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No ano passado, a cofundadora do Intercept estadunidense Laura Poitras e o ex-colunista do site Barrett Brown jogaram uma história de bastidores no ventilador. A história é a seguinte, resumida em seus pontos-chave (links no final do artigo para os relatos originais):

Conta Laura Poitras que no dia 6 de março do ano passado ela foi comunicada por outro co-fundador do Intercept, Jeremy Scahill, e pela editora-chefe Betsy Reed que o departamento de pesquisa do site, que supervisionava os protocolos de segurança dos arquivos de Edward Snowden, seria fechado.

Depois, no dia 12 de março, Poitras foi comunicada por telefone, por Glenn Greenwald e pelo executivo-chefe financeiro da First Look Media (a empresa controladora do Intercept), Drew Wilson, que até mesmo o arquivo de Edward Snowden seria encerrado, “novamente sem meu envolvimento ou consentimento”.

Segundo ela, Greenwald pediu que a decisão não fosse tornada pública, “porque ficaria mal para ele e para o Intercept”.

O motivo alegado por Scahill, Reed, Greenwald e Wilson para fechar tanto o departamento de pesquisa quanto o arquivo de Edward Snowden foi orçamentário. Poitras protestou enfaticamente, sem sucesso. Ela lembrou aos colegas, inclusive, que o departamento de pesquisa consumia apenas 1,5% do orçamento total da First Look Media.

Esses 1,5% equivalem a cerca de US$ 400 mil por ano. De 2014 a 2017, Glenn Greenwald recebeu US$ 1,6 milhão em salários da First Look Media. Só em 2015 ele ganhou US$ 518 mil, mais de meio milhão de dólares, siderurgicamente acima do que ganham jornalistas que trabalham em empresas de mídia sem fins lucrativos, como são a First Look Media e o Intercept.

No dia seguinte, 13 de março, Laura Poitras envia um e-mail para o conselho de diretores da First Look Media fazendo um apelo para que o conselho interviesse a fim de salvar o arquivo de Edward Snowden:

“Dado o valor histórico contínuo do arquivo e o enorme investimento da empresa até o momento, fechar o acesso sem um processo de revisão significativo envolvendo todas as partes interessadas, incluindo o conselho e eu, é impressionante e viola os princípios fundamentais sobre os quais a empresa foi fundada”.

“Desafia o meu entendimento que uma organização de notícias tome tanto cuidado para proteger este arquivo e depois abandone esse conhecimento e seu investimento sem uma revisão adequada envolvendo o conselho e todas as partes interessadas”, disse ainda Laura Poitras, naquele e-mail.

Em vão. Horas depois, Drew Wilson dispara um memorando interno anunciando as demissões decorrentes do fechamento do departamento de pesquisa e do arquivo Snowden.

Em 14 de março de 2019, Laura Poitras liga para Snowden e descobre que ele não havia sido informado por Glenn Greenwald que o Intercept decidira shut down o arquivo com o material cujo vazamento para Greenwald e Poitras – que ganharam um Pulitzer por isso – resultou para ele, Snowden, em uma vida de exílio na Rússia.

Até o fechamento do arquivo Snowden, apenas 10% do material vazado para Glenn Greenwald e Laura Poitras havia sido publicado pelo Intercept.

Quando o fechamento veio a público, Greenwald disse que o material continuaria sob seus cuidados, à espera de um “parceiro certo”, “que tenha os fundos” para uma futura retomada. Difícil imaginar melhor parceiro do que o dono da First Look Media, Pierre Omidyar, detentor de uma fortuna de US$ 13 bilhões.

Como mal se sustentava em pé o argumento de que toda a repentina reviravolta quanto ao material de Snowden se dera por razões orçamentárias, logo surgiram especulações mais, digamos, cabeludas.

A principal delas dava conta de que a decisão estava relacionada ao fato de que o arquivo Snowden tinha passado a ser uma grande inconveniência para Omidyar depois que suas empresas assinaram grossos contratos na última década com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid).

A Usaid, órgão do governo dos EUA, agência estadunidense de sabotagem, ingerência, desestabilização e dominação econômica e cultural, sempre sob o manto do “fomento” a toda sorte de alegadas benesses às nações onde atua, nomeadamente as da América Latina.

“Soft power”.

Aqui, o artigo de Barrett Brown com base nos relatos de Laura Poitras.

Aqui, o artigo sobre o caso publicado no site MintPress News.

Glenn Greenwald e o Intercept Brasil prestaram um grande serviço ao Brasil com a Vaza Jato, que foi o mais importante trabalho jornalístico realizado no país em 2019. Fosse este país uma República de fato, a Vaza Jato teria abalado a República. Greenwald foi intimidado e ameaçado pelas hordas bolsonaristas-lavajatistas e pelo poder (fascista) constituído. Este articulista percorreu 200 quilômetros de distância para engrossar o ato de apoio a Greenwald na Associação Brasileira de Imprensa, no dia 30 de julho do ano passado. A maneira como ele se portou no Roda Viva, diante de uma bancada de Torquemadas e Bernardos Guis, foi algo épica.

Isto é uma coisa. Outra é o apego, a avidez, o desejo de se ter no Brasil, digamos, um Jorge Jesus do jornalismo; se não o próprio Filho do Homem, que teria vindo do Reino do Céu, desculpe, dos EUA, para nos redimir como país, ou pelo menos o jornalismo brasileiro. Se mesmo diante das muitas contradições de Glenn Greenwald, algumas graves, há quem não arreda dessa “vibe”, que se pode fazer, além de recorrer a Jorge Aragão?

“Além do mais, é bom lembrar que a vida segue. E quem sou eu, pra saciar a tua sede?”.

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1 Comentário

  1. O que move o homens são seus interesses, todo ideal trás dentro de si um pensamento político e este trás no seu bojo uma estratégia e uma tática. O jornalista Gleen Greenwald quis intentar um ataque à família Biden as vésperas das eleições e os editores se opuseram. Li em site americano que bases destas denuncias são frutos de falsos denunciantes, dois artigos no site da CBN NEWS, escritos por Ben Collins que cobre desinformação, extremismo e internet para a NBC News. e Brandy Zadrozny que é repórter investigativo da NBC News, que demonstram que estas acusações falsas foram promovidas e veiculadas a por grupos e pessoas ligadas a Trump. Um dos artigos foi publicado hoje e se chama How a fake persona laid the groundwork for a Hunter Biden conspiracy deluge (Como uma pessoa falsa lançou as bases para um dilúvio de conspiração de Hunter Biden) e o outro foi publicado em 22 de outubro de 2020 e tem o titulo Inside the campaign to ‘pizzagate’ Hunter Biden (Dentro da campanha para ‘pizzar’ Hunter Biden) nestes dois artigos eles desmontam detalhadamente o falso dossiê que difama a família Biden. Gleen Greenwald não cita uma única vez que estas denuncias partiram do Qnon e nem fala sobre o esforço de Steve Bannon para a divulgação deste falso dossiê. Li as duas matérias e segui os links. Acredito piamente que o Glenn Greenwald quis favorecer a campanha de Trump e os editores perceberam a armadilha pelo menos é a impressão que se tem.

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