O celerado Witzel e todos os helicópteros dos complacentes

O celerado Witzel e todos os helicópteros dos complacentes

O jornal O Globo contou “vários” buracos de tiros numa tenda usada por religiosos na trilha do Monte do Campo Belo, em Angra dos Reis. Os tiros, de fuzil, foram disparados do helicóptero no qual Wilson Witzel embarcou no sábado, 3, junto com policiais da Core, para divertir os celerados que lhe seguem as ideias e nas redes sociais: o próprio governador filmou um policial disparando a esmo, ao gosto da loucura que tomou conta do Rio e do país, sobre uma das regiões mais miseráveis da cidade.

O hotel Fasano, que hospedou a família Witzel em Angra, é mais preciso que O Globo: há 18 buracos, nenhum de tiro de fuzil, em seu campo de golfe projetado por uma dupla de arquitetos britânicos. O hotel tem trilhas também, mas não como a do Monte do Campo Belo, além de yoga na praia e meditação ao pé da cachoeira. Tudo em segurança e sob a mira, ou melhor, sob os olhares de profissionais especializados, mas não como os da Core. O hotel tem ainda, claro, um heliponto.

Dois dias depois, na segunda, 6, moradores da Maré, no Rio capital, também contavam os buracos no chão causados por tiros de fuzil disparados de cima, de helicópteros, para baixo, na favela, mais uma vez por policiais da Core. A chuva de prata do Core sobre a Maré deixou oito mortos e três feridos, entre eles uma criança. Foi a segunda pior chacina perpetrada por agentes a serviço do estado no Rio desde 2013.

Tiros no chão da Maré (Foto: Defensoria Pública do Rio).

Nos primeiros três meses de governo Witzel, 434 pessoas foram mortas pelas “forças de segurança” do Rio de Janeiro. Um recorde macabro. A presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio, Renata Souza, do Psol, denunciou a política de massacre de Witzel à ONU. Mas fica a dúvida sobre o que tem mais chance de ser percebido no Brasil atual apenas como mais um alvo a ser abatido de cima, de baixo, pelo vidro lateral: a ONU, direitos humanos ou uma parlamentar negra do Psol?

A hospedagem da família Witzel durante o último fim de semana, no Fasano Angra, saiu por conta da casa. Nesse Brasil, é marketing positivo receber Wilson Witzel para relaxar, depois dos tiros a esmo de helicóptero, nas sete salas de tratamentos e terapias de um spa de dois mil metros quadrados.

Quanto à inércia do Ministério Público e do Judiciário ante o Rei do Crime, Wilson Witzel, bem, o hotel Fasano promete agraciar seus hóspedes de múltiplos perfis com “uma experiência única ao nadar em meio a cardumes quase infinitos de peixes coloridos que encantam e convivem pacificamente entre si”.

Globocop: ‘Ali! É claramente um bandido!’

Num precioso livrinho sobre as consequências humanas não exatamente de governos encabeçados (e bota cabeça nisso) por psicopatas, mas da globalização, Zygmunt Bauman chama atenção para o alcance cada vez mais reduzido da atenção coletiva, o que “torna mesmo uma semana não apenas um longo período de tempo em política mas um período excessivamente longo na vida da memória humana”.

Imagina um mês. Há praticamente um mês, no dia 11 de abril, o programa Bom Dia Rio, da Rede Globo, recebeu Wilson Witzel para um “balanço” dos seus 100 dias de governo. O número de 434 mortos pela polícia do Rio ainda não estava posto, mas já estava posta, aberta, escancarada, a política de abate de “suspeitos” com tiros dados do alto.

Na entrevista, Witzel falou que não fazia “a menor ideia” de quantas pessoas já haviam sido mortas por snipers durante os primeiros três meses do seu governo, e Flavio Fachel pulou para outro assunto. No fim, em meio a risadas no estúdio, Fachel disse à audiência: “a gente está aqui tentando fazer um clima mais agradável, porque o Rio está precisando”. Deu a Witzel uma caneca do Bom Dia Rio, “com muito carinho e com muita esperança de que tudo dê certo”.

No dia 6 de fevereiro, ao vivo no mesmo Bom Dia Rio, o “Globocop” filmou um homem tentando vender celulares no trânsito, na avenida Brasil. Após alguns minutos de Flavio Fachel chamando a polícia de dentro do estúdio, dois outros homens, armados, começam a perseguir o sujeito. Rapidamente ele é cercado. Sob a mira de duas pistolas, põe as mãos na cabeça e senta-se no chão. Rende-se. Um dos perseguidores claramente se exibe para o Globocop: tira a arma da cintura, põe a arma na cintura, gesticula, arrasta o rendido daqui, dá-lhe pescoção.

Um dos homens armados começa a tirar celulares de dentro do trapo que vestia aquele empreendedor que escapou dos radares do Sebrae. “É claramente um bandido”, disse um desses comentaristas de tudo no estúdio do Bom Dia Rio, mais ou menos o que o estado do Rio de Janeiro disse sobre os oito mortos de segunda na Maré.

‘Não entendi’

No último 31 de março, numa entrevista ao jornal O Globo, Witzel disse que “os snipers já estão sendo utilizados, só não há divulgação”. Os dois repórteres d’O Globo pareceram não se espantar com a confissão do governador de que está em curso uma política de governo de execuções secretas no estado do Rio de Janeiro. E logo estavam falando sobre outra política, a de recuperação fiscal com a União.

No dia 1º de novembro do ano passado, logo após ser eleito, Witzel foi ao programa de Míriam Leitão na GloboNews. Dias antes, ele tinha dito numa entrevista ao Estadão sobre sua promessa de usar snipers para executar pessoas que estivessem portante determinado tipo de arma: “mirar a cabecinha e… pimba!”. Ao tocar nesse assunto, Míriam Leitão disse: “tem toda uma discussão jurídica, e eu não quero ocupar nossa entrevista com isso”. A tarimbada jornalista preferiu se ater a “questões técnicas”, e chegou a perguntar ao governador eleito, sobre tiros de cima pra baixo: “vai filmar?”.

No último fim de semana, em Angra, Witzel filmou. Na segunda, 6, na mesma GloboNews, outra conhecida jornalista disse que, quando viu os vídeos de Witzel com a Core em Angra, ficou na dúvida se era uma operação de apreensão de armas, de drogas, para prisões, ou se era só um voo de reconhecimento. “Não entendi”. De fato, não entendeu nada. Ou se faz de desentendida, a mídia, diante do mais escancarado fascismo.

Nessa quarta, 8, voltando ao assunto do weekend de Witzel em Angra, a mesma jornalista pediu a opinião da audiência sobre os perigos que a sociedade corre quando certos limites são ultrapassados. Falava da estadia de cortesia dada pelo hotel Fasano a Wilson Witzel…

Sem suíte

No fim do filme Spotlight, sobre o trabalho jornalístico que escancarou a política da igreja católica de Boston de acobertamento de padres pedófilos, o editor do jornal The Boston Globe pergunta ao chefe da seção Spotlight,
Walter Robinson, se uma determinada fonte estaria disposta a confirmar novas informações. Diante da negativa, Ben Bradlee Jr., filho do lendário “newspaperman” Ben Bradlee, observa: “mas ele não vê problema em ajudar a igreja a proteger padres tarados. Ele poderia ter dito algo anos atrás, salvando vidas”.

Robinson, constrangido, lembra então que o jornal também poderia ter feito algo 20 anos antes, quando o Globe recebeu denúncias documentadas de dezenas de casos de pedofilia na igreja de Boston, mas enterrou a história numa matéria discreta publicada na editoria Cidade, sem suíte. O editor de Cidade, na época, era o próprio Robinson, que não sabe explicar como, diante desse assunto, foi se ocupar com outros – talvez com alguma minúcia de alguma recuperação fiscal…

De Boston para o Rio, há quase uma década, na manhã dia 1º de fevereiro de 2010, dona Graça Oliveira, então com 60 anos, moradora do morro Dona Marta, na Zona Sul do Rio, enfiou-se debaixo da mesa da sala quando começou a ouvir barulho de tiro e de helicóptero. Mas era só mais um filme. Naquele dia foi filmada uma das mais famosas cenas de “Tropa de Elite 2”. Na cena, o próprio ex-capitão e agora coronel Nascimento comanda de um helicóptero do Bope uma matança na favela. À sua esquerda, a bordo, um atirador de elite senta o dedo no fuzil, ao comando coronel: “pressão ali! pressão ali!”.

No fim da cena de helicóptero e fuzil, diz a voz do narrador, o próprio Nascimento: “depois que eu entrei na secretaria de segurança, a paz dos vagabundos acabou”.

Daquela cena participaram como figurantes 85 policiais e membros das Forças Armadas vindos de todo o Brasil.

Produção mais modesta, a encenação de Wilson Witzel em Angra contou com um punhado de policiais nos mais imundos papéis. Antes de subir no helicóptero, o Rambo de Jundiaí bradou: “pra acabar de vez com essa bandidagem que está aterrorizando a nossa cidade maravilhosa de Angra dos Reis”.

Segue o filme. Depois da Core sentar o dedo na tenda dos crentes, a da trilha do Monte Campo Belo, a Core solta o dedo na Maré, de dentro de um helicóptero também. Sobem os créditos, e a mídia está neles.

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