O alerta geral está ligado na Marvel Studios, e não é o velho programa de MPB da Rede Globo reprisando em Burbank, Califórnia, Estados Unidos da América. Trata-se de o estúdio responsável pelo filme mais lucrativo da História, “Vingadores: ultimato”, sendo pego de surpresa com um Leão de Ouro dado no último sábado, 7, ao filme que conta a origem do grande vilão, o Coringa, do “universo estendido” do seu grande rival, a DC.

E se o Festival de Veneza fez “Coringa” virar cult antes mesmo de sua estreia mundial, marcada para 3 de outubro, a Marvel quer responder à altura, chamando também atenção da crítica mais exigente para a origem daquele que, depois da Bienal do Livro do Rio, virou candidato a substituir Thanos, o “titã louco”, na condição de grande vilão do “Universo Marvel”, em geral, e da franquia “Vingadores”, em particular: Marcelo Crivella.

Para tanto, a Marvel vai fazer uma aposta ousada: os roteiristas do estúdio pretendem buscar inspiração para a origem de Crivella, o “bispo enxofrado” que abusa dos seus poderes de alcaide, em um dos mais célebres contos de Anton Tchekhov: “O beijo”, de 1887, no qual o mestre do gênero mostra o tipo de miséria psicológica que a hipócrita sociedade czarista, mas a carioca também, foi capaz de produzir.

Assim, se o Coringa um dia já foi o atormentado Arthur Fleck, Marcello Crivela já foi o patético Riabóvitch.

“O Beijo” conta a história de um incidente com um “oficial pequeno, um tanto curvado, de óculos e de suíças que lembravam um lince”, “de físico indefinido”, que certa noite foi abraçado e beijado por engano, num quarto completamente às escuras, por uma mulher que esperava outra pessoa e que, notando imediatamente o quiproquó, soltou um um pequeno grito e, foi a impressão de Riabóvitch, afastou-se dele com repugnância; deste incidente e dos seus desdobramentos na mente do capitão Riabóvitch, “o mais incolor dos oficiais” de toda a brigada de artilharia da reserva sediada em N.

Mesmo abraçado e beijado por engano, tendo podido sentir, mesmo no breu, a repugnância que causou à erradia beijoqueira, o encurvado e incolor capitão Riabóvitch, depois do beijo, foi tomado “de um sentimento novo, estranho, que não cessava de crescer”, naquela noite de maio em que deixou a mansão do Tenente-General Von Rabbek, por um lado, achando que luzes distantes sorriam-lhe e piscavam, como se conhecessem o episódio do beijo, e, por outro, acossado pela dúvida: “mas quem é ela?”.

Nos meses subsequentes, viajando com a tropa, a alegria que lhe percorria o peito como uma onda, por causa de um episódio que para qualquer outro dos seus companheiros de farda seria motivo de piada, aquilo foi-se transformando em obsessão pela mulher que havia untado seu pescoço com manteiga, ao abraçá-lo, e deixado nele um friozinho de menta junto aos lábios, ao beijá-lo. Nas noites de acantonamento, Riabóvitch se imagina mesmo casado e com filhos, como o capitão Vákhter, que “se casou e é amado, não obstante a sua feia nuca vermelha e a ausência de cintura”.

Da pobreza de espírito à guerra ideológica

E seguia a vida de acampamento, sucediam-se os dias, e todos esses dias Riabóvitch “sentia, pensava e comportava-se como um homem apaixonado”. Até que em agosto a tropa voltou a pernoitar no vilarejo onde, próximo, ficava a mansão de Von Rabbek, e o capitão devaneou “como se estivesse regressando à pátria”.

A noite avançava, e nada de aparecer por de trás da igreja o homem à paisana cavalgando um cavalo dançarino e trazendo aos oficias um convite do Tenente-General para um chá, como tinha acontecido meses atrás. Riabóvitch não se cabia nele mesmo de tanta ansiedade. Até que, não aguentando mais de inquietude, vestiu-se e saiu pela noite escura, tomando o caminho da mansão. Lá chegando, porém, o máximo que conseguiu ver do portão foram os troncos brancos das bétulas mais próximas. “Tendo permanecido ali em pé cerca de um quarto de hora e não conseguindo perceber nenhum som, nenhuma luzinha, arrastou-se de volta…”.

“E o mundo inteiro, toda a vida, pareceram a Riabóvitch uma brincadeira incompreensível”.

De volta para o acampamento, não encontrou nenhum dos colegas oficiais: Von Rabbek mandara um criado a cavalo chamá-los para um chá. “Por um instante, a alegria acendeu-se no peito de Riabóvitch, mas ele a apagou imediatamente, deitou-se na cama e, por pirraça ao seu destino, como que desejando fazer-lhe birra, não foi à casa do general”.

Daí, da pobreza de espírito e da Rússia czarista, até virar pastor, bispo, alcaide e mandar “buscar e recolher” gibis dos Vingadores com beijoca gay, isso foi mesmo um passo de cada vez, incluindo um ministério da Pesca num governo “bolchevique”.

Rumo a Veneza, a Cannes a Berlim! Rumo ao Oscar, e desculpem o spolier.

Riabóvitch, já sem as suíças de lince.

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