câmara de Porto Alegre aprovou seu projeto de cota de mulheres, 20%, para motoristas da Uber na cidade:

“Dessa forma, as passageiras terão a opção de escolher serem conduzidas por mulheres motoristas! Pela segurança e conforto das nossas mulheres! Seguimos na luta para que políticas públicas nesse sentido sejam efetivadas! Pelo nosso direito de escolha!”.

A palavra capital: ‘capital’

Elaine, Rafaela, a ex-vereadora Fernanda, que em 2018 foi eleita deputada federal, com a melhor votação de uma mulher no Rio Grande do Sul. E ainda Kátia Valéria Nunes Bastos. Motorista da Uber, Kátia foi encontrada morta no último 8 de janeiro, no banco de trás do carro que usava para tirar algum. Foi estuprada e asfixiada por um passageiro em Duque de Caxias, na região metropolitana do Rio de Janeiro. A Uber lamentou a morte da “motorista parceira”.

Cartaz soviético de 1932: “8 de março, dia da revolta da mulher trabalhadora contra a tirania da cozinha”.

“Motoristas parceiros” disputando passageiros que não são os seus, mas do aplicativo, em vez de disputarem vagas de trabalho limitadas; flutuando dia e noite, sem turnos, numa “inovadora”, startápica pista global de carrinhos bate bate. A ideia de “exército de reserva” foi ou não foi atualizada com sucesso, por assim dizer, pela Uber, ou seria melhor dizer que por um dos seus maiores investidores, o fundo de risco Benchmark Capital?

Em tempos de utopia digital, em que pôr a tecnologia a serviço dos homens, anelo de quem se empenha nas lutas sociais, parece algo rebaixado a ter melhores preços que os táxis; nesses tempos, é sempre bom mencionar a palavra capital, “capital”, diante de quem a esqueceu.

Com tanta gente de tantas diferentes profissões indo parar “fazendo Uber”, que dizer sobre as definições atualizadas pela Uber, pelo capital, da própria transição da manufatura para o maquinário, quando os trabalhadores perderam seus ofícios e foram empurrados ao trabalho sob o ditame das engenhocas. Que dizer da ideia de “máquina do patrão”, ante o Gol prata em que Kátia Valéria Nunes Bastos foi encontrada morta no banco de trás?

Da maneira mais macabra, a morte de Kátia informa sobre os limites estreitos, em matéria de “segurança e conforto das nossas mulheres”, de projetos como o da cota de gênero para o trabalho ultra precário; sobre a estreiteza, portanto, de se pôr os carros das pautas identitárias, ainda mais os carros da Uber, na frente dos bois indômitos da luta de classes; sobre pessoas dedicadas às lutas sociais, mas que, pelo visto, preferem chamar um Uber do que correr às Teses Über Fauerbach, onde um centenário senhor alerta pra os limites estreitoféricos, por assim dizer, de enxergar os indivídulos assim, isolados, na sociedade civil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também:

Animador da reforma, Faustão vira garoto-propagada de previdência privada

Animador da reforma, Faustão vira garoto-propagada de previdência privada